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Alex de Souza: Como Um Brasileiro Se Tornou o Maior Ídolo da História do Futebol Turco

 Na Turquia, existe um ditado no futebol: "takim captan" — capitão do time. Durante oito anos, essas duas palavras foram sinônimo de um único nome: Alex. Não Alex Ferguson, não Alexis Sánchez. Apenas Alex. Alex de Souza. O meia brasileiro que chegou a Istambul como um reforço comum e saiu como uma divindade, com estátua erguida em sua homenagem na frente do estádio, famílias nomeando filhos em sua honra e adversários se curvando diante de sua presença.

Esta é a história de uma das maiores idolatrias que o futebol já produziu.

De Curitiba para o mundo

Alexsandro de Souza nasceu em 14 de setembro de 1977, em Curitiba. Começou no Coritiba, passou pelo Palmeiras, teve uma passagem apagada pelo Parma na Itália, vestiu a camisa do Flamengo e encontrou seu auge no Cruzeiro, onde em 2003 liderou a equipe na conquista da tríplice coroa — Campeonato Mineiro, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro. Naquela temporada, Alex foi eleito Bola de Ouro e Rei da América. Era, sem discussão, o melhor jogador do futebol brasileiro.

Apesar de tudo isso, Alex nunca foi convocado para uma Copa do Mundo. Disputou três Copas América pela seleção, vencendo em 1999 e 2004 (a última como capitão), mas a vaga no Mundial sempre escapou. É um dos grandes "injustiçados" da história da seleção brasileira.

Em 2004, aos 26 anos, aceitou uma proposta de 5 milhões de euros do Fenerbahçe, da Turquia. A decisão surpreendeu muita gente. Por que um jogador no auge iria para um campeonato sem destaque na Europa? Alex tinha seus motivos: segurança financeira e a oportunidade de recomeçar no continente europeu. O que ele não sabia é que estava prestes a protagonizar a história de amor mais bonita entre um jogador e um clube.

Amor à primeira vista

Logo na primeira temporada, em 2004-05, Alex conquistou o título da Süper Lig turca. Foi vice-artilheiro do campeonato com 24 gols e rapidamente se firmou como o principal jogador da equipe. Mas os números contam apenas parte da história. O que fez os torcedores do Fenerbahçe se apaixonarem por Alex foi algo além das estatísticas: sua entrega, sua identificação com o clube e, acima de tudo, sua lealdade.

Na temporada 2006-07, sob o comando de nada menos que Zico como técnico, Alex foi nomeado capitão do time. Conquistou novamente a liga turca, desta vez como artilheiro e maior assistente do campeonato. Na temporada seguinte, ajudou o Fenerbahçe a fazer a melhor campanha da história do clube na Champions League, chegando às quartas de final, onde foram eliminados pelo Chelsea.

Ao longo de seus oito anos no clube, Alex conquistou três campeonatos turcos (2004-05, 2006-07 e 2010-11), duas Supercopas (2007 e 2009) e uma Copa da Turquia (2012). Individualmente, foi eleito o melhor jogador da liga turca em três ocasiões (2005, 2007 e 2010). Marcou 136 gols em 245 jogos pela liga, tornando-se o maior artilheiro estrangeiro da história do campeonato turco. No total pelo Fenerbahçe, foram 378 partidas, 185 gols e 162 assistências.

Por que a Turquia ama Alex?

Os números impressionam, mas a idolatria que Alex conquistou na Turquia vai muito além de gols e títulos. Jogadores estrangeiros passam por ligas ao redor do mundo todos os anos. Poucos — muito poucos — são adotados como filhos por um país inteiro.

Alex aprendeu turco fluentemente. Deu entrevistas no idioma, cantou músicas com os torcedores, se envolveu com a comunidade local. Ele não era o estrangeiro rico que veio jogar e ir embora. Ele se tornou parte da família. Há relatos de torcedores que viajaram do interior da Turquia a Istambul apenas para vê-lo jogar, de pais que levaram recém-nascidos ao estádio vestindo camisas com seu nome, de crianças que cresceram imitando seu jeito de chutar faltas.

Em março de 2012, durante um clássico contra o Galatasaray, Alex marcou um golaço de fora da área que fez o estádio Şükrü Saracoğlu tremer. Longe dali, na cidade turca de Afyonkarahisar, o jovem Murat Ceylan assistia ao jogo com amigos e fez uma promessa: se um dia tivesse um filho, daria o nome de Alex. Sete anos depois, em abril de 2019, seu primeiro filho nasceu — no intervalo de mais um Fenerbahçe x Galatasaray. Murat cumpriu a promessa. Quando Alex soube da história por meio de uma plataforma de vídeo-mensagens, gravou um recado para o pequeno Alex turco: "Que honra ter uma criança com o meu nome. É algo que me deixa muito feliz. Não é normal e não acontece todos os dias."

A estátua e a saída amarga

Em 15 de setembro de 2012, o Fenerbahçe inaugurou uma estátua em tamanho real de Alex em frente ao seu estádio. O monumento levou dois anos para ser concluído e se tornou ponto de peregrinação para torcedores. É raro que um clube homenageie um jogador ainda vivo com uma estátua — e raro que um jogador estrangeiro receba esse tratamento.

Ironicamente, a saída de Alex do Fenerbahçe foi amarga. O técnico Aykut Kocaman, que era o maior artilheiro da história do clube na liga turca, passou a tirá-lo dos jogos. Alex acusou publicamente o treinador de sabotá-lo para impedir que ele quebrasse seu recorde de gols (faltavam apenas quatro). O presidente do clube ficou do lado do técnico, e Alex, mesmo com contrato, teve o vínculo rescindido em outubro de 2012.

A despedida foi dolorosa, mas revelou o tamanho do que ele significava. Torcedores foram até a porta da casa do brasileiro prestar homenagens. Faixas foram estendidas pela cidade. O jogador que chegou como um reforço qualquer saiu como o maior ídolo da história do Fenerbahçe.

O retorno como treinador

A história de Alex na Turquia ganhou um novo capítulo em 2024, quando ele retornou ao país como treinador do Antalyaspor, um time modesto da primeira divisão turca. Na sétima rodada do campeonato, o destino preparou o roteiro perfeito: Antalyaspor x Fenerbahçe.

Alex perdeu o jogo por 2 a 0, mas o placar foi o menos importante da noite. José Mourinho, técnico do Fenerbahçe, o recebeu com um longo abraço antes da partida. Os torcedores visitantes, do Fenerbahçe, aplaudiram o brasileiro. E até jogadores adversários fizeram questão de reverenciá-lo. O marroquino Sofyan Amrabat, que nem sequer viu Alex jogar ao vivo, declarou: "Alex de Souza é a nossa lenda."

Alex de Souza nunca foi a uma Copa do Mundo. Nunca vestiu a camisa de um Barcelona ou Real Madrid. Mas construiu algo que pouquíssimos jogadores na história conseguiram: tornou-se imortal em um país que não é o seu. Na Turquia, Alex não é apenas um ex-jogador. Ele é família.


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