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Conto de Fadas? Como o Leicester City Realizou o Impossível e Chocou o Mundo do Futebol

 Em 2 de maio de 2016, enquanto os jogadores do Leicester City assistiam juntos ao jogo entre Chelsea e Tottenham na casa de Jamie Vardy, algo impensável se tornou real. O empate em 2 a 2, com gol de Eden Hazard nos minutos finais, selou matematicamente o título da Premier League para um clube que, apenas um ano antes, estava na lanterna do campeonato inglês. As casas de apostas davam odds de 5.000 para 1 para a conquista — era mais provável que encontrassem o Monstro do Lago Ness.

Esta é a história do maior feito esportivo do século XXI.

De quase rebaixado a campeão em 12 meses

Para entender a magnitude do que o Leicester fez, é preciso voltar um pouco no tempo. Na temporada 2014-15, o clube de uma cidade de 350 mil habitantes no centro da Inglaterra fazia uma campanha desastrosa. Em abril de 2015, a oito rodadas do final, o Leicester ocupava a última posição da tabela, com apenas quatro vitórias em trinta jogos. O rebaixamento parecia inevitável.

Então aconteceu algo inexplicável. O time venceu sete dos últimos oito jogos da temporada e escapou do rebaixamento de forma épica, terminando em 14º lugar. A festa no King Power Stadium após a goleada de 5 a 1 sobre o Queens Park Rangers foi como se tivessem ganhado um título. Naquele momento, ninguém imaginava que aquilo era apenas o prólogo de algo muito maior.

O treinador que ninguém queria

Após a escapada milagrosa, o técnico Nigel Pearson foi demitido. Em seu lugar, chegou Claudio Ranieri, um veterano treinador italiano de 63 anos que vinha de uma experiência desastrosa com a seleção da Grécia — o presidente da federação grega chegou a pedir desculpas publicamente pela contratação. A imprensa inglesa ridicularizou a escolha. O jornal Daily Mail chamou de "a nomeação mais sem inspiração da história da Premier League".

Ranieri, porém, trouxe algo que o elenco precisava: simplicidade. Enquanto os rivais com elencos milionários — Chelsea, Manchester City, Arsenal, Manchester United — se perdiam em esquemas táticos complexos e egos inflados, o italiano pediu apenas duas coisas ao grupo: defender juntos e atacar rápido.

A receita do impossível

O segredo do Leicester não era nenhum jogador de classe mundial. Era a química perfeita entre peças que, individualmente, não chamariam atenção em nenhum outro clube grande da Europa.

Kasper Schmeichel, filho do lendário Peter Schmeichel, era um goleiro sólido mas que vivia sob a sombra do pai. Robert Huth e Wes Morgan formavam uma dupla de zaga que compensava a falta de velocidade com posicionamento e raça. N'Golo Kanté, contratado do modesto Caen da segunda divisão francesa por apenas 5,6 milhões de libras, cobria cada centímetro do campo como se tivesse baterias nos calções, nas palavras do próprio Ranieri.

Na frente, dois nomes se destacavam. Riyad Mahrez, um argelino contratado do Le Havre, também da segunda divisão francesa, por meros 400 mil libras, dançava com a bola como poucos na liga. E Jamie Vardy, um atacante que aos 23 anos jogava na quinta divisão inglesa enquanto trabalhava como operário em uma fábrica, virou uma máquina de gols. Vardy quebrou o recorde da Premier League ao marcar em onze jogos consecutivos.

A temporada perfeita

O Leicester abriu a temporada 2015-16 com uma vitória convincente por 4 a 2 sobre o Sunderland e não parou mais. Jogo após jogo, o time de Ranieri desafiava as probabilidades. Em fevereiro de 2016, venceram o Manchester City por 3 a 1 fora de casa e abriram cinco pontos na liderança. O mundo começou a prestar atenção.

Ranieri usava uma tática simples: pizzas. A cada jogo sem sofrer gol, o treinador levava o elenco para comer pizza. Quando o time conseguiu uma sequência de jogos sem ser vazado, ele brincou: "Agora mudamos para pizza com caviar". A leveza no vestiário era o combustível emocional que mantinha o grupo unido enquanto a pressão aumentava semana após semana.

No final da campanha, os números eram impressionantes: 23 vitórias, 12 empates e apenas 3 derrotas em 38 jogos. O Leicester terminou com 81 pontos, dez à frente do Arsenal, segundo colocado. Quatro jogadores do elenco foram eleitos para o time ideal da temporada: Mahrez, Vardy, Kanté e Morgan.

A noite que mudou tudo

No dia 2 de maio de 2016, o Leicester não entrou em campo. Quem precisava jogar era o Tottenham, contra o Chelsea, em Stamford Bridge. Se os Spurs não vencessem, o título seria dos Foxes. O elenco se reuniu na casa de Vardy para assistir ao jogo juntos.

O Tottenham abriu 2 a 0 no primeiro tempo. Por um momento, a festa foi adiada. Mas no segundo tempo, Gary Cahill diminuiu para o Chelsea e, já nos minutos finais, Eden Hazard empatou. Quando o apito final soou, a casa de Vardy explodiu em celebração. Jogadores choravam, abraçavam-se, pulavam em cima uns dos outros. Na rua, torcedores do Leicester que acompanhavam o jogo em pubs pela cidade saíram para celebrar até o amanhecer.

A BBC comparou o feito a outros momentos impensáveis do esporte: o título europeu do Nottingham Forest nos anos 70, a vitória de Buster Douglas sobre Mike Tyson em 1990, e o fim do jejum de 86 anos do Boston Red Sox no beisebol. Claudio Ranieri, o técnico que ninguém queria, chorou na coletiva de imprensa: "Estou muito emocionado. Os jogadores são incríveis. Fizemos algo que ninguém acreditava ser possível."

Depois do conto de fadas

A história do Leicester depois do título, infelizmente, não manteve o tom de conto de fadas. Ranieri foi demitido em fevereiro de 2017, apenas nove meses após a conquista. Kanté foi vendido para o Chelsea, onde seria campeão inglês no ano seguinte. Mahrez partiu para o Manchester City em 2018, por 68 milhões de euros, tornando-se a venda mais cara da história do Leicester.

O clube ainda viveu bons momentos — conquistou a Copa da Inglaterra em 2021, disputou a Champions League e chegou à semifinal da Conference League. Mas os gastos para tentar se manter entre os grandes cobraram seu preço. Em 2023, o Leicester foi rebaixado da Premier League. Em 2026, dez anos após o título histórico, o clube luta para não cair para a terceira divisão inglesa, soterrado por dívidas e punições financeiras.

O conto de fadas acabou? Talvez no campo. Mas na memória do futebol, a temporada 2015-16 do Leicester City permanece como prova de que o impossível existe — você só precisa de um time que acredite junto.


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