A Melhor Seleção que Nunca Foi Campeã do Mundo
Foram 16 passes, 53 segundos, um pênalti sofrido por Cruyff e Johan Neeskens fuzilando o gol de Sepp Maier. A torcida local emudeceu. Parecia que o mundo tinha acabado de assistir ao protocolo de rendição antes mesmo de a batalha começar.
Não acabou bem para a Holanda.
Mas é exatamente aí que a história fica interessante — porque a derrota daquela final não apagou nada. Fez o oposto. Cinquenta anos depois, a seleção holandesa de 1974 é lembrada como uma das maiores da história do futebol, talvez a maior que nunca levantou uma taça. O que ela fez dentro de campo mudou como o jogo é pensado até hoje.
O Futebol Total e o problema que ele criou para os adversários
A ideia era tão simples quanto impossível de executar: nenhum jogador tinha posição fixa.
O técnico Rinus Michels, que havia lapidado o sistema no Ajax, levou para a seleção holandesa um conceito que ficou conhecido como Totaalvoetbal — o Futebol Total. Quando a Holanda tinha a bola, todos atacavam. Quando perdia, todos defendiam. Os zagueiros apareciam no ataque. Os atacantes voltavam para marcar. O meio de campo pressionava em bloco muito antes disso virar moda no futebol europeu.
O problema para quem jogava contra eles era básico: você sabia que o número 5 era zagueiro. Mas dois minutos depois, ele estava na área adversária. E alguém diferente havia preenchido o espaço que ele deixou. A rotação era constante e organizada — o que deixava os adversários sem referência alguma.
Zagallo, técnico do Brasil tricampeão, enviou um espião para observar os holandeses antes do confronto entre os dois na fase semifinal. O relatório voltou dizendo que o time parecia uma pelada mal organizada, exceto pelo goleiro e por um tal de Cruyff. O Brasil perdeu de 2 a 0, com Luís Pereira expulso e Leão sendo o único responsável por evitar um placar maior.
Quem era esse Cruyff
Johan Cruyff tinha 27 anos na Copa de 1974 e já havia vencido o prêmio de melhor jogador do mundo em 1971 e 1973. Era rápido, inteligente e praticamente inclassificável em termos de posição. Podia sair do ataque, descer para o meio-campo, aparecer pela lateral e estar de volta na área adversária antes que o marcador entendesse o que tinha acontecido.
A Alemanha escalou Berti Vogts especificamente para seguir Cruyff o jogo inteiro. O apelido de Vogts era "O Terrier" — e ele cumpriu sua função com obsessão. Mas o Futebol Total era coletivo demais para ser desmontado por uma marcação individual. Havia Neeskens, havia Rep, havia Krol e Haan aparecendo de todos os lados.
A base do time era a mesma que havia conquistado três Copas Europeias consecutivas pelo Ajax em 1971, 1972 e 1973. Michels tinha jogadores prontos, rodados, acostumados a jogar juntos.
A Copa de 1974
A Holanda chegou à final sem perder um único jogo. Goleou a Argentina por 4 a 0 na segunda fase. Bateu a Alemanha Oriental por 2 a 0. E despachou o Brasil por 2 a 0 numa partida em que os sul-americanos nunca souberam como parar a movimentação laranja.
A final foi contra a Alemanha Ocidental, em casa para os alemães. E foi lá que aconteceu o pênalti mais rápido da história das finais — o gol de Neeskens antes de qualquer alemão encostar na bola.
A Alemanha virou ainda no primeiro tempo: empate de pênalti com Breitner aos 25 minutos, virada de Gerd Müller aos 43. No segundo tempo, a Holanda esbarrou em Beckenbauer e na frieza germânica. Não saiu mais o gol do empate.
Placar final: 2 a 1 para a Alemanha.
Uma das maiores seleções que o futebol já viu saiu da Copa sem o título.
1978: a segunda chance — e o motivo que só veio à tona 30 anos depois
Quatro anos depois, a Holanda voltou à final — mas sem Cruyff.
O maior craque do time simplesmente não foi à Copa de 1978, na Argentina. Na época, surgiram várias versões: problema de patrocínio (Cruyff era embaixador da Puma, e a seleção usava Adidas), protesto político contra a ditadura militar argentina, briga com a federação. Cruyff nunca confirmou nenhuma delas.
Só em 2008, trinta anos depois, ele revelou o motivo real: meses antes da Copa, sua família havia sofrido uma tentativa de sequestro em Barcelona. Homens armados invadiram a casa durante a noite, amarraram Cruyff e a esposa diante dos filhos. O trauma foi tão profundo que ele não conseguia imaginar deixar a família por oito semanas para disputar um torneio.
Sem ele, a Holanda chegou à final de 1978 assim mesmo — e perdeu para a Argentina de Kempes por 3 a 1 na prorrogação.
Vice-campeã de novo.
O que ficou
Uma seleção que foi duas vezes à final, nunca ganhou, e mesmo assim transformou o futebol.
Quando Johan Cruyff encerrou a carreira de jogador, levou o Futebol Total como treinador para o Barcelona. Lá, influenciou uma geração inteira — entre eles um certo meia de 18 anos chamado Pep Guardiola. O Barcelona que dominou a Europa entre 2008 e 2011 com o tiki-taka tem, na raiz, a mesma filosofia de Michels e Cruyff: posse de bola, pressão coordenada, jogadores que ocupam o espaço do colega.
Se hoje os treinadores falam em pressing alto, em compactação, em jogadores polivalentes que não ficam presos a uma posição, grande parte disso tem endereço certo: Amsterdã, anos 70.
A Holanda nunca ganhou uma Copa do Mundo. Venceu a Eurocopa em 1988, com Gullit e Van Basten, e chegou mais uma vez à final em 2010, na África do Sul — quando a Espanha, herdeira direta da filosofia holandesa, virou o jogo com um gol de Iniesta na prorrogação.
O futebol tem um jeito irônico de fechar os ciclos.
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