Do Neverkusen ao Invencível: o fim de uma maldição de 120 anos
Em maio de 2002, o Bayer Leverkusen perdeu três finais em onze dias.
No dia 4, o Borussia Dortmund conquistou a Bundesliga enquanto o Leverkusen — que liderava o campeonato com cinco pontos de vantagem a três rodadas do fim — perdia para o Nuremberg, um time que lutava contra o rebaixamento. Um ponto teria bastado para ser campeão. No dia 11, a final da Copa da Alemanha contra o Schalke: Leverkusen abriu 1 a 0 com Berbatov e tomou a virada por 4 a 2. No dia 15, a final da Liga dos Campeões em Glasgow, contra o Real Madrid. Lúcio marcou para o Leverkusen, mas Zidane respondeu com uma volea de canhota no ângulo. Real Madrid 2 a 1.
Três finais. Zero títulos.
O apelido surgiu imediatamente. "Neverkusen" — fusão de "never" (nunca, em inglês) com o nome da cidade. Tão certeiro que a própria empresa Bayer, dona do clube, acabou registrando a marca na Alemanha. O clube se tornara símbolo de um tipo específico de azar — o de quem chega sempre perto, mas nunca alcança.
Não foi só 2002. Em 2000, o Leverkusen precisava de um empate na última rodada contra o modesto Unterhaching para ser campeão da Bundesliga. Ballack marcou um gol contra. O Leverkusen perdeu por 2 a 0. O Bayern, jogando em outro estádio, venceu e levantou a taça pela diferença de saldo de gols. Entre 1997 e 2011, foram cinco vice-campeonatos nacionais. Em 120 anos de história, o clube nunca havia sido campeão alemão.
A virada
Xabi Alonso chegou a Leverkusen em outubro de 2022, com 41 anos e sem experiência como técnico profissional. O clube vinha de um sexto lugar na Bundesliga na temporada anterior. O espanhol trouxe uma ideia clara de jogo — pressão alta, transições rápidas, posse com propósito — e encontrou no elenco a matéria-prima certa para executá-la.
O centro de tudo foi Florian Wirtz. Meia-atacante formado nas categorias de base do próprio Leverkusen, Wirtz terminou a temporada 2023/24 com 17 gols e 18 assistências em todas as competições — números que o tornaram o maior assistente entre todos os clubes das cinco grandes ligas europeias naquele ano. Foi eleito o melhor jogador da Bundesliga. No jogo do título, entrou no segundo tempo e marcou três gols na goleada por 5 a 0 sobre o Werder Bremen.
A temporada
Na Bundesliga 2023/24, o Leverkusen não perdeu uma única partida em 34 rodadas. Foram 28 vitórias e 6 empates, 90 pontos — segundo maior total da história do campeonato, um a menos que o Bayern de 2012/13. Título conquistado com cinco rodadas de antecipação, recorde do campeonato. Primeiro campeão invicto da história da Bundesliga desde sua criação, em 1963. O Bayern de Munique, que havia vencido os últimos 11 títulos consecutivos, terminou em terceiro.
O time marcou 89 gols e sofreu apenas 24 na liga. Uma das marcas da temporada foram os gols nos acréscimos: 12 vezes o Leverkusen decidiu partidas depois do minuto 90 só na Bundesliga. Xabi Alonso havia construído um time que não sabia o que era dar uma partida por encerrada.
Somando todas as competições, o clube encadeou 51 jogos sem derrota — o maior jejum de derrotas da história das cinco grandes ligas europeias, superando o recorde do Benfica de Eusébio, que havia ficado 48 jogos invicto entre 1963 e 1965.
O fim da série — e o que ficou
A invencibilidade terminou na final da Liga Europa, em Dublin, contra a Atalanta: derrota por 3 a 0. Dias depois, o Leverkusen enfrentou o Kaiserslautern na final da Copa da Alemanha. Venceu por 1 a 0 com gol de Granit Xhaka — jogando com dez homens por mais de um tempo inteiro após expulsão. Dois títulos na temporada.
Em 2002, nessas mesmas duas finais, tinham perdido as duas.
Xabi Alonso resumiu no vestiário: "Daqui a 20 anos, olharemos para trás e diremos: nós fizemos isso."
O clube que nunca ganhava nada fez o que nenhum time alemão havia conseguido em mais de seis décadas. E fez invicto.
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