Inter, Milan e Juventus: O Que Era o Futebol Italiano nos Anos 2000 — e o Que Aconteceu Depois
Do seu lado, um grupo de jogadores competitivos. Do outro lado: Dida no gol. Cafú e Maldini nas laterais — Maldini, que jogou 25 anos no mesmo clube, defensor considerado o melhor da história na sua posição. No meio, Pirlo inventando um papel que não existia antes dele — o armador profundo que ditava o ritmo antes de qualquer pressão. Gattuso ao lado, para destruir o que Pirlo construía. Seedorf na criação. E lá na frente: Kaká, que ganharia o Ballon d'Or em 2007, e Shevchenko, um dos atacantes mais letais do futebol europeu.
Essa era uma noite de Champions League na Itália dos anos 2000. E o Milan era só um dos três times que podiam te receber assim.
Os elencos que o mundo temia
A Juventus tinha Buffon — considerado por anos o melhor goleiro do mundo — defendendo um bloco que incluía Thuram, Cannavaro e Zambrota. No meio, Nedved, que ganhou o Ballon d'Or em 2003 com uma atuação nas semifinais da Champions que está entre as melhores partidas individuais do torneio. Davids com a sua brutalidade controlada. E no ataque, Del Piero — o artilheiro histórico do clube, o rosto da Vecchia Signora por duas décadas — ao lado de Trezeguet, um dos finalizadores mais frios da sua geração.
A Inter tinha Zanetti, que jogaria 900 partidas pelo clube ao longo de 20 anos e nunca levou um cartão vermelho. Júlio César no gol, Adriano no auge — poucos atacantes no futebol mundial tiveram dois ou três anos de nível tão destrutivo quanto o Adriano de 2003 a 2005. Antes deles, Ronaldo havia vestido a camisa da Inter por cinco temporadas. Vieri. Recoba. Stankovic.
Três clubes. Três elencos que, a qualquer momento, podiam montar uma seleção composta inteiramente de jogadores do plantel.
O pico e a rachadura
Em 2003, o Milan ganhou a Champions League. Em 2006, a Itália ganhou a Copa do Mundo — com um time construído essencialmente sobre o eixo da Juventus e do Milan. Buffon, Cannavaro, Zambrota, Gattuso, Pirlo, Totti, Del Piero, Inzaghi. Naquele verão, o futebol italiano estava no topo.
No mesmo período em que a Copa terminava, estourava um escândalo de arbitragem que mudaria o futebol italiano de forma permanente — mas esse capítulo merece um artigo próprio. O que importa aqui é o efeito: a Série A perdeu credibilidade internacional exatamente quando começava a perder terreno financeiro para a Premier League.
Em 2007, o Milan voltou a ganhar a Champions. Em 2010, a Inter de Mourinho fez a dobradinha doméstica e europeia — Scudetto, Copa Itália e Champions League. O chamado Triplete. Foi a última vez que um clube italiano venceu a principal competição de clubes da Europa.
O que aconteceu enquanto a Itália olhava para dentro
Em 2003, Roman Abramovich comprou o Chelsea. Era o começo de uma transformação que a Série A não enxergou na velocidade necessária.
Ao longo dos anos 2010, a Premier League negociou contratos de televisão que colocaram o futebol inglês em outra dimensão financeira. Uma comparação de 2022-23 diz tudo: a receita característica da Premier League era de aproximadamente 6,7 bilhões de euros. A Série A gerava 2,8 bilhões. Mais que o dobro de diferença.
Com mais dinheiro, os clubes ingleses passaram a oferecer salários que a Série A não conseguia acompanhar. Jogadores que antes teriam escolhido Milão ou Turim começaram a optar por Manchester, Londres ou Liverpool — não necessariamente por prestígio, mas por contrato.
O segundo problema era físico: os estádios. Quase nenhum clube da Série A é dono do estádio onde joga — a maioria utiliza arenas municipais alugadas, construídas décadas atrás, sem as estruturas comerciais que os clubes europeus modernos precisam para gerar receita. A Premier League construiu ou reformou seus estádios. A Série A ficou com o que tinha.
Onde estão agora
A Juventus acumulou, entre 2019 e 2025, cerca de um bilhão de euros em prejuízo. Oito exercícios fiscais consecutivos no vermelho. O clube que dominou o campeonato italiano por uma década segue em processo de reconstrução financeira.
A Inter tem patrimônio líquido negativo — deve mais do que possui. O Milan só retornou ao equilíbrio financeiro depois de injeções de capital bilionárias do fundo Elliott.
No campeonato 2024-25, a Série A registrou receita recorde — mais de 4 bilhões de euros pela primeira vez na história. E ainda assim acumulou quase 350 milhões em perdas coletivas. A equação não fecha.
Em campo, os resultados europeus refletem essa estrutura. A Inter chegou à final da Champions League em 2023 e perdeu para o Manchester City por 1 a 0. Em maio de 2025, voltou à final — e perdeu para o PSG por 5 a 0. A maior margem de derrota na história de uma final da competição.
O mesmo clube que em 2010 fazia um Triplete europeu, 15 anos depois chegou à maior final do futebol de clubes e saiu da pior forma possível.
O que ficou
Os nomes ainda existem. Milan, Juventus e Inter ainda enchem estádios, ainda passam de fase, ainda recrutam jogadores de nível. O São Siro recebe mais de 75 mil pessoas nos derbis. A Série A é competitiva, assistida, relevante.
Mas existe uma distância entre o que esses clubes eram e o que são hoje que os dados deixam clara — e que qualquer torcedor que assistiu ao futebol italiano dos anos 2000 sente sem precisar de gráfico nenhum.
Dida. Cafú. Maldini. Pirlo. Kaká.
Era o que esperava pelo adversário numa noite comum de Champions League.
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