O Craque Que Construiu uma Carreira Inteira Fora do Ar
Em uma tarde qualquer dos anos 2000, enquanto o restante do elenco do Arsenal embarcava rumo a Newcastle, um homem entrava numa van junto com o gerente de material do clube. Não era um castigo. Não era uma punição por indisciplina. Era simplesmente a forma como Dennis Bergkamp, um dos maiores jogadores da história do futebol holandês, viajava para jogar.
Enquanto o avião do time pousava em pouco mais de uma hora, Bergkamp e Vic Akers, o homem responsável pelos uniformes do Arsenal havia décadas, percorriam a estrada por horas. Essa não era uma exceção isolada. Era a rotina.
A decisão que ninguém esperava de um craque em ascensão
Bergkamp não nasceu com medo de voar. A fobia se desenvolveu aos poucos, ao longo de experiências desconfortáveis em pequenos aviões durante sua passagem pela Itália, jogando pela Inter de Milão. O ponto de ruptura veio em 1994, logo depois da Copa do Mundo nos Estados Unidos, quando o esgotamento físico e mental se somou a voos turbulentos em aeronaves apertadas.
Em entrevista anos depois, Bergkamp descreveu o processo com uma honestidade pouco comum entre atletas de elite: ele não conseguia dormir, pensava no problema o tempo todo, e percebeu que precisava tomar uma decisão. E quando ele decidia algo, raramente voltava atrás.
A decisão foi simples e definitiva: parar de voar.
Um contrato com uma cláusula incomum
Quando Bergkamp assinou com o Arsenal em 1995, vindo da Inter, fez uma única exigência nas negociações: jamais voaria de avião novamente. O clube aceitou sem questionar, e o acordo foi formalizado por escrito.
A decisão teve um custo real. Bergkamp aceitou um salário reduzido, ciente de que não poderia participar da maioria das partidas fora de casa na Europa — competições continentais que exigiam viagens longas demais para serem feitas de carro ou trem. Jogos decisivos da Liga dos Campeões em cidades como Kiev e Donetsk simplesmente aconteceram sem ele em campo, apesar de sua importância para a equipe.
O técnico Arsène Wenger, que comandou o time durante praticamente toda a passagem de Bergkamp pelo clube, expressou preocupação em mais de uma ocasião sobre o desgaste físico que aquelas viagens alternativas causavam. Mas o Arsenal nunca tentou forçá-lo a mudar de ideia.
A logística escondida atrás de cada jogo fora de casa
Para partidas dentro da Inglaterra, a solução de Bergkamp era recorrente: viajar de carro junto com Vic Akers, o kit man do clube. Enquanto o ônibus ou avião do elenco seguia o trajeto padrão, os dois formavam uma dupla improvável, rodando pela Inglaterra em uma van.
Para competições europeias mais distantes, trem e até barco entraram na equação, sempre que possível. A logística para colocar Bergkamp em campo do outro lado do continente, sem que ele jamais subisse em um avião, exigia planejamento que ia muito além do que qualquer outro jogador do elenco precisava.
O que ele ganhou ao abrir mão de voar
Apesar das partidas perdidas e da logística complicada, Bergkamp afirmou repetidamente que aquela decisão, tomada em um momento de exaustão em 1994, acabou sendo positiva para sua carreira e sua vida. Ele relatou que deixar de voar tirou um peso mental enorme, permitindo que ele jogasse com mais leveza pelos onze anos seguintes no Arsenal.
Foram mais de cem gols marcados pelo clube, três títulos do Campeonato Inglês, quatro taças da FA Cup, e uma reputação consolidada como um dos meio-campistas mais inteligentes e elegantes que o futebol europeu já produziu. Bergkamp se tornou, ao lado de Johan Cruyff, um dos nomes mais respeitados da história holandesa — mesmo sem nunca ter voado para boa parte dos jogos decisivos de sua era de ouro.
Hoje, uma estátua dele em pleno salto está erguida em frente ao Emirates Stadium, do lado de fora do estádio do Arsenal. Ironicamente, ela o representa suspenso no ar, congelado em um momento de pura magia em campo — o único tipo de voo que Dennis Bergkamp jamais recusou.
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