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O Escândalo de Doping em que a Substância Era Uma Roupa


Em 26 de julho de 2009, Michael Phelps entrou na água para disputar os 200 metros livre no Campeonato Mundial de Roma.

Do outro lado da raia, Paul Biedermann. Um alemão de 22 anos que até então não havia ganho nenhum título expressivo na carreira.

Phelps perdeu.

O tempo de Biedermann: 1:42.00 — novo recorde mundial. O tempo de Phelps: 1:42.10 — também um novo recorde mundial, que Biedermann havia acabado de superar por dez centésimos de segundo. Em seguida, Phelps fez o que nenhum atleta de elite faz facilmente: foi a público pedir que o equipamento do adversário fosse proibido.

Nenhum dos dois havia usado substâncias proibidas. A diferença entre eles, naquele dia, era o material do maiô.

A roupa que a NASA ajudou a criar

Em fevereiro de 2008, a Speedo lançou o LZR Racer — desenvolvido em parceria com a NASA, com supercomputadores da SGI analisando a dinâmica dos fluidos ao redor do corpo de nadadores de elite.

O resultado foi uma roupa como nenhuma outra. Painéis de poliuretano costurados por ultrassom — sem costuras tradicionais, sem irregularidades no tecido. O maiô comprimia o corpo do atleta como um espartilho, forçando uma posição hidrodinâmica mais perfeita do que qualquer musculatura consegue manter sozinha durante uma prova. A Speedo afirmava 5% de redução no arrasto e 5% de melhora no aproveitamento de oxigênio.

Dentro de uma semana do lançamento, três recordes mundiais haviam sido quebrados. Dentro de um mês, treze.

Nas Olimpíadas de Pequim, em agosto de 2008, 23 dos 25 recordes mundiais estabelecidos na natação pertenciam a nadadores usando o LZR Racer. Michael Phelps ganhou oito ouros. Noventa e quatro por cento das medalhas de ouro na natação foram para atletas com a roupa da Speedo.

A corrida armamentista que ninguém conseguia parar

O sucesso da Speedo foi o disparo de largada para uma guerra tecnológica sem precedentes.

Concorrentes como Arena, Adidas e a italiana Jaked correram para lançar suas próprias versões — desta vez em poliuretano integral, material ainda mais extremo do que o usado pela Speedo. As novas roupas não apenas reduziam o arrasto: também criavam bolsas de ar que aumentavam a flutuação do corpo. Era a diferença entre nadar melhor e nadar em cima da água.

O resultado ficou concentrado no Campeonato Mundial de Roma, em julho de 2009. Quarenta e três recordes mundiais foram quebrados numa única competição. A imprensa italiana batizou o evento de "Jogos de Plástico." Biedermann, usando o Arena X-Glide em poliuretano integral, não apenas derrotou Phelps — ele superou o tempo que o próprio Phelps havia estabelecido como recorde mundial meses antes por quase um segundo inteiro. Federica Pellegrini baixou para 1:52.98 nos 200 metros livre feminino — um tempo que duraria 14 anos sem ser superado.

Em menos de dois anos, a natação havia quebrado mais de 130 recordes mundiais. Não por frações de segundo — por segundos inteiros. Em algumas provas, os melhores tempos de toda a história do esporte haviam sido reescritos de um campeonato para o outro.

O doping que era completamente legal

A FINA, entidade reguladora da natação, foi pressionada de todos os lados. Atletas, treinadores e federações nacionais exigiram uma resposta. O presidente da FINA foi a câmeras de televisão dizer que "a natação é um esporte essencialmente baseado no desempenho físico do atleta." Era um comunicado de cinco palavras que reconhecia implicitamente que algo havia saído do controle.

A partir de 1º de janeiro de 2010, todas as roupas de poliuretano foram banidas. Homens passaram a poder usar apenas maiôs da cintura ao joelho, feitos de material têxtil permeável. Mulheres, do ombro ao joelho. Phelps, ao ser informado da decisão, disse que aplaudia o banimento.

Mas havia um problema sem solução elegante: os recordes permaneceram.

Os tempos estabelecidos em 2008 e 2009 com as roupas banidas seguem no livro de história da modalidade. Quinze anos depois, vários deles ainda não foram superados por nadadores usando equipamentos aprovados. O recorde masculino dos 50 metros livre, estabelecido em 2009, ainda existe. O dos 200 metros também.

A natação essencialmente tem duas eras: antes e depois das super roupas. E a era proibida ainda detém alguns dos tempos mais rápidos da história.

A substância foi banida. Os recordes, não.


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