A Tecnologia que Teria Mudado Três Copas do Mundo
O futebol nunca foi tão monitorado.
E nunca foi tão fácil perceber o quanto o passado poderia ter sido diferente.
O que a tecnologia faz hoje
O sistema Hawk-Eye, usado desde a Copa de 2014, posiciona câmeras em seis ângulos ao redor de cada gol e rastreia a posição da bola com precisão de cinco milímetros. Quando a bola cruza integralmente a linha, o árbitro é alertado em menos de meio segundo — sem margem para dúvida, sem debate possível.
O VAR, adotado na Copa de 2018, vai além: permite que uma equipe de árbitros de vídeo revise lances de gol, pênalti, expulsão e confusão de identidade, com acesso a múltiplos ângulos de câmera em alta definição. Na Copa de 2026, o sistema evoluiu para incluir inteligência artificial que gera uma decisão de impedimento automaticamente, reconstruindo o corpo dos jogadores em três dimensões para determinar se havia ou não posição irregular.
Tudo isso existe há pouco mais de uma década.
E toda essa tecnologia tem uma história — com três capítulos específicos que ajudam a entender por que ela finalmente chegou.
1986: a mão que ninguém viu
Na Copa do México, em 22 de junho de 1986, Diego Armando Maradona saltou junto com o goleiro inglês Peter Shilton numa disputa de bola dentro da área. A bola desviou para dentro do gol. O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser assinalou o gol.
Shilton protestou. Os ingleses protestaram. A Argentina comemorou.
Maradona não usou a cabeça. Usou a mão esquerda.
O árbitro não viu. Os bandeirinhas não viram. Só as câmeras viram — e o mundo inteiro assistiu ao replay enquanto o atacante argentino inventava, minutos depois na coletiva de imprensa, a explicação que ficaria para a história: o gol havia sido marcado "un poco con la cabeza de Maradona, y otro poco con la mano de Dios."
Com o VAR, o lance seria revisado em segundos. O árbitro de vídeo teria acesso a pelo menos quatro ângulos diferentes que mostram o contato com a mão. O gol seria anulado.
A Argentina ainda venceria aquela Copa — Maradona marcou um dos maiores gols da história seis minutos depois, driblando meio time inglês —, mas com um placar diferente e sem a polêmica que persiste até hoje.
1966: o quique mais famoso da história
Na final da Copa do Mundo de Wembley, em 30 de julho de 1966, a Inglaterra e a Alemanha Ocidental estavam empatadas em 2 a 2 na prorrogação quando Geoff Hurst cobrou uma bomba que bateu na trave e desceu em direção ao gol. A bola tocou o chão e voltou para cima, sendo afastada pela defesa alemã.
O árbitro consultou o assistente soviético Tofik Bakhramov. Que confirmou: gol.
O debate dura até hoje. O goleiro alemão Hans Tilkowski afirma, 60 anos depois, que tem certeza absoluta de que a bola não entrou. Hurst insiste que cruzou a linha por pelo menos um metro. Análises feitas décadas depois com tecnologia da Sky Sports e dados da EA Sports concluíram que a bola provavelmente cruzou a linha — mas sem a certeza que apenas um sistema como o Hawk-Eye poderia fornecer.
É o único dos três casos em que a tecnologia poderia ter confirmado o gol legítimo em vez de anular um ilegítimo. Mas o ponto permanece: a Copa seria decidida por dados, não por um assistente que tomou uma decisão em fração de segundo de um ângulo ruim.
A Inglaterra levantou a taça. Nunca mais chegou perto de uma final.
2010: o gol que mudou o futebol
Em 27 de junho de 2010, na África do Sul, Inglaterra e Alemanha se enfrentavam nas oitavas de final. A Alemanha vencia por 2 a 1 quando Frank Lampard recebeu a bola na entrada da área e chutou. A bola bateu no travessão e desceu, quicando claramente dentro do gol antes de sair. O goleiro Manuel Neuer pegou a bola já fora da linha e rapidamente recolocou o jogo em movimento.
O árbitro uruguaio Jorge Larrionda não marcou. O assistente também não.
A análise posterior mostrou que a bola havia cruzado a linha por aproximadamente 33 centímetros — mais do que suficiente para qualquer sistema de tecnologia de linha de gol detectar. Com o Hawk-Eye, a vibração no pulso do árbitro teria chegado em menos de meio segundo.
Em vez disso, a Inglaterra continuou perdendo. A Alemanha ganhou por 4 a 1.
Nos meses seguintes, o incidente se tornou o argumento definitivo para quem defendia a adoção de tecnologia no futebol. A FIFA, que havia rejeitado testes de sistemas em março de 2010 — apenas três meses antes do torneio —, mudou de posição. Em 2012, o IFAB aprovou oficialmente a tecnologia de linha de gol. Em 2014, ela estreou numa Copa do Mundo.
O gol de Lampard não valeu. Mas foi o que tornou possível que gols como o dele nunca mais fossem contestados.
2026: o outro extremo
Se os três casos acima mostram o que acontece quando a tecnologia está ausente, um jogo desta Copa de 2026 mostrou onde ela chegou.
Nas oitavas de final entre Portugal e Croácia, a Croácia marcou um gol nos acréscimos que mandaria a partida para a prorrogação. A comemoração já havia começado quando o VAR interveio. O sistema identificou que, antes do chute, a bola havia tocado levemente na cabeça do atacante croata Matanovic — um contato imperceptível ao olho humano, invisível nas imagens de TV convencionais. O toque colocava o jogador em posição irregular no momento do lance.
O que delatou o contato foi o chip de 14 gramas embutido dentro da bola oficial, que registra acelerações e rotações 500 vezes por segundo. O sensor detectou uma variação mínima no movimento da bola no instante do toque. Gol anulado. Portugal avançou.
Em 1986, o árbitro não tinha como ver a mão de Maradona. Em 2026, um sensor dentro da bola detectou um toque na cabeça que nenhuma câmera conseguiu capturar.
São quarenta anos de distância — e um abismo tecnológico entre os dois momentos.
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