O Futebol Africano Chegou às Copas Para Ficar — e Isso Tem Uma História
Na terça-feira, o Egito foi ainda mais longe na provocação. Venceu a Argentina campeã por 2 a 0 até os 79 minutos. Messi havia errado um pênalti no primeiro tempo. O goleiro Shobeir havia defendido mais duas tentativas. O mundo olhava, incrédulo. A Argentina virou nos acréscimos, com gols de Romero, Messi e Enzo Fernández, e avançou por 3 a 2 — mas o Egito já havia deixado sua mensagem.
Tudo isso tem uma história. E ela começa quarenta anos atrás.
1986: a primeira vez que alguém passou de fase
Até a Copa do México, nenhuma seleção africana havia avançado para além da fase de grupos. Não por falta de tentativas — mas porque o futebol europeu e sul-americano tratava os times do continente como presença decorativa no torneio.
Marrocos chegou ao México em 1986 num grupo com Portugal, Inglaterra e Polônia. Não perdeu um único jogo. Ganhou de Portugal por 3 a 1, empatou com Inglaterra e com Polônia, e terminou a fase de grupos na primeira colocação — acima de todos.
Nas oitavas, enfrentou a Alemanha Ocidental. O jogo ficou 0 a 0 por 86 minutos. Depois Lothar Matthäus cobrou uma falta e a bola entrou. Alemanha 1, Marrocos 0. O árbitro apitou o fim pouco depois.
Mas o futebol africano havia passado de fase numa Copa do Mundo pela primeira vez. Ninguém voltaria a olhar para aquelas seleções da mesma forma.
1990: Roger Milla, 38 anos, e a Argentina de joelhos
Quatro anos depois, na Copa da Itália, os Camarões entraram em campo contra a Argentina no jogo de abertura. A Argentina era a campeã defensora, com Maradona em campo. Os Camarões eram considerados zebra decorativa do grupo.
Venceram por 1 a 0, com um jogador expulso ainda no primeiro tempo e outro na segunda etapa. Terminaram o jogo com nove homens. Ganharam assim mesmo.
O herói era um atacante chamado Roger Milla, convocado pelo presidente dos Camarões a pedido pessoal — ele já havia se aposentado. Tinha 38 anos. Entrou como substituto contra a Romênia e marcou dois gols, celebrando cada um com uma dança ao lado do poste de escanteio que virou imagem icônica daquela Copa.
Nas oitavas, os Camarões eliminaram a Colômbia com mais dois gols de Milla — de novo saindo do banco. Nas quartas, enfrentaram a Inglaterra. Chegaram a vencer por 2 a 1, com Milla em campo. A Inglaterra empatou e virou nos acréscimos, avançando por 3 a 2.
Foi a primeira vez que uma seleção africana chegou às quartas de final de uma Copa do Mundo. E por pouco não foi às semis.
1994: a Nigéria que ninguém esqueceu
Oito anos depois de Marrocos, quatro depois de Camarões, a Nigéria estreou numa Copa do Mundo — e fez a maior goleada africana da história do torneio na fase de grupos, um 3 a 0 sobre a Bulgária.
A seleção tinha Rashidi Yekini, Jay-Jay Okocha, Finidi George e Sunday Oliseh. Tinha 23 anos de média de idade. Jogava um futebol que o mundo ainda não havia visto vir da África — veloz, técnico, coletivo. Terminou a fase de grupos na liderança com a Bulgária atrás, à frente da Argentina de Maradona.
Nas oitavas, o adversário era a Itália. A Nigéria vencia por 1 a 0 aos 88 minutos. Faltavam dois minutos para a maior eliminação da história italiana numa Copa do Mundo.
Roberto Baggio marcou o empate nos acréscimos. Na prorrogação, ele converteu o pênalti que classificou a Itália.
A Nigéria foi para casa. A Itália chegaria à final, onde perderia para o Brasil.
Aquela geração nigeriana nunca ganhou uma Copa do Mundo. Mas deixou a impressão de que a distância entre o futebol africano e os campeões do mundo havia diminuído de forma irreversível.
O fio que chega até hoje
Marrocos 1986. Camarões 1990. Nigéria 1994.
Três momentos separados por quatro anos cada, três países diferentes, três histórias que foram sendo tecidas em silêncio enquanto o mundo dizia que a África ainda não estava pronta.
No sábado passado, Marrocos goleou o Canadá e seguiu para mais uma quartas de final. Ontem, o Egito deixou o campeão mundial na beira do precipício por 79 minutos.
Nada disso surgiu do nada.
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