A Copa Mais Feia da História — e as Mudanças que Ela Forçou no Futebol
A Argentina tocou para trás durante quase noventa minutos, com dois jogadores expulsos e sem criar uma chance clara de gol. A Alemanha, mais intensa, tampouco conseguiu resolver no tempo normal. O placar saiu de um pênalti no minuto 85 — convertido por Andreas Brehme após uma falta em Rudi Völler que até hoje divide opiniões.
Alemanha 1, Argentina 0. Final de Copa. Nenhum gol em jogada aberta.
Essa foi a Copa de 1990. E ela foi tão ruim que o futebol precisou mudar suas regras para que algo assim não voltasse a acontecer.
Por que foi tão defensiva
A Copa de 1990 produziu 115 gols em 52 jogos — uma média de 2,21 por partida, a mais baixa da história do torneio até hoje. Para ter uma referência: a Copa de 1954, na Suíça, tinha média de 5,38 gols por jogo. A de 1958, com Pelé, chegava a 3,6. A de 2022 ficou em 2,69.
Dois fatores estruturais explicam boa parte do problema.
O primeiro era a regra dos pontos. Até 1994, uma vitória valia dois pontos — o mesmo que dois empates. Com essa matemática, um time que empatasse todos os jogos na fase de grupos acumulava seis pontos — o mesmo que dois times que trocassem vitórias e derrotas entre si. O empate era uma estratégia racional, não uma falha.
O segundo era o recuo ao goleiro. Não existia nenhuma restrição para um jogador passar a bola de volta para o próprio goleiro pegar com as mãos. Uma equipe que quisesse segurar o resultado podia simplesmente recuar a bola indefinidamente para o arqueiro, que a segurava, chutava para longe e o processo recomeçava. Não havia punição. Não havia limite de tempo. Era perfeitamente legal.
O resultado era um futebol de espera, onde o objetivo era não perder em vez de ganhar.
A Argentina como caso extremo
A Argentina de 1990 ficou para a história como o exemplo mais extremo dessa tendência. Maradona jogou o torneio inteiro com um joelho lesionado. Três titulares estavam fora por lesão. A equipe dependia quase exclusivamente da criatividade individual do camisa 10 e da frieza do goleiro Sergio Goycochea nos pênaltis.
O resultado foi uma campanha que envergonha qualquer estatística. A Argentina marcou apenas cinco gols no torneio inteiro — o menor número já registrado por um finalista de Copa do Mundo. Avançou para as quartas de final com uma vitória e dois empates. Passou para a semifinal nos pênaltis. Passou para a final nos pênaltis. Perdeu a final com dois jogadores expulsos e zero gols.
A Argentina se tornou o primeiro time a avançar duas vezes por pênaltis numa mesma Copa e o primeiro finalista a não marcar gol e ter jogador expulso numa final de Copa do Mundo.
Quando o árbitro mexicano Edgardo Codesal expulsou Pedro Monzon aos 65 minutos — o primeiro jogador a ser expulso numa final de Copa — e depois Gustavo Dezotti aos 86, a Argentina estava com nove jogadores em campo, perdendo por 1 a 0 e sem qualquer intenção ofensiva.
A Irlanda foi outro símbolo desse torneio: o time irlandês marcou apenas dois gols em cinco jogos, empatou todas as partidas até a derrota nas quartas para a Itália, e mesmo assim chegou às quartas de final. Sistema funcionando exatamente como foi desenhado para funcionar.
A final mais feia da história
O jogo final foi descrito por jornalistas como a pior final de Copa do Mundo já disputada. Vinte e três faltas foram cometidas, a maioria pela Argentina numa estratégia explícita de interromper o ritmo. Maradona passou o jogo reclamando de cada decisão do árbitro. Quando Brehme converteu o pênalti no minuto 85, as arquibancadas de Roma vaiaram — não em protesto ao resultado, mas em alívio de que aquilo finalmente havia acabado.
A FIFA assistiu a tudo aquilo e decidiu que não poderia deixar acontecer de novo.
As mudanças que a Copa de 90 forçou
Em 1992, o IFAB — o órgão que regula as regras do futebol — introduziu a proibição do recuo ao goleiro com os pés. A partir daquela data, se um jogador devolvesse a bola ao próprio goleiro com os pés, o arqueiro seria obrigado a jogar com os pés — não poderia mais pegar com as mãos. A mudança parece simples, mas transformou o ritmo do jogo. O goleiro passou a ser pressionado a sair jogando. As defesas não tinham mais uma válvula de escape imediata.
Em 1994, a FIFA introduziu os três pontos pela vitória. Uma vitória passou a valer 50% mais do que um empate, em vez de ser equivalente a dois empates. O incentivo matemático para atacar mudou completamente. Ganhar passou a ser visivelmente mais vantajoso do que não perder.
O efeito foi imediato. A Copa de 1994, nos Estados Unidos, produziu 141 gols em 52 jogos — uma média de 2,71 por partida, salto expressivo em relação aos 2,21 de 1990.
Ambas as regras estão em vigor até hoje — mais de 30 anos depois, sem revisão.
O que a Copa de 1990 deixou de bom
É justo reconhecer que a Copa de 90 não foi apenas má notícia. Foi ela que revelou Schillaci ao mundo — o atacante italiano que começou o torneio no banco e terminou como artilheiro com seis gols, numa das histórias mais improváveis do futebol. Foi ela que apresentou o Camarões de Roger Milla às grandes competições, abrindo a porta para o futebol africano. Foi ela que fez Paul Gascoigne chorar numa semifinal, numa imagem que redefiniu a relação entre emoção e futebol na Inglaterra.
E foi ela, paradoxalmente, que tornou o futebol moderno mais aberto, mais veloz e mais atacante — ao mostrar ao mundo exatamente o que o esporte não deveria ser.
A Copa 2026, disputada agora com 48 seleções, já superou a marca de gols de 90 antes mesmo das quartas de final. A média atual está bem acima de 2,21.
Trinta e seis anos depois, a Copa mais feia ainda serve de parâmetro — mas agora para mostrar o quanto o jogo evoluiu.
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