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A Provocação que Mobilizou 70 Mil Pessoas e Lotou o Maracanã

Em 29 de novembro de 1976, o presidente do Fluminense, Francisco Horta, concedeu uma entrevista à imprensa esportiva de São Paulo. O Corinthians e o Fluminense haviam sido sorteados para a semifinal do Campeonato Brasileiro, num jogo único a ser disputado no Maracanã. Horta queria promover o confronto — e foi longe demais.

"Que os vivos saiam de casa e os mortos saiam das tumbas para torcer pelo Corinthians no Maracanã, porque o Fluminense vai ganhar a partida."

Ele não sabia o que estava fazendo.

O que havia em jogo

O Corinthians chegava àquela semifinal carregando 22 anos sem título. Duas décadas de espera, de gerações de torcedores que haviam nascido, crescido e envelhecido sem ver o clube campeão. O futebol alvinegro tinha história, tinha tradição, tinha uma das maiores torcidas do Brasil — mas não tinha troféus. Aquela final era, aos olhos da Fiel, mais do que uma partida de futebol. Era uma chance de exorcizar duas décadas de frustração.

Do outro lado, o Fluminense era o favorito declarado. O elenco carioca ficou conhecido como "Máquina Tricolor" — tinha Carlos Alberto Torres, capitão do Brasil tetracampeão em 70, o maestro Rivelino e o habilidoso Dirceu. O próprio Horta tinha razões objetivas para a confiança. O que ele não tinha era noção do que sua frase desencadearia.

A semana que transformou a Via Dutra

A declaração de Horta chegou a São Paulo como combustível. Em acordos entre as diretorias dos dois clubes, o Fluminense havia enviado 70 mil ingressos para serem vendidos em São Paulo — Horta não acreditava que todos seriam usados. Errou.

Ao longo da semana que antecedeu o jogo, São Paulo fervia. Grupos de amigos, famílias inteiras, pessoas sozinhas — todos fazendo planos para estar no Maracanã no domingo seguinte. Ônibus foram fretados, carros foram lotados, caravanas foram organizadas. Os Gaviões da Fiel mobilizaram oficialmente cerca de 300 ônibus — estimativas não oficiais falam em até mil veículos.

O movimento foi tão inédito que o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem precisou criar a "Operação Corinthians" para administrar o volume de tráfego na Via Dutra. Nunca havia sido necessário algo assim para um evento esportivo no Brasil.

Os torcedores começaram a chegar ao Rio ainda no sábado. A cidade acordou no domingo de 5 de dezembro de 1976 com as ruas tomadas por preto e branco. Bandeiras do Corinthians em postes, fachadas e janelas de hotéis. O Rio de Janeiro, por um dia, não pertencia apenas ao Rio de Janeiro.

O dilúvio e o jogo

O Maracanã registrou 146.043 pagantes naquela tarde — e entre 70 e 80 mil deles eram corintianos. O estádio que durante décadas havia sido palco das glórias cariocas estava, pela primeira vez em sua história, dividido ao meio por torcedores de fora.

O Fluminense era o favorito e começou confirmando isso. Carlos Alberto Pintinho abriu o placar aos 18 minutos. O Maracanã carioca comemorou. A Fiel não silenciou.

No minuto 29, Vaguinho cobrou escanteio, Geraldão cabeceou sem direção e a bola sobrou para Ruço, que aplicou uma meia-bicicleta no canto. Empate. A avalanche sonora que veio das arquibancadas corinthianas foi descrita por jornalistas presentes como algo que nunca haviam ouvido num estádio brasileiro.

No segundo tempo, um dilúvio desabou sobre o Maracanã. A chuva transformou o gramado em lamaçal. O jogo tecnicamente morreu ali — a bola não rolava, os jogadores escorregavam, e o árbitro, por razões que hoje são difíceis de entender, manteve a partida. Ninguém marcou mais. Após a prorrogação, pênaltis.

O goleiro Tobias, que havia passado boa parte do torneio como reserva, tornou-se herói. Defendeu as cobranças de Rodrigues Neto — duas vezes — e de Carlos Alberto Torres. O Corinthians converteu quatro. Placar final: 4 a 1 nos pênaltis. Zé Maria bateu o último e o Maracanã preto e branco explodiu.

O que Nelson Rodrigues escreveu no dia seguinte

Nelson Rodrigues era um dos cronistas mais importantes do jornalismo brasileiro — e torcedor fanático do Fluminense. No dia 6 de dezembro de 1976, ele escreveu em sua coluna no Jornal O Globo:

"Uma coisa é certa: não se improvisa uma vitória. Vocês entendem? Uma vitória tem que ser o lento trabalho das gerações. (...) O que influi e decidiu o jogo foi a torcida. A torcida empurrou o time para o empate. A torcida não parou de incitar."

Um torcedor do Fluminense, reconhecendo que a torcida adversária havia sido decisiva. Que a Fiel havia jogado junto com o time. Que aquilo tinha sido maior do que um resultado esportivo.

O que ficou

O Corinthians chegou à final — e perdeu para o Internacional por 2 a 0. O jejum de títulos só terminaria no ano seguinte, com o Paulistão de 1977.

Mas a Invasão Corinthiana ficou. Ficou registrada como o maior deslocamento humano em tempos de paz em função de um evento esportivo da história. Ficou nos relatos de quem estava lá — nos ônibus, nos carros, no lamaçal do Maracanã, na chuva, nos pênaltis.

E ficou também como lição para presidentes de clube que subestimam torcidas adversárias.

Francisco Horta pediu que os mortos saíssem das tumbas. A Fiel fez algo mais simples — e muito mais difícil de organizar. Ela foi lá.


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