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O Clube que Contratou o Campeão do Mundo e Desapareceu em 15 Anos

Em julho de 2015, Luiz Felipe Scolari — o técnico que havia levado o Brasil ao pentacampeonato em 2002 e Portugal à final da Eurocopa em 2004 — sentou no banco de reservas de um estádio em Guangzhou, no sul da China, para comandar o Guangzhou Evergrande num jogo da Champions League asiática.

Do outro lado do campo, o adversário era o Seoul FC, da Coreia do Sul. Nas arquibancadas, mais de 40 mil torcedores de vermelho. Em campo, entre outros, Paulinho — que havia saído do Corinthians para o Tottenham e do Tottenham para a China, onde jogava como um dos melhores meias do continente.

Felipão venceu o título. O Guangzhou Evergrande se tornou o primeiro clube asiático a ganhar a Champions League duas vezes.

Para quem acompanhava do Brasil, era difícil entender o que estava acontecendo naquele país.

De onde veio tudo isso

Em fevereiro de 2010, o conglomerado Evergrande — maior construtora imobiliária da China e uma das maiores do mundo — comprou um clube de futebol da segunda divisão chinesa que havia sido rebaixado por envolvimento em esquema de manipulação de resultados. O preço era baixo. As ambições eram altíssimas.

Evergrande não queria um clube de futebol. Queria uma vitrine.

A China estava em plena ascensão econômica, a classe média crescia, e o presidente Xi Jinping havia declarado publicamente o desejo de transformar o país numa potência do futebol mundial. O momento era perfeito para uma construtora que precisava construir sua marca. O Guangzhou Evergrande seria o instrumento.

O dinheiro chegou em volumes que o futebol asiático nunca havia visto. Em 2011, o clube contratou o meia argentino Darío Conca e o tornou o terceiro jogador mais bem pago do mundo — à frente de Xavi, Iniesta e da maioria dos astros europeus. O Guangzhou havia saído da segunda divisão um ano antes. Agora pagava salários do nível do Real Madrid.

Funcionou.

O que construíram

Entre 2011 e 2019, o Guangzhou Evergrande venceu oito dos nove campeonatos da Superliga chinesa. Em 2013, venceu a Champions League asiática pela primeira vez — com Marcello Lippi, o técnico italiano tetracampeão do mundo com a Azzurra, no banco. Em 2015, venceu de novo, dessa vez com Felipão.

A lista de nomes que passaram pelo clube lembra um catálogo de jogadores que o torcedor brasileiro conhecia do Campeonato Brasileiro ou da televisão europeia: Paulinho, Ricardo Goulart, Elkeson — naturalizado chinês e artilheiro da seleção nacional —, Lucas Barrios e Anderson Talisca. Do mercado europeu, vieram o colombiano Jackson Martínez, comprado do Porto por €42 milhões, e o argentino Carlos Tevez, que chegou com um salário semanal que circulou nos noticiários do mundo inteiro.

A China havia se tornado, naquele intervalo curto, o segundo destino mais caro do futebol mundial — atrás apenas da Premier League inglesa. No janela de transferências de inverno de 2016, os clubes chineses gastaram coletivamente 334 milhões de euros — o maior valor já registrado por qualquer liga do mundo naquele período.

O Guangzhou estava no centro disso tudo.

Havia ainda um projeto paralelo que dizia tudo sobre a escala das ambições: a construção do maior estádio de futebol do mundo, com capacidade para 100 mil pessoas, numa instalação que incluiria academia de formação, hotel e centro comercial. As obras começaram em 2020.

O momento em que a bolha começou a murchar

Em 2021, o mundo descobriu o tamanho real da Evergrande: a empresa havia acumulado dívidas de mais de US$ 300 bilhões — a maior dívida corporativa privada da história da humanidade.

A construtora havia crescido durante anos num modelo que dependia de vender apartamentos antes de construí-los e usar o dinheiro dos compradores para financiar novos projetos. Quando o governo chinês começou a restringir esse modelo, o castelo de cartas desmoronou. Centenas de milhares de famílias haviam pago por apartamentos que nunca seriam entregues.

O futebol foi a primeira coisa a ser sacrificada.

Os jogadores estrangeiros foram dispensados. Os salários dos jogadores chineses pararam de ser pagos. O clube terminou o Campeonato Chinês de 2022 na 17ª colocação e foi rebaixado para a segunda divisão — o mesmo lugar de onde havia saído doze anos antes, quando Evergrande chegou com dinheiro e promessas.

As obras do maior estádio do mundo foram paralisadas. O terreno foi reintegrado pelo governo.

Em janeiro de 2024, um tribunal de Hong Kong ordenou a liquidação da Evergrande. Em janeiro de 2025, o Guangzhou FC — que havia mudado o nome em 2021 para retirar a referência ao patrocinador — anunciou que não havia conseguido cumprir os requisitos financeiros da federação e estava dissolvido.

Trinta e dois anos de história. Quinze anos de um projeto que havia colocado a China no mapa do futebol mundial. Encerrados num comunicado de duas linhas em rede social.

O que ficou de humano

No início de tudo isso, havia um jogador do Corinthians chamado Paulinho.

Ele saiu de São Paulo para o Tottenham em 2013 e chegou ao Guangzhou Evergrande em 2015, num momento em que o clube estava no auge. Jogou bem. Voltou ao Barcelona em 2017, num dos movimentos de mercado mais surpreendentes daquele ano. E então, em 2019, quando o clube já dava os primeiros sinais de que algo não ia bem, ele voltou ao Guangzhou.

Não por dinheiro — os salários já não eram os maiores do mundo. Voltou porque havia construído algo ali, porque entendia o futebol chinês, porque havia uma conexão que não se explica apenas com contrato.

Foi um dos últimos jogadores de alto nível a sair do clube, quando a saída tornou-se inevitável. Voltou ao Brasil, passou pelo Corinthians de novo, encerrou a carreira.

Quando o Guangzhou anunciou o encerramento das atividades, em janeiro de 2025, não havia nenhuma estrela para representar o clube no comunicado. Apenas uma frase de desculpas aos torcedores.

O maior estádio do mundo nunca foi inaugurado. O terreno, onde as obras haviam começado em 2020, foi reintegrado pelo governo local.

O que sobrou do Guangzhou Evergrande é exatamente o que restou do sonho imobiliário da Evergrande: uma fotografia de um projeto que foi grande demais para ser sustentável — e rápido demais para durar.


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