O Boavista foi ao Topo da Europa. Hoje Joga nas Distritais
Há um padrão no futebol português que dura quase um século. Desde que o campeonato nacional começou, em 1934, o título foi quase sempre de um entre três clubes: Benfica, FC Porto ou Sporting. Apenas duas vezes alguém de fora rompeu esse cerco. O Belenenses, em 1946. E, 55 anos depois, um clube da cidade do Porto, de camisa quadriculada em preto e branco, com poucos adeptos e quase nenhum dinheiro.
Em 18 de maio de 2001, o Boavista foi campeão de Portugal.
O título que ninguém esperava
O elenco era feito, em boa parte, de jogadores que os grandes haviam descartado. Erwin Sánchez não vingara no Benfica. Duda fora dispensado pelo Porto. O treinador, Jaime Pacheco, dirigia o Zamalek do Egito poucos meses antes. Juntos, montaram um time com uma identidade clara: defesa sólida e força dentro de casa.
Os números contam a história. O Boavista foi campeão com 77 pontos, um a mais que o FC Porto e quinze a mais que o Sporting, então detentor do título. Sofreu apenas 22 gols em 34 jornadas — somente seis em casa. O título foi confirmado na penúltima rodada, numa vitória por 3 a 0 sobre o já rebaixado Desportivo das Aves, no Estádio do Bessa. O talismã era Martelinho, ponta formado no clube, que havia marcado os gols das vitórias sobre Sporting e FC Porto — duas das partidas mais importantes da temporada.
Aquela mesma época guardou um detalhe curioso: foi a pior classificação da história do Benfica, um sexto lugar, atrás de Braga e União de Leiria. A ordem natural do futebol português tinha sido virada de cabeça para baixo.
A Europa de braços abertos
Campeão, o Boavista foi à Liga dos Campeões. E não foi para figurar.
Na temporada 2001/02, superou o Dynamo de Kiev e o Borussia Dortmund e chegou à segunda fase de grupos da competição. Para barrar o seu avanço, foi preciso nada menos que Manchester United e Bayern de Munique. Um clube que poucos torcedores europeus saberiam localizar no mapa estava trocando passes com a elite absoluta do continente.
E o melhor ainda estava por vir. Na temporada seguinte, o Boavista fez uma campanha histórica na Taça UEFA. Chegou à semifinal. Do outro lado, o Celtic, da Escócia, com Henrik Larsson — um dos atacantes mais temidos da Europa naquele momento.
Larsson contra a parede
A eliminatória foi decidida no detalhe. No jogo de ida, em Glasgow, o Boavista defendeu com disciplina e o goleiro Ricardo dominou a sua área; Larsson chegou a desperdiçar um pênalti, defendido pelo arqueiro português. O empate em 1 a 1 deixava tudo em aberto.
No jogo de volta, em Portugal, o Boavista precisava apenas segurar o resultado. Resistiu até os 80 minutos, quando Larsson finalmente marcou — um chute que desviou e tirou do goleiro — e levou o Celtic à primeira final europeia em 33 anos. O Boavista caiu a quinze minutos de uma final continental.
Aquela noite no Bessa teve um significado que ninguém percebeu na hora. Foi a última partida do Boavista em competições europeias pelos 16 anos seguintes. A escada que o clube subira tão rápido começaria a ruir com a mesma velocidade.
A queda
Em maio de 2008, veio o golpe. No âmbito do processo Apito Final — derivado do escândalo de corrupção arbitral conhecido como Apito Dourado —, o Boavista foi acusado de coação sobre as equipes de arbitragem e punido com a descida de divisão. O clube terminara aquela temporada em nono lugar, dentro de campo. Saiu da elite por decisão administrativa.
Foi o começo de uma espiral. O Boavista passou seis temporadas nos escalões mais baixos do futebol português, só retornando à Primeira Liga em 2014/15. A despromoção de 2008 chegou a ser revertida na Justiça anos depois, mas o estrago financeiro estava feito.
E a história, infelizmente, não terminou ali. Em 2024/25, o clube que fora campeão nacional terminou em último lugar, foi rebaixado e ainda falhou a inscrição nas provas profissionais, despencando administrativamente. Do título nacional aos campeonatos distritais — uma queda livre marcada por despromoção, falha de inscrição e insolvência.
O que o xadrez ainda guarda
É fácil olhar para o Boavista de hoje e não enxergar o que ele já foi. Um clube fora dos holofotes, lutando para sobreviver longe das divisões que um dia dominou.
Mas a camisa axadrezada preta e branca carrega algo que poucos clubes do mundo podem reivindicar. O Boavista pertence a um grupo de cinco — apenas cinco — clubes que foram campeões de Portugal em quase um século de história. Ele parou Larsson. Eliminou Dortmund e Dynamo de Kiev. Esteve a quinze minutos de uma final europeia.
A queda é real e dói. Mas ela não apaga o que aconteceu. Houve um tempo em que o time de poucos adeptos e quase nenhum dinheiro olhou para os gigantes da Europa de igual para igual — e não piscou.
Esse tempo existiu. E está nos livros para sempre.
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