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Colón de Santa Fé: 115 Anos, Um Título Histórico e o Rebaixamento

Existe um tipo de história que o futebol produz de vez em quando e que seria impossível inventar — porque nenhum roteirista teria coragem de escrevê-la. É boa demais para ser verossímil, e triste demais para ser confortável.

A história do Colón de Santa Fé entre 2019 e 2023 é exatamente isso.

115 Anos Esperando Alguma Coisa

O Colón foi fundado em 1905, na cidade de Santa Fé, na Argentina. "El Sabalero" — apelido tirado do sabalo, peixe típico do Rio Paraná que corta a região — passou mais de um século competindo no futebol argentino sem jamais conquistar um título na elite nacional.

Não por falta de torcida. Não por falta de história. Mas porque o futebol tem uma crueldade específica com alguns clubes: ele os mantém vivos, competitivos o suficiente para nunca desaparecerem, mas distantes o suficiente para nunca chegarem. O Colón foi subcampeão do Clausura argentino em 1997. Jogou a Libertadores em 1998. Sobreviveu a rebaixamentos. Voltou. E seguiu sem nada para mostrar nas vitrines.

Até que 2019 chegou.

Assunção, 30 Mil Colorados e a Final que Não Deveria Acontecer

A Copa Sul-americana de 2019 foi a primeira edição da competição disputada com final única em sede neutra, nova política da CONMEBOL. A sede escolhida originalmente era Lima, no Peru. Por razões logísticas — reformas em estádios, mudanças de última hora — a final migrou para Assunção, no Paraguai.

O Paraguai faz fronteira com a Argentina. De Santa Fé até Assunção, são aproximadamente mil quilômetros — distância longa, mas possível. De Santa Fé até Lima, seria três vezes mais. Essa mudança, decidida antes mesmo de se saber quem seriam os finalistas, transformou a final numa espécie de presente involuntário.

Quando o Colón eliminou seus adversários e chegou à decisão, mais de 30 mil torcedores santafesinos embarcaram para o Paraguai. No Estádio General Pablo Rojas, em Assunção, a torcida do Colón praticamente monopolizou o estádio — chegando perto de um recorde Guinness de presença de uma única equipe em uma final internacional. Os Palmeras, banda que representa Santa Fé ao mundo, tocou antes da partida.

Do outro lado estava o Independiente del Valle, do Equador. Um adversário incomum — clube pequeno de Sangolquí, sem tradição continental, que havia chegado à final como zebra máxima do torneio.

A chuva caiu forte em Assunção na noite de 9 de novembro de 2019. E o resultado foi ainda mais frio: Independiente del Valle 3, Colón 1.

Os gols equatorianos vieram cedo e vieram rápido. O gol de honra do Colón não foi suficiente para mudar o enredo. Os 30 mil colorados que tinham cruzado o país para ver a história sendo escrita viram outro capítulo: o do quase.

Para um clube de 114 anos que nunca tinha chegado tão longe, o "quase" pesou como uma pedra.

A Redenção de San Juan

Dezoito meses depois.

É o tempo exato que separou a derrota em Assunção do maior momento da história do clube. No dia 4 de junho de 2021, no Estádio Bicentenario de San Juan, o Colón do técnico Eduardo Domínguez entrou em campo para a final da Copa de la Liga Profesional argentina contra o Racing Club.

O clube que havia passado 116 anos sem vencer nada relevante fez 3 a 0.

Aliendro, Bernardi, Castro — os nomes dos autores dos gols viraram história imediata em Santa Fé. As ruas da cidade pararam. Uma geração inteira de torcedores, que havia crescido ouvindo que o Colón "nunca ganhou nada", finalmente tinha uma resposta diferente para dar.

Três a zero. Primeiro título. 116 anos.

O futebol tinha entregado o que a torcida sabalera esperava desde sempre — e havia demorado tanto que, quando chegou, a intensidade da celebração era proporcional ao tamanho da espera.

A Conta Chegou

Dois anos e meio depois do título, em 1º de dezembro de 2023, o Colón perdeu um playoff de rebaixamento contra o Gimnasia de La Plata por 1 a 0. O jogo foi no estádio do Newell's, em Rosário — não em Santa Fé, não em terreno familiar. O gol de Nicolás Colazo encerrou qualquer esperança.

O clube recorreu ao Tribunal de Disciplina da AFA, argumentando que a regra do rebaixamento havia mudado durante o torneio. O recurso foi rejeitado. O Colón desceu para a Primera Nacional, a segunda divisão argentina.

O mesmo clube que havia estado em uma final continental em 2019, que havia levantado o primeiro título nacional da história em 2021, estava de volta ao escalão abaixo. A queda foi construída nos dois anos seguintes ao título, com campanhas modestas na Liga Profesional 2022 e na Copa de la Liga 2023 que somadas deixaram o clube como segundo pior da tabela geral.

O futebol não guarda memória de conquistas passadas quando se trata de proteger a permanência no presente.

O que o Futebol Não Promete

A história do Colón entre 2019 e 2023 não tem moral simples. Não é sobre incompetência nem sobre injustiça. É sobre como o futebol distribui seus momentos de forma absolutamente irregular — entregando tudo de uma vez e retomando tudo logo depois, sem aviso, sem protocolo, sem piedade pelo que aconteceu antes.

Um clube esperou 115 anos. Quase ganhou tudo em 2019. Ganhou pela primeira vez em 2021. E foi rebaixado em 2023.

Tudo isso aconteceu. É real. É documentado. E é exatamente o tipo de coisa que faz do futebol o que ele é — um esporte capaz de entregar histórias que nenhum roteirista teria coragem de assinar.


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