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Sete Títulos Seguidos. Uma Parede Europeia. A História do Lyon de Juninho.

Entre 2002 e 2008, o Olympique Lyonnais venceu o campeonato francês sete vezes seguidas. É o maior número de títulos consecutivos já conquistados por um clube em qualquer uma das cinco principais ligas europeias naquele período. O recorde ainda existe.

Durante esses sete anos, o Lyon não tinha adversário doméstico. Na Champions League, tinha uma parede.

E o momento em que finalmente derrubou essa parede foi justamente o ano em que perdeu o campeonato francês pela primeira vez em oito anos.

O futebol tem uma ironia específica que não tem nome, mas que o Lyon conhece bem.

O homem que construiu tudo

Jean-Michel Aulas assumiu o Olympique Lyonnais em 1987. O clube nunca tinha vencido o campeonato francês. Jogava no Estádio de Gerland, uma arena modesta para um clube que sonhava maior do que aparentava.

Aulas não era homem de futebol — era empresário de tecnologia. E tratou o clube como trataria uma empresa: investimento sistemático, planejamento de longo prazo, recusa em aceitar o papel de coadjuvante. Ao longo dos anos 1990, o Lyon foi crescendo dentro do futebol francês sem fazer muito barulho — segundo lugar em 1995, participações regulares na Champions League, elenco cada vez mais competitivo.

O último peça que faltava chegou no verão de 2001.

Um brasileiro quase despercebido

Juninho Pernambucano deixou o Vasco da Gama e foi para Lyon sem causar grande comoção. No Brasil, ele era um jogador respeitado — campeão brasileiro em 1997 e 2000, vencedor da Copa Libertadores em 1998. Na Europa, era quase um desconhecido.

O que aconteceu nas temporadas seguintes mudou a forma como o futebol europeu pensava sobre cobranças de falta.

Juninho desenvolveu e aperfeiçoou uma técnica que ficou conhecida como "knuckleball" — uma batida sem efeito que faz a bola se mover de forma errática e imprevisível no ar, impossível de antecipar para qualquer goleiro. Andrea Pirlo escreveu em sua autobiografia que se dedicou a uma busca "obsessiva" para descobrir o segredo técnico por trás da técnica que Juninho havia trazido ao futebol europeu.

Ao longo de oito temporadas em Lyon, Juninho marcou 44 gols diretos de falta e 100 gols no total em 344 partidas por todas as competições. Esses números não são estatísticas abstratas — representam uma presença que definia o clube dentro e fora de campo. Quando Lyon ganhava um falta perigosa, o resultado já parecia provável antes da cobrança.

Os sete anos

O primeiro título, em 2002, não foi confortável. O Lyon estava oito pontos atrás na virada do ano. Precisou vencer partidas difíceis contra Auxerre e Bordeaux nas últimas rodadas para chegar ao título na última jornada.

O que veio depois foi diferente. Com 22 vitórias, 13 empates e apenas três derrotas, Lyon terminou doze pontos à frente do Lille para conquistar o quarto título consecutivo. A margem sobre os concorrentes foi crescendo. O elenco se renovava — Sonny Anderson saiu, Fred chegou, Michael Essien foi vendido para o Chelsea mas o sistema não vacilou. Na temporada 2006-07, Juninho contribuiu com 9 gols e 13 assistências no campeonato, sendo eleito o melhor jogador da Ligue 1.

A sétima e última taça, em 2007-08, foi conquistada com 24 vitórias, 9 empates e 5 derrotas. Lyon ainda ganhou a Copa da França naquele ano, batendo o PSG por 1 a 0 na final com gol de Govou na prorrogação — o dobradinho completado no encerramento da era.

Entre 2002 e 2008, nenhum clube francês chegou perto. O Lyon havia transformado a competição doméstica em formalidade.

A parede que a Europa construiu

Na Champions League, a história era diferente.

Ano após ano, o Lyon avançava até as quartas de final — ou caía antes disso no mata-mata. Jogaram contra o Barcelona, o Milan, o Chelsea, o PSV, o Real Madrid. Chegaram às quartas em várias ocasiões. Nunca foram além. A semifinal da Champions League, para uma equipe que dominava a França com tanta consistência, parecia um destino impossível.

O debate que se instalou no futebol europeu era direto: o Lyon era realmente uma potência, ou apenas o rei de um campeonato de segundo nível? Os sete títulos impressionavam, mas a Champions League era a régua real — e ali a régua não dobrava para eles.

A ironia que o futebol guardava

Em 2009, o Bordeaux de Laurent Blanc quebrou a série. Lyon terminou o campeonato sem o título pela primeira vez em oito anos.

Sem a pressão do campeonato doméstico naquela temporada, e tendo que começar a Champions League nos playoff de classificação, o Lyon goleou o Anderlecht por 8 gols no agregado, avançou do grupo, e foi sorteado com o Real Madrid nas oitavas de final — e surpreendentemente se classificou.

Nas quartas, o adversário era o próprio Bordeaux — o clube que havia encerrado o reinado doméstico de Lyon meses antes. Lyon o eliminou, e chegou pela primeira vez às semifinais da Champions League.

O teto europeu que havia resistido durante sete anos de domínio na França finalmente cedeu — no único ano em que Lyon não era campeão francês.

Nas semifinais, o Bayern de Munique foi mais forte. Lyon perdeu por 0 a 4 no agregado — zero em casa, zero fora. A história europeia terminou ali, mas o paradoxo ficou registrado: os sete anos de invencibilidade francesa nunca foram suficientes para cruzar aquela fronteira. O ano em que foram apenas o segundo melhor da França foi o ano em que chegaram mais longe na Europa.

O que ficou

Juninho jogou no Lyon até 2009. Voltou para o Vasco, passou por Al-Gharafa no Qatar, se aposentou. O clube onde construiu sua lenda o chamou de volta anos depois como diretor esportivo.

Os sete títulos consecutivos permanecem como o maior feito da história do clube e o maior streak de um time francês. É o período em que as palavras "Lyon" e "Gerland", o nome do seu antigo estádio, eram praticamente sinônimas de "futebol francês".

E as 44 faltas diretas convertidas por um brasileiro de Pernambuco, quase despercebido quando chegou em 2001, continuam sendo o número mais improvável de toda essa história.


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