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Celtic x Rangers: A Rivalidade Que Dividiu Uma Cidade Pela Religião

Existem rivalidades no futebol que são sobre futebol. Boca e River brigam por Buenos Aires. Real Madrid e Barcelona disputam a Espanha. Milan e Inter dividem o mesmo estádio.

E existe o Old Firm.

Celtic e Rangers não dividem apenas uma cidade. Dividem uma religião, uma identidade nacional e uma ferida histórica que sangra há mais de um século. Quando os dois se enfrentam em Glasgow, não é um jogo. É uma manifestação de tudo o que separa — e sempre separou — duas comunidades que vivem nas mesmas ruas, mas habitam mundos diferentes.

Nenhuma outra rivalidade no futebol carrega esse peso. E nenhuma outra dominou um país inteiro com tanta sufocância.

A origem: pobreza, imigração e fé

O Rangers foi fundado em 1872 por quatro adolescentes que queriam jogar futebol no parque. Não tinha identidade religiosa. Era apenas um clube.

O Celtic nasceu 15 anos depois, em 1887, com um propósito completamente diferente. O irmão Walfrid, um marista irlandês, fundou o clube para arrecadar fundos e alimentar imigrantes católicos irlandeses que viviam na miséria em Glasgow. O Celtic não nasceu para jogar futebol. Nasceu para combater a fome.

A Escócia do século XIX era um país protestante que recebeu ondas de imigrantes católicos vindos da Irlanda — fugindo da Grande Fome e da pobreza. Esses imigrantes enfrentaram discriminação, preconceito e exclusão. O Celtic se tornou o símbolo deles. O lugar onde ser católico e irlandês não era motivo de vergonha.

O Rangers, por contraste, foi gradualmente adotado pela comunidade protestante e unionista. A partir de 1912, quando trabalhadores protestantes do Ulster (Irlanda do Norte) se mudaram para Glasgow trazendo suas lealdades religiosas e políticas, a divisão se cristalizou. Rangers virou sinônimo de protestantismo, monarquia britânica e bandeira do Reino Unido. Celtic virou sinônimo de catolicismo, república irlandesa e bandeira tricolor.

Dois clubes. Uma cidade. Duas identidades inconciliáveis.

A regra não escrita que durou décadas

O Rangers tinha uma política que não aparecia em nenhum documento oficial, mas que todos conheciam: não se contratam jogadores católicos. Durante décadas, ser católico era motivo suficiente para ser rejeitado pelo clube — independentemente do talento.

Essa regra não escrita só foi quebrada em 1989, quando o técnico Graeme Souness contratou Mo Johnston, um atacante escocês que era católico — e, para piorar aos olhos da torcida, tinha jogado no Celtic. A reação foi violenta. Torcedores do Rangers queimaram cachecóis do clube em protesto. Alguns devolveram seus ingressos de temporada. Johnston recebeu ameaças de morte.

Johnston ficou, marcou gols, e a política acabou. Mas o fato de que em 1989 — não em 1889, em 1989 — um clube profissional de futebol ainda selecionava jogadores pela religião diz tudo sobre a profundidade dessa divisão.

O domínio: 111 de 128

O que Celtic e Rangers fizeram com o futebol escocês não tem paralelo em nenhum país do mundo. Dos 128 campeonatos nacionais disputados até 2026, os dois venceram 111. Oitenta e sete por cento. O Celtic tem 56 títulos. O Rangers tem 55.

O último clube que não fosse Celtic ou Rangers a ser campeão da Escócia foi o Aberdeen, em 1985. Quarenta e um anos atrás. Desde então, o troféu passou exclusivamente entre as mãos dos dois rivais de Glasgow.

Em maio de 2026, o Hearts chegou a um ponto de diferença do título — o mais perto que um clube de fora do Old Firm esteve em décadas. Não conseguiu.

Cada clube teve seu período de dominação absoluta. O Rangers venceu nove campeonatos consecutivos entre 1989 e 1997, igualando o recorde do Celtic nos anos 1960-70. Décadas depois, o Celtic devolveu: nove títulos seguidos entre 2012 e 2020.

Não existe nada igual no futebol mundial. Nem Juventus na Itália, nem Bayern na Alemanha, nem PSG na França dominaram com tanta constância e por tanto tempo. E nenhum deles divide esse domínio com o rival direto.

2012: o Rangers morre

Em fevereiro de 2012, o Rangers Football Club entrou em administração judicial. A dívida acumulada chegava a £134 milhões. Em junho, a empresa que controlava o clube foi liquidada. O Rangers, na prática, deixou de existir.

Um consórcio liderado pelo empresário inglês Charles Green comprou os ativos do clube — nome, brasão, estádio Ibrox, história — e tentou reingressar na primeira divisão. Os outros clubes escoceses votaram contra. O novo Rangers foi obrigado a recomeçar na quarta divisão do futebol escocês.

O clube com 54 títulos nacionais, o clube que nunca tinha sido rebaixado, o clube que disputava competições europeias — estava jogando contra equipes semiprofissionais em estádios de 2 mil lugares.

O contraste era brutal. Na mesma semana de outubro de 2012 em que a liquidação do Rangers foi oficializada, o Celtic de Neil Lennon vencia o Barcelona de Lionel Messi na fase de grupos da Champions League, no Celtic Park, diante de 60 mil torcedores.

Um estava no topo da Europa. O outro estava no fundo do poço.

A escalada de volta

O Rangers subiu divisão por divisão. Venceu a quarta divisão. Depois a terceira. Depois a segunda. Em 2016, quatro anos depois da liquidação, voltou à primeira divisão.

Mas voltar à elite e competir são coisas diferentes. O Celtic, sem o rival por perto, construiu uma hegemonia: nove títulos consecutivos (2012-2020), igualando os nove do Rangers nos anos 1990.

Em 2018, o Rangers contratou Steven Gerrard — lenda do Liverpool — como técnico. Gerrard trouxe disciplina, mentalidade e organização. Na temporada 2020-21, o Rangers venceu o campeonato invicto — 32 vitórias e 6 empates em 38 jogos, 102 pontos. Era o 55º título do clube. Nove anos depois do último. O ciclo de dominação do Celtic estava quebrado.

E em 2022, dez anos depois de estar na quarta divisão, o Rangers chegou à final da Europa League — perdendo nos pênaltis para o Eintracht Frankfurt em Sevilha. Da liquidação à final europeia em uma década. Uma das maiores ressurreições da história do esporte.

O Celtic de 1967: o time impossível

Se o Rangers tem a ressurreição, o Celtic tem o feito mais romântico da história do futebol europeu.

Em 1967, o Celtic de Jock Stein venceu a Copa dos Campeões — a antecessora da Champions League — derrotando a Inter de Milão de Helenio Herrera por 2 a 1 na final em Lisboa. O detalhe que transforma esse título em lenda: todos os jogadores do time eram de Glasgow. Todos nasceram em um raio de 48 quilômetros do estádio Celtic Park.

Ficaram conhecidos como os Lisbon Lions. Nenhum deles foi comprado de outro país. Nenhum custou uma fortuna. Eram jogadores locais, da comunidade, que venceram o melhor time da Europa jogando um futebol ofensivo e corajoso contra o Catenaccio italiano.

Foi a primeira vez que um clube britânico venceu a Copa dos Campeões. O Celtic fez isso antes do Manchester United, antes do Liverpool, antes do Nottingham Forest. Com um time inteiro da própria cidade.

O que o Old Firm ensina — e o que assusta

A rivalidade Celtic-Rangers é fascinante e perturbadora ao mesmo tempo. Fascinante porque produziu uma das histórias mais ricas do futebol — domínio compartilhado por 130 anos, uma liquidação e ressurreição, um título europeu com jogadores locais, e recordes que nenhum outro país se aproxima de igualar.

Perturbadora porque mostra como o futebol pode amplificar divisões que existem fora do campo. Pesquisas mostram que internações hospitalares em Glasgow aumentam nos dias de Old Firm. Já houve mortes associadas ao derby. Cantos sectários ainda ecoam nas arquibancadas, apesar de leis que tentam coibi-los.

Os clubes mudaram. O Rangers contrata católicos desde 1989. O Celtic tem jogadores de dezenas de nacionalidades. As torcidas são mais diversas do que eram. Mas a ferida original — a divisão entre católicos e protestantes que os imigrantes irlandeses trouxeram consigo no século XIX — nunca cicatrizou completamente.

O Old Firm é a prova de que o futebol nunca é apenas futebol. É identidade. É história. É religião. É política. É tudo o que uma sociedade carrega, comprimido em 90 minutos e duas cores.

Verde e branco de um lado. Azul do outro. E entre eles, uma cidade que nunca aprendeu a ser uma só.


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