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Jorge Campos: O Goleiro Que Era Artilheiro do Próprio Time

Se você assistiu a uma Copa do Mundo nos anos 1990, provavelmente guardou a imagem na memória. No gol do México, um homem baixo se mexia dentro de uma camisa que parecia não pertencer a um campo de futebol. Rosa, amarelo, verde, azul, tudo ao mesmo tempo, em padrões que mais lembravam uma prancha de surfe do que um uniforme esportivo.

A camisa é o que todo mundo lembra de Jorge Campos.

Mas a camisa era a parte menos interessante dele.

O goleiro que não queria ser goleiro

Em 1988, Jorge Campos chegou ao Pumas, da Universidade Nacional do México. Tinha 21 anos e uma vontade clara de jogar. Havia um problema: o goleiro titular era Adolfo Ríos, e não havia espaço para dois.

A maioria dos jovens teria esperado a vez no banco. Campos fez outra coisa. Pediu ao treinador para jogar como atacante.

Não era um pedido absurdo vindo dele. Campos havia jogado como ponta durante boa parte da juventude e sempre quis ser jogador de linha. O que aconteceu em seguida, porém, surpreendeu até quem acreditava nele.

Na sua primeira temporada no Pumas, registrado como goleiro, Jorge Campos marcou 14 gols. Brigou pela artilharia do campeonato mexicano. Não como goleiro que avançava em cobranças de escanteio nos minutos finais — como atacante de verdade, titular na frente, fazendo gols com regularidade.

Tirava as luvas no intervalo

A história poderia parar aí e já seria boa. Mas o melhor detalhe é como isso funcionava na prática, depois que ele assumiu o gol.

A partir de 1989, Campos conquistou a camisa 1 do Pumas e se tornou o goleiro titular. Só que a vontade de atacar nunca passou. Quando o time estava perdendo e o ataque não funcionava, ele fazia algo que praticamente nenhum goleiro na história do futebol fez de forma recorrente: começava o segundo tempo como atacante.

Tirava as luvas. Trocava de camisa. E ia para a frente fazer o trabalho duro de marcar gols. Outro goleiro entrava no lugar dele, e Campos passava a última meia hora caçando o empate ou a virada como centroavante.

Ao longo da carreira, somou 35 gols — quase todos pelo Pumas. É um número modesto para um atacante de ofício, mas impensável para alguém cuja função principal era impedir gols, não marcá-los. Campos pertence a uma categoria que talvez tenha só ele como membro pleno: a de jogador que era, ao mesmo tempo, o goleiro e uma das maiores ameaças ofensivas do próprio elenco.

Pequeno para o gol, rápido para tudo

Havia uma razão técnica para Campos jogar assim, e ela começava na sua estatura.

Com cerca de 1,70 metro, ele era baixo para um goleiro — uma desvantagem séria na posição. Compensava com reflexos, capacidade de salto, agilidade e uma velocidade incomum para sair jogando longe da área. Era o que hoje se chama de goleiro-líbero: alguém que defende, mas também participa da construção, jogando com os pés muito melhor do que a média dos jogadores de linha da época.

Esse estilo, arriscado e fora do padrão, fazia parte de uma geração latino-americana de goleiros que reinventaram a posição. O colombiano René Higuita, com seu "escorpião", e o paraguaio José Luis Chilavert, que batia faltas e pênaltis, eram os outros nomes. Campos talvez fosse o mais radical de todos — porque, diferente dos outros, ele não só saía da área: ele trocava de função no meio do jogo.

A camisa que a FIFA proibiu

E aí, sim, voltamos à camisa.

Os uniformes coloridos não eram acaso nem marketing imposto por uma marca. Campos os desenhava. A inspiração vinha de Acapulco, sua cidade natal, e das roupas de banho vibrantes que os surfistas usavam na praia. Ele criou os modelos sob a própria etiqueta, batizada de ACA — uma homenagem a Acapulco — e acabou vendendo os direitos de design para gigantes como Nike e Umbro.

As cores tinham função, também. Como goleiro, ele precisava se distinguir dos jogadores de linha, e quanto mais berrante a camisa, mais ele se destacava no gol. Algumas eram tão extravagantes que se tornaram lendárias por si só. A da Copa de 1994 está hoje exposta no museu da FIFA. A de 1998 teve outro destino: foi barrada. A federação mexicana e a fabricante de material esportivo vetaram o modelo, e Campos foi obrigado a usar um uniforme mais tradicional naquela Copa.

O tempo lhe deu razão. Décadas depois, padrões, cores e o uso ousado de tipografia que ele inventou apareceram em coleções de grandes casas de moda. O que parecia espalhafatoso nos anos 1990 virou referência de estilo.

O que ficou

Jorge Campos foi a três Copas do Mundo com o México e fez perto de 130 jogos pela seleção. Foi o primeiro futebolista mexicano contratado pela Nike e estrelou um comercial histórico da marca ao lado de Cantona, Maldini, Figo e Kluivert. É lembrado até hoje como um dos maiores ídolos do futebol mexicano — e isso jogando quase a carreira inteira dentro do México, numa época em que não existia internet para espalhar lances pelo mundo.

Mas, no fim, o que faz dele uma figura única não são os títulos nem as camisas. É a recusa em aceitar o lugar que o futebol tentou lhe dar.

Disseram que ele era pequeno demais para ser goleiro. Ele foi a três Copas. Disseram que goleiro defende e atacante ataca. Ele fez as duas coisas, no mesmo jogo, no mesmo time.

A camisa colorida chamava a atenção. Mas era só o aviso de que ali dentro havia alguém disposto a quebrar todas as regras da posição.


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