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Millwall x West Ham: A Rivalidade Mais Violenta do Futebol Inglês Que Virou Filme

 Se você já assistiu ao filme "Hooligans" (Green Street Hooligans, no título original), com Elijah Wood — sim, o Frodo de "O Senhor dos Anéis" —, provavelmente ficou impressionado com a intensidade da rivalidade entre as torcidas do West Ham e do Millwall retratada na tela. O que talvez você não saiba é que a realidade é ainda mais intensa do que qualquer roteiro de Hollywood poderia inventar.

A rivalidade entre Millwall e West Ham é considerada a mais violenta do futebol inglês — e possivelmente de toda a Europa. Não estamos falando de provocações em redes sociais ou xingamentos em dia de jogo. Estamos falando de décadas de confrontos que já resultaram em mortes, centenas de feridos e intervenções policiais que mudaram as regras de segurança em estádios de todo o país.

As raízes: antes do futebol

A maioria das rivalidades no futebol nasce dentro dos estádios. A do Millwall e West Ham não. Ela é anterior aos próprios clubes e tem suas raízes no século XIX, nas disputas entre trabalhadores das docas do Rio Tâmisa, no leste e sudeste de Londres.

O Thames Ironworks FC, que mais tarde se tornaria o West Ham United, foi fundado em 1895 por trabalhadores do estaleiro Thames Ironworks, no norte do rio. O Millwall Rovers (futuro Millwall FC) nasceu dez anos antes, em 1885, entre trabalhadores da região de Bermondsey, do outro lado do rio. As duas comunidades competiam ferozmente por trabalho no porto de Londres, e essa disputa econômica se transformou, naturalmente, em rivalidade esportiva.

Quando os clubes começaram a se enfrentar em campo, a hostilidade que já existia nas ruas simplesmente ganhou um palco maior. Ao longo de quase 130 anos de história, Millwall e West Ham se enfrentaram 99 vezes. O Millwall venceu 38 partidas, o West Ham 34, com 27 empates. Mas os números pouco importam. O que define esse clássico é o que acontece ao redor do campo.

Os Bushwackers e a Inter City Firm

No auge do hooliganismo inglês, entre as décadas de 1970 e 1990, as torcidas organizadas dos dois clubes estavam entre as mais temidas do país. Os "Bushwackers" do Millwall e a "Inter City Firm" (ICF) do West Ham protagonizaram confrontos que entraram para a história criminal da Inglaterra.

Os Bushwackers do Millwall cultivavam uma reputação de medo. O próprio clube adotou, por muitos anos, o lema "No one likes us, we don't care" (Ninguém gosta da gente e nós não ligamos). Os torcedores do Millwall faziam questão de serem odiados. Visitantes em seu estádio, o Den (atual The New Den), eram recebidos com hostilidade aberta. Jogadores adversários relatavam medo de jogar lá.

A ICF do West Ham, por sua vez, inovou no mundo hooligan ao viajar para jogos fora de casa usando trens InterCity de primeira classe — vestindo roupas casuais de grife em vez dos tradicionais lenços e cachecóis de torcida. O objetivo era passar despercebidos pela polícia e chegar aos estádios rivais sem serem identificados. Essa "tática" deu origem ao nome Inter City Firm.

O episódio de Luton: 1985

Um dos incidentes mais graves envolvendo o Millwall aconteceu em 13 de março de 1985, em uma partida de quartas de final da FA Cup contra o Luton Town, fora de casa. O estádio Kenilworth Road, com capacidade para pouco mais de 10 mil pessoas, recebeu 17.470 torcedores — muito além do limite. Os hooligans do Millwall, supostamente reforçados por membros de torcidas do West Ham e do Chelsea, transformaram o estádio em um campo de batalha.

O jogo foi interrompido após apenas 14 minutos. Mais de 700 assentos foram arrancados e usados como armas. Oitenta e uma pessoas foram hospitalizadas, incluindo 31 policiais. Um policial foi atingido na cabeça por um bloco de concreto e quase morreu. O incidente foi tão grave que a primeira-ministra Margaret Thatcher, que já não via o futebol com bons olhos, se reuniu com dirigentes da Federação Inglesa e passou a interferir diretamente na segurança dos estádios.

O filme: Green Street Hooligans (2005)

Em 2005, a diretora Lexi Alexander lançou "Green Street Hooligans", um filme que colocou a rivalidade Millwall x West Ham no mapa global. A história acompanha Matt Buckner (Elijah Wood), um estudante americano expulso de Harvard que vai morar com a irmã em Londres e acaba sendo introduzido ao submundo hooligan pelo cunhado Pete Dunham (Charlie Hunnam), líder da fictícia GSE (Green Street Elite), inspirada na real Inter City Firm do West Ham.

O filme retrata com intensidade os rituais das torcidas organizadas — os encontros em pubs, os cantos, a lealdade cega ao grupo — e culmina em um confronto brutal entre a GSE e os hooligans do Millwall. Charlie Hunnam, para se preparar para o papel, chegou a se encontrar pessoalmente com integrantes da verdadeira ICF.

O West Ham inicialmente se aproximou dos produtores, acreditando que o filme celebraria o clube. Quando descobriu o teor violento do roteiro, se afastou. O título original, "Green Street", é uma referência à rua onde ficava o antigo estádio do West Ham, o Boleyn Ground (Upton Park).

O sucesso do filme gerou duas continuações: "Green Street 2" (2009) e "Green Street 3: Never Back Down" (2013), e colocou a ICF e os hooligans do futebol inglês na cultura pop global. Em 2024, o ator Leo Gregory, que interpretou Bovver no filme original, anunciou que está escrevendo o roteiro de "Green Street 2.0", uma sequência direta do primeiro filme.

2009: a profecia se cumpre

Se alguém duvidava que a rivalidade retratada no filme ainda existia na vida real, agosto de 2009 tratou de confirmar. West Ham e Millwall se enfrentaram pela Copa da Liga Inglesa no Upton Park, o primeiro confronto entre os dois em quase cinco anos. A polícia, inexplicavelmente, relaxou o esquema de segurança habitual.

O resultado foi previsível para quem conhecia a história: campo invadido, batalhas pelas ruas do leste de Londres que se estenderam pela noite inteira. Policiais descreveram o confronto como "o mais violento entre hooligans em 30 anos". A partida se tornou um lembrete de que, apesar de todos os esforços para civilizar o futebol inglês, certas rivalidades continuam ardendo sob a superfície.

Os dias de hoje

Em anos recentes, os confrontos diretos entre Millwall e West Ham se tornaram raros, já que os dois clubes passam longos períodos em divisões diferentes. Quando se enfrentam em copas nacionais, o esquema de segurança é um dos mais rigorosos do futebol inglês: ingressos limitados para visitantes, policiamento massivo, e nenhuma venda de ingresso no dia do jogo.

A rivalidade, porém, não desapareceu. Ela apenas migrou — para redes sociais, para encontros "agendados" longe dos estádios, e para a cultura oral que passa de pai para filho nas comunidades do leste e sudeste de Londres. Como disse um antigo membro dos Bushwackers em um documentário: "Isso não é sobre futebol. Nunca foi. É sobre de onde você é."


Já assistiu ao filme Hooligans? Conta pra gente nos comentários o que achou! Para mais histórias de rivalidades e cultura de torcida, leia as maiores rivalidades do futebol brasileiro e as torcidas mais fanáticas do mundo.