Kazu Miura: 59 Anos, 41ª Temporada — e Não, Você Não Está Lendo Errado
É raro, mas a gente consegue lembrar de alguns nomes. Zé Roberto jogou até os 43. Fábio, goleiro, foi além. Cristiano Ronaldo está aí, com 41, ainda em campo no futebol árabe. Dá para visualizar — jogadores excepcionais, regime diferenciado, corpo que resiste onde a maioria cede.
Agora imagina com 50 anos.
Você vai responder que é possível — mas não no futebol profissional de verdade, certo? Num racha organizado de empresa, talvez. Numa pelada de fim de semana com ex-colegas, com certeza. Mas assinando contrato, treinando diariamente, competindo em jogos oficiais?
Senta. Porque Kazu Miura fez isso. E depois dos 55 também. E agora, com 59 anos, acabou de assinar mais um contrato.
Tudo começou no Brasil — literalmente
Kazuyoshi Miura nasceu em 1967 no Japão. Em 1982, com 15 anos, embarcou sozinho para o Brasil sem falar uma palavra de português. Destino: Santos — o mesmo clube que revelou Pelé.
Não era intercâmbio. Era uma tentativa de se tornar profissional, num país que nem futebol japonês conhecia direito. Ele ficou. Aprendeu a língua. Treinou. E em 1986, quatro anos depois de ter chegado adolescente numa cidade estranha, fez sua estreia como jogador profissional — pelo Santos, no Brasil.
Depois passou por Matsubara, União São João, Coritiba e Palmeiras antes de voltar ao Japão. Voltou diferente: moldado pelo futebol brasileiro, com experiência de quem havia sobrevivido a uma das transições mais improváveis que um jovem atleta pode fazer.
A carreira que percorreu o mundo
No Japão dos anos 1990, Kazu virou ídolo nacional. Marcou 55 gols em 89 jogos pela seleção. Era a maior estrela do futebol japonês num momento em que o país acabava de criar sua liga profissional.
Em 1994, foi emprestado ao Genoa. Tornou-se o primeiro japonês a jogar na Série A italiana. Jogou na Croácia, na Austrália e, em 2023, aos 56 anos, assinou com o Oliveirense — segunda divisão de Portugal. Naquele ano, num jogo na última rodada da temporada, entrou aos 64 minutos e ajudou o time a vencer por 4 a 3. Recebeu o troféu de "melhor em campo". O técnico adversário achou a premiação uma piada. O placar dizia que não era.
No total: seis países em quatro décadas. Brasil, Japão, Itália, Croácia, Austrália e Portugal.
O corte mais cruel da história do futebol japonês
Em 1998, o Japão se classificou para a Copa do Mundo pela primeira vez. A França seria o palco. Kazu era o artilheiro das eliminatórias e o maior símbolo daquela conquista histórica.
O técnico Takeshi Okada convocou 25 jogadores para a preparação final na Suíça. Depois precisava cortar três.
Em 2 de junho de 1998, Okada chamou Kazu e pediu que ele e outro veterano deixassem a concentração antes do anúncio oficial — para não causar tumulto com a imprensa. Eles pegaram um voo para o Japão via Itália. A notícia chegou antes deles.
O artilheiro das eliminatórias não foi para a Copa.
Okada disse anos depois que era jovem demais como técnico, que não havia encontrado uma forma de aproveitá-lo. Kazu nunca mais foi titular regular da seleção. Em 2000, aos 33 anos, jogou seus últimos jogos pelo Japão.
O que fez nos meses seguintes ao corte? Assinou com o Dinamo Zagreb e foi campeão da Croácia na temporada seguinte.
Os recordes que ninguém esperava ver
Em março de 2017, com 50 anos e sete dias, Kazu tornou-se o jogador mais velho a atuar em uma partida profissional — superando o inglês Stanley Matthews, que havia jogado pelo Stoke City em 1965 com 50 anos e 5 dias, e cuja marca havia resistido por 52 anos.
No mesmo ano, foi o jogador mais velho a marcar um gol numa partida de primeira divisão.
Ah, e em 2024, jogou pelo Atletico Suzuka — time de quarta divisão japonesa treinado pelo seu irmão mais velho, Yasutoshi. Sete partidas, zero gols. O time foi rebaixado para as ligas regionais. Kazu assinou com outro clube na sequência.
Em janeiro de 2026, anunciou contrato com o Fukushima United, terceira divisão japonesa. Na conferência de imprensa de apresentação, disse: "Minha paixão só cresce com a idade. Sinto que está aumentando."
Seus companheiros de time no Fukushima nasceram, em sua maioria, depois que ele estreou profissionalmente — no Brasil, em 1986.
O número que ainda falta
Kazu disputou Copa Asiática, foi campeão no Japão e na Croácia, jogou em seis países, quebrou recordes de longevidade que duravam décadas. Em 2012, aos 45 anos, participou da Copa do Mundo de Futsal no Tailândia — a única versão do Mundial que conseguiu disputar.
A Copa do Mundo de futebol nunca veio. Ele estava lá nas eliminatórias. Fez os gols. Foi mandado embora da concentração antes do anúncio.
Quatro décadas depois, ainda está assinando contratos. Ainda está em campo.
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