A Maldição mais Famosa dos Esportes: 108 Anos de Espera e a Noite que Mudou Tudo
Em 6 de outubro de 1945, um homem comprou dois ingressos para o quarto jogo da World Series, no Wrigley Field, em Chicago. Um para ele. O outro para o seu bode.
William Sianis era dono de um bar na cidade e levava o animal — chamado Murphy — a todo lugar. Naquela noite, esperava que o bode desse sorte ao seu time, os Chicago Cubs, que lideravam a final por 2 jogos a 1. Os funcionários do estádio barraram a dupla na entrada. Sianis apelou ao dono do clube, P.K. Wrigley, que respondeu que o homem podia entrar, mas o bode não. Quando perguntou o motivo, ouviu: "porque o bode fede".
Sianis foi embora furioso. Segundo a família, despachou em seguida um telegrama ao dono do time: "Vocês vão perder esta World Series e nunca mais vão ganhar outra. Nunca mais, porque você insultou meu bode."
Os Cubs perderam aquele jogo. Perderam os seguintes. Perderam a série.
E não venceram outra World Series pelos 71 anos seguintes.
108 anos
Para entender o tamanho do que aconteceu, é preciso entender o tamanho da espera.
A última vez que os Chicago Cubs haviam sido campeões antes de 1945 foi em 1908. No início do século, o clube era uma potência: venceu em 1907 e 1908, tornando-se o primeiro time do beisebol profissional a conquistar dois títulos seguidos. Depois disso, o vazio. Entre 1945 e 2016, o time sequer disputou uma final. Ganhou o apelido de "Lovable Losers" — os adoráveis perdedores — e se tornou sinônimo de azar no esporte americano.
Quando 2016 começou, a conta era de 108 anos sem um título. Era a maior seca de campeonatos da história do esporte profissional norte-americano — mais longa que a de qualquer franquia da NFL, da NBA ou da própria liga de beisebol. E era, de longe, a mais famosa.
Tudo que tentaram
A maldição virou folclore, e o folclore virou obsessão. Durante décadas, torcedores tentaram de tudo para quebrá-la.
O sobrinho de Sianis levou um bode — descendente de Murphy — à entrada do Wrigley Field em 1973, 1984, 1989, 1994 e 1998. Foi barrado quase sempre. Em 2003, um grupo levou um bode ao estádio do rival em Houston, desenrolou um pergaminho e declarou a maldição "revertida". Em 2008, os Cubs trouxeram um padre ortodoxo grego para espalhar água benta no banco de reservas antes dos playoffs — e foram varridos da competição em três jogos. Em 2015, um grupo de comedores competitivos devorou um bode de 18 quilos em pouco mais de 13 minutos. Houve até uma cabeça de bode entregue numa caixa preta ao dono do clube.
Nada funcionou. A cada temporada promissora, um desastre inexplicável parecia confirmar a maldição. Um gato preto que cruzou o banco de reservas em 1969. Uma bola desviada por um torcedor na arquibancada em 2003, a cinco eliminações da final. O time sempre encontrava uma forma nova de perder.
A noite
Em 2016, os Cubs montaram o melhor time do beisebol — 103 vitórias na temporada regular. Chegaram à World Series pela primeira vez desde 1945 e enfrentaram o Cleveland Indians, que carregava a segunda maior seca da liga: nada de título desde 1948. Alguém ia quebrar uma maldição histórica naquela série. O outro herdaria o posto de maior jejum do beisebol.
Cleveland abriu 3 a 1 na decisão. Os Cubs precisavam vencer três jogos seguidos para não desabar mais uma vez. Venceram dois. E forçaram o sétimo e decisivo jogo, em Cleveland.
O Jogo 7 foi para a história como um dos maiores de todos os tempos. Os Cubs lideravam por 6 a 3 quando, a quatro eliminações do título, sofreram o empate em uma jogada que, em qualquer um dos 107 anos anteriores, teria parecido o golpe final. Empate em 6 a 6. E aí, no fim do nono inning, com a partida prestes a ir para a prorrogação, o céu se abriu sobre o estádio.
Choveu. A lona foi estendida sobre o campo. Atraso de 17 minutos.
Os 17 minutos
O que aconteceu naquela pausa é a parte que quase ninguém conta.
Os jogadores dos Cubs saíram do campo cabisbaixos — o ar de um time que sabia que algo terrível tinha acontecido. No corredor que levava ao vestiário, um jogador chamou todos para uma pequena sala de musculação. Jason Heyward era a contratação mais cara do elenco: havia assinado um contrato de 184 milhões de dólares e passado o ano inteiro em má fase, rebatendo pouco, começando a final no banco. Sua contribuição mais valiosa naquela noite não viria do taco. Viria da voz.
Heyward reuniu os companheiros e falou. Lembrou-os de quem eram. Disse que eram o melhor time do beisebol e que era hora de mostrar isso. Disse para jogarem como se o placar estivesse zerado, para lutarem uns pelos outros. Alguns jogadores choravam. Outros começaram a falar também. Do lado de fora, o presidente de operações do clube passou pela porta, ouviu, e parou para escutar.
Dezessete minutos depois, um time diferente saiu daquela sala. Os Cubs marcaram dois pontos na entrada da décima parcial e seguraram a vantagem. A última jogada foi uma bola rolando lentamente — o jogador escorregou na grama molhada ao se preparar para o arremesso, mas dessa vez não falhou. Cubs 8, Indians 7.
Anthony Rizzo resumiria depois: aquele atraso por chuva, diria ele, foi a coisa mais importante a acontecer com o Chicago Cubs nos últimos 100 anos.
O que ficou
Os Cubs venceram o título da liga, semanas antes, em 22 de outubro — exatamente no 46º aniversário da morte de William Sianis, o homem do bode. Quem acredita em maldições achou ali o sinal de que ela enfim se quebrava. Quem não acredita teve, ao menos, uma boa coincidência para contar.
Do outro lado, Cleveland herdou o posto. Tornou-se, naquela noite, dono da maior seca de títulos da liga — uma espera que continua até hoje.
A maldição do bode durou 71 anos. A espera por um título, 108. Tudo terminou numa noite de chuva, numa sala apertada, com o discurso de um jogador que mal havia rebatido o ano inteiro.
Murphy, o bode, finalmente podia descansar.
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