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O Dia em Que o Futebol Parou uma Guerra Civil

Em agosto de 2004, alguns dos jogadores de futebol mais famosos do planeta atr
avessaram as ruas de uma capital sitiada não em ônibus de luxo, mas em cima de veículos blindados do Exército. Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo, Roberto Carlos. De um lado da rua e do outro, uma multidão. O país vivia uma guerra civil. E por algumas horas, ela parou.

Aquele dia ficou conhecido como o Jogo da Paz.

Um país em pedaços

Para entender o tamanho do que aconteceu, é preciso entender onde aconteceu.

No início de 2004, o Haiti — o país mais pobre das Américas — mergulhou em uma crise profunda. O presidente Jean-Bertrand Aristide foi deposto, grupos armados tomaram as ruas, e a nação caribenha entrou em colapso político, social e humanitário. Para tentar estabilizar o país, a ONU criou uma missão de paz, a Minustah, cuja liderança militar foi entregue ao Brasil. Cerca de 600 soldados brasileiros passaram a integrar a operação.

Era um cenário de violência cotidiana, fome e incerteza. Foi nesse contexto que nasceu uma ideia improvável: e se a seleção brasileira fosse até lá jogar?

A ideia improvável

A proposta partiu do alto. O então primeiro-ministro haitiano, Gérard Latortue, e o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, idealizaram um amistoso entre as duas seleções. O raciocínio era quase ingênuo na sua simplicidade: num país despedaçado pela violência, o futebol talvez fosse a única linguagem capaz de unir as pessoas, ainda que por um momento.

A aposta tinha lógica. O Haiti é uma nação apaixonada por futebol e, historicamente, devota da camisa amarela do Brasil. Levar até lá a seleção pentacampeã do mundo — campeã havia apenas dois anos — não era levar um time qualquer. Era levar o objeto de admiração de todo um povo.

A CBF aceitou. A Fifa autorizou. E a seleção comandada por Carlos Alberto Parreira embarcou para Porto Príncipe.

Craques sobre tanques

A chegada foi inesquecível, e a imagem que ficou dela é das que não se apagam.

A delegação ficou poucas horas em território haitiano. Mas, no trajeto entre o aeroporto e o estádio Sylvio Cator, milhares de pessoas tomaram as ruas da capital. E os jogadores não passaram escondidos em um ônibus blindado. Eles desfilaram em cima dos veículos militares — em pé, à vista de todos, acenando para a multidão. Ídolos do futebol mundial sobre tanques de guerra, cercados por um mar de gente em um dos lugares mais conflagrados do mundo naquele momento.

Um dos jogadores presentes resumiu o choque daquilo melhor do que qualquer descrição. "Nós só fomos recebidos daquele jeito no Brasil após ganharmos a Copa do Mundo, e lá era só um amistoso", recordou o zagueiro Roque Júnior. Outro companheiro de elenco, o também zagueiro Juan, lembrou anos depois da contradição que viu pela janela: o país vivia uma guerra, o exército estava nas ruas, havia pobreza por todos os lados — e, ainda assim, aquela gente queria apenas ver a seleção e celebrar.

O placar que não importava

Dentro de campo, o jogo foi o que se esperava de um duelo entre a campeã mundial e um país em frangalhos.

Em 18 de agosto de 2004, diante de um estádio lotado, o Brasil venceu por 6 a 0. Ronaldinho Gaúcho marcou três vezes. Roger Flores fez dois — os únicos gols dele pela seleção principal em toda a carreira. Nilmar fechou a conta. O primeiro-ministro haitiano havia prometido mil dólares ao jogador local que furasse a defesa brasileira, mas o prêmio não encontrou dono.

E aqui está o detalhe que define a história: o placar não importava. Os relatos da época contam que a torcida haitiana comemorava os gols do Brasil com o mesmo entusiasmo que dedicaria à própria seleção. Não havia derrota a lamentar, porque ninguém estava ali pela disputa. Estavam ali pela rara oportunidade de, por noventa minutos, esquecer onde viviam e simplesmente assistir a um espetáculo. O 6 a 0 era apenas o pretexto. A festa era o conteúdo.

O que ficou depois do apito

A seleção foi embora no mesmo dia. A guerra civil, infelizmente, não terminou com um amistoso — a crise haitiana se arrastaria por anos, e o país enfrentaria ainda outras tragédias. Seria desonesto fingir que um jogo de futebol resolveu algo de permanente.

Mas seria igualmente desonesto dizer que não significou nada.

A partida virou um documentário, "O Dia em que o Brasil Esteve Aqui", lançado em 2005. A CBF recebeu o Prêmio Fifa Fair Play daquele ano pela iniciativa. E houve um legado mais concreto do que troféus: na esteira da presença brasileira no Haiti, surgiu a Academia Pérolas Negras, um projeto criado por brasileiros para formar jovens jogadores haitianos através do futebol. Mais de duas décadas depois, quatro atletas formados naquela iniciativa chegaram à seleção principal do Haiti.

Ou seja: aquele dia plantou sementes que germinaram longe dos holofotes, em garotos que nem tinham nascido quando Ronaldinho desfilou sobre um blindado pelas ruas de Porto Príncipe.

A linguagem que todos falam

Quando Brasil e Haiti se reencontram em campo, a lembrança de 2004 reaparece sozinha. E ela sobrevive não por causa do resultado — quase ninguém lembra que foi 6 a 0 — mas por causa do que aquela tarde representou.

Foi a prova de uma ideia simples e poderosa: o futebol é uma língua que dispensa tradução. Num país onde armas, política e diplomacia tropeçavam, onze jogadores de camisa amarela conseguiram, por algumas horas, o que ninguém mais conseguia. Pararam a guerra. Encheram as ruas. Trouxeram alegria a quem quase não tinha motivos para ela.

O placar foi esquecido. O dia, não.


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