Mas Afinal: O Palmeiras de 1951 É Campeão do Mundo?
O país comemorou. A ferida do Maracanazo tinha apenas um ano. A seleção brasileira havia perdido a Copa do Mundo dentro de casa, para o Uruguai, diante de mais de 150 mil pessoas no estádio. O futebol brasileiro precisava de alguma resposta. Naquele julho de 1951, parecia que havia chegado.
Setenta e quatro anos depois, a manchete ainda divide o Brasil. O título existe. O torneio aconteceu. A questão é o que, exatamente, aquele torneio foi.
A dor que criou o torneio
O Brasil de 1950 era o favorito para ganhar sua primeira Copa do Mundo — e era o anfitrião. O estádio do Maracanã havia sido construído para a ocasião, com capacidade para mais de 150 mil pessoas. No dia da partida decisiva contra o Uruguai, o país parou.
O resultado foi 2 a 1 para o Uruguai.
A derrota virou trauma nacional. Houve relatos de suicídios nas horas seguintes. O luto durou anos. E foi precisamente desse luto que nasceu a Copa Rio de 1951: a CBD — precursora da CBF — decidiu convidar os melhores clubes do mundo para uma competição no Brasil. A ideia era reunir os campeões nacionais da Europa e da América do Sul, determinar quem era o melhor clube do planeta, e dar ao torcedor brasileiro algo para celebrar.
O formato era simples: oito clubes divididos em dois grupos de quatro, com finais no Maracanã. O objetivo declarado era definir o campeão mundial de clubes. Ninguém chamava de amistoso.
O Palmeiras, campeão paulista de 1950, foi um dos representantes brasileiros. Na outra chave, o Vasco da Gama. Do lado europeu: a Juventus da Itália, o Sporting de Portugal, e outros clubes que completariam o campo.
Na teoria, era o mundo todo representado. Na prática, algo saiu diferente do planejado.
O time que veio — e o que não veio
Dos oito clubes que disputaram o torneio, três não eram os convidados originais.
A Inglaterra foi convidada a mandar o Tottenham — campeão da First Division de 1950-51. O Tottenham recusou. No lugar, veio o Austria Vienna, da Áustria.
A Espanha seria representada pelo Barcelona. O Barcelona recusou. No lugar, veio o Olympique de Nice, da França. Sim: o substituto do clube espanhol foi um clube francês, mas era o atual campeão nacional.
A Suécia também deveria ter enviado seu campeão. Não enviou. O substituto foi o Estrela Vermelha, campeão da então Iugoslávia.
Ou seja: dos oito participantes, três vieram de países que sequer foram os originalmente convidados. O substituto inglês era austríaco. O substituto espanhol era francês. O substituto sueco era iugoslavo. Nenhuma das três maiores potências do futebol europeu da época — Inglaterra, Espanha e Suécia — enviou representantes.
Os defensores do título argumentam com razão que os cinco clubes que vieram por convite direto eram de peso: a Juventus (Itália), o Sporting (Portugal), o Nacional (Uruguai), o Vasco e o Palmeiras. E que o Palmeiras foi superior a Juventus — campeã italiana — em ambos os jogos da final no Maracanã: 1 a 0 no primeiro, 2 a 2 no segundo. Um resultado legítimo contra um adversário de alto nível.
Os céticos respondem que vencer um torneio sem os representantes de Inglaterra, Espanha e Suécia tem um nome diferente de mundial.
Ambos os lados têm argumento.
O que a FIFA disse — e o que ela não disse
Em 7 de junho de 2014, durante a 31ª Reunião do Comitê Executivo da FIFA, realizada em São Paulo no contexto da Copa do Mundo no Brasil, foi tomada uma decisão sobre a Copa Rio de 1951. A ata oficial descreveu a decisão como: atender à requisição da CBF para reconhecer o torneio de 1951 entre clubes da Europa e América do Sul vencido pelo Palmeiras como a primeira competição mundial de clubes.
A FIFA havia reconhecido o Palmeiras como campeão de algo que chamou de "first worldwide club competition". Em agosto do mesmo ano, o então presidente da FIFA, Joseph Blatter, confirmou publicamente o reconhecimento.
O Palmeiras tinha uma ata assinada por dirigentes da FIFA. A manchete de 1951 parecia finalmente validada.
Exceto por um detalhe.
A FIFA distingue entre "primeiro torneio de abrangência mundial entre clubes" e "Copa do Mundo de Clubes da FIFA". No site oficial da entidade, a lista de campeões mundiais de clubes começa em 2000 — quando a FIFA passou a organizar diretamente o torneio. O Palmeiras não está nessa lista.
Há outro detalhe que os críticos da ata nunca deixam de mencionar: a reunião de 2014 foi presidida por Joseph Blatter, posteriormente banido do futebol. A ata foi assinada por Jérôme Valcke, também banido. Entre os presentes estava Marco Polo Del Nero, ex-presidente da CBF, igualmente banido. É a ata mais discutida do futebol brasileiro — e também a que tem a lista mais improvável de signatários.
O que a FIFA disse foi real. O que ela não disse também.
Então, afinal: é mundial ou não?
A manchete de 1951 existiu. A final contra a Juventus existiu. O troféu existiu. A ata de 2014 existiu.
As três recusas dos convidados originais também existiram. A distinção da FIFA entre "first worldwide club competition" e "FIFA Club World Cup" também existe. A ausência do Palmeiras no site oficial da entidade também existe.
O Palmeiras carrega a estrela. Os rivais contestam. A FIFA usou duas palavras diferentes para duas coisas diferentes. E o Brasil ainda não chegou num acordo.
Setenta e quatro anos depois da manchete, a pergunta continua aberta.
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