Um Tiro Livre de Koeman — e Trinta Anos de Inferno
A bola passou pela barreira. Entrou. Barcelona 1, Sampdoria 0.
Naquele momento, eles estavam a 90 minutos de vencer a Europa — e não haviam conseguido. Mas ainda eram, sem discussão, um dos melhores clubes do continente. Vialli e Mancini em campo. Três Copas da Itália. O Scudetto de 1991. Uma geração construída por um único homem ao longo de 14 anos.
Ninguém naquela noite em Londres sabia que aquele era o pico. Que o que viria depois não seria o próximo capítulo de uma história em ascensão — seria, aos poucos, o início de um inferno que duraria décadas.
O homem que construiu o impossível
Em 3 de julho de 1979, um empresário chamado Paolo Mantovani comprou a Sampdoria. O clube estava na Série B, sem perspectiva, sem dinheiro e sem identidade definida. Gênova sempre foi a cidade do Genoa — a Sampdoria era o segundo time, o clube das sombras.
Mantovani prometeu primeiro a volta à Série A. Depois, o Scudetto.
Ninguém levou a sério. Mas em 1982 o clube voltou à primeira divisão. Em 1986, o técnico iugoslavo Vujadin Boskov assumiu o comando e encontrou o material humano para construir algo extraordinário: Gianluca Vialli e Roberto Mancini como a dupla de ataque mais elegante que o futebol italiano produziria naquela geração. Atrás deles, Pietro Vierchowod e Gianluca Pagliuca como pedras do sistema defensivo.
Em 1989, a Sampdoria conquistou a Copa dos Campeões de Copas, vencendo o Anderlecht por 2 a 0 em Berna. Em 1991, venceu seu único Scudetto da história. Em 1992, chegou à final da Champions League em Wembley — e perdeu por um gol, num tiro livre no minuto 112 da prorrogação.
Antes mesmo que a temporada seguinte começasse, Vialli foi para a Juventus. Boskov também saiu. O ciclo havia encerrado. Mantovani ainda tentou: trouxe Ruud Gullit, contratou Sven-Göran Eriksson como técnico, e o clube terminou a temporada de 1993-94 em terceiro lugar e conquistou mais uma Coppa Italia.
Depois disso, em 14 de outubro de 1993, Paolo Mantovani morreu de câncer nos pulmões.
Tinha 59 anos. Em 14 anos à frente do clube, havia transformado um time da Série B num finalista europeu. Não haveria sucessor à sua altura. O filho, Enrico, herdou o clube — e a impossibilidade de repetir o que o pai havia feito.
Trinta anos descendo
A saída de Roberto Mancini em 1997 foi o último fio de ligação com a era dourada. A partir dali, a Sampdoria entrou numa espiral de instabilidade que se repetiria em ciclos cada vez mais difíceis de reverter.
Em 1999, o clube foi rebaixado para a Série B pela primeira vez desde a era pré-Mantovani — resultado de uma temporada caótica com múltiplas trocas de técnico e crescentes problemas financeiros. Em 2001, a situação era tão grave que o clube só evitou a queda para a terceira divisão ao vender jogadores para pagar as contas. A crise que Renato descreveria como "inferno" tinha apenas começado.
O clube voltou à Série A em 2003. Nos anos seguintes, vieram altos e baixos: uma classificação surpreendente para a Champions League em 2009-10, seguida de outro rebaixamento em 2011. Outro retorno em 2012. A Sampdoria havia se tornado um clube do tipo ioiô — sempre voltando, nunca ficando, nunca crescendo.
Em 2014, Massimo Ferrero — produtor de cinema romano sem histórico no futebol — comprou o clube. Foram anos de estabilidade na Série A, mas com a situação financeira se deteriorando por baixo. Em 2019, Gianluca Vialli — o maior ídolo da torcida — tentou articular a compra do clube com investidores americanos. A negociação fracassou.
Em dezembro de 2021, Ferrero foi preso por crimes financeiros relacionados a outras empresas. Deixou a presidência. O clube ficou à deriva.
Em 6 de janeiro de 2023, Gianluca Vialli morreu de câncer pancreático. Havia passado seus últimos anos ao lado de Roberto Mancini como chefe de delegação da seleção italiana, ajudando o país a conquistar a Eurocopa de 2021. Não viveu para ver a Série B. Não viveu para ver a Série C.
Meses depois, em maio de 2023, a Sampdoria foi rebaixada da Série A pela primeira vez em mais de uma década.
A Série C — pela primeira vez em 78 anos
A temporada 2024-25 foi a última chance de evitar o inimaginável. Andrea Pirlo — campeão do mundo de 2006, um dos melhores meias da história italiana — foi contratado como técnico para liderar a reconstrução. Foi demitido após três jogos: duas derrotas e um empate.
Veio Andrea Sottil. Depois Leonardo Semplici. Depois Alberico Evani — o quarto técnico da temporada.
Em março de 2025, após uma derrota de 3 a 0 em casa para o Frosinone, o ônibus da delegação foi atacado por torcedores furiosos — apedrejado e bombardeado com sinalizadores do lado de fora do estádio Luigi Ferraris. O mesmo estádio que em 1991 havia recebido a festa do Scudetto.
Em maio de 2025, a Sampdoria foi confirmada na Série C. Pela primeira vez em 78 anos de existência, o clube fundado em 1946 jogaria na terceira divisão do futebol italiano.
Roberto Mancini treinava a seleção da Arábia Saudita. O retrato de Vialli estava nos corredores do Coverciano, a sede da seleção italiana. Os dois maiores ídolos da Sampdoria construíam suas lendas em outro lugar, enquanto o clube que os revelou chegava ao seu ponto mais baixo.
O tiro livre de Koeman está nos livros de história. A Série C também.
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