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Um Tiro Livre de Koeman — e Trinta Anos de Inferno

Em 20 de maio de 1992, no estádio de Wembley, 30.000 torcedores da Sampdoria viram Ronald Koeman bater um tiro livre no minuto 112 da final da Champions League.

A bola passou pela barreira. Entrou. Barcelona 1, Sampdoria 0.

Naquele momento, eles estavam a 90 minutos de vencer a Europa — e não haviam conseguido. Mas ainda eram, sem discussão, um dos melhores clubes do continente. Vialli e Mancini em campo. Três Copas da Itália. O Scudetto de 1991. Uma geração construída por um único homem ao longo de 14 anos.

Ninguém naquela noite em Londres sabia que aquele era o pico. Que o que viria depois não seria o próximo capítulo de uma história em ascensão — seria, aos poucos, o início de um inferno que duraria décadas.

O homem que construiu o impossível

Em 3 de julho de 1979, um empresário chamado Paolo Mantovani comprou a Sampdoria. O clube estava na Série B, sem perspectiva, sem dinheiro e sem identidade definida. Gênova sempre foi a cidade do Genoa — a Sampdoria era o segundo time, o clube das sombras.

Mantovani prometeu primeiro a volta à Série A. Depois, o Scudetto.

Ninguém levou a sério. Mas em 1982 o clube voltou à primeira divisão. Em 1986, o técnico iugoslavo Vujadin Boskov assumiu o comando e encontrou o material humano para construir algo extraordinário: Gianluca Vialli e Roberto Mancini como a dupla de ataque mais elegante que o futebol italiano produziria naquela geração. Atrás deles, Pietro Vierchowod e Gianluca Pagliuca como pedras do sistema defensivo.

Em 1989, a Sampdoria conquistou a Copa dos Campeões de Copas, vencendo o Anderlecht por 2 a 0 em Berna. Em 1991, venceu seu único Scudetto da história. Em 1992, chegou à final da Champions League em Wembley — e perdeu por um gol, num tiro livre no minuto 112 da prorrogação.

Antes mesmo que a temporada seguinte começasse, Vialli foi para a Juventus. Boskov também saiu. O ciclo havia encerrado. Mantovani ainda tentou: trouxe Ruud Gullit, contratou Sven-Göran Eriksson como técnico, e o clube terminou a temporada de 1993-94 em terceiro lugar e conquistou mais uma Coppa Italia.

Depois disso, em 14 de outubro de 1993, Paolo Mantovani morreu de câncer nos pulmões.

Tinha 59 anos. Em 14 anos à frente do clube, havia transformado um time da Série B num finalista europeu. Não haveria sucessor à sua altura. O filho, Enrico, herdou o clube — e a impossibilidade de repetir o que o pai havia feito.

Trinta anos descendo

A saída de Roberto Mancini em 1997 foi o último fio de ligação com a era dourada. A partir dali, a Sampdoria entrou numa espiral de instabilidade que se repetiria em ciclos cada vez mais difíceis de reverter.

Em 1999, o clube foi rebaixado para a Série B pela primeira vez desde a era pré-Mantovani — resultado de uma temporada caótica com múltiplas trocas de técnico e crescentes problemas financeiros. Em 2001, a situação era tão grave que o clube só evitou a queda para a terceira divisão ao vender jogadores para pagar as contas. A crise que Renato descreveria como "inferno" tinha apenas começado.

O clube voltou à Série A em 2003. Nos anos seguintes, vieram altos e baixos: uma classificação surpreendente para a Champions League em 2009-10, seguida de outro rebaixamento em 2011. Outro retorno em 2012. A Sampdoria havia se tornado um clube do tipo ioiô — sempre voltando, nunca ficando, nunca crescendo.

Em 2014, Massimo Ferrero — produtor de cinema romano sem histórico no futebol — comprou o clube. Foram anos de estabilidade na Série A, mas com a situação financeira se deteriorando por baixo. Em 2019, Gianluca Vialli — o maior ídolo da torcida — tentou articular a compra do clube com investidores americanos. A negociação fracassou.

Em dezembro de 2021, Ferrero foi preso por crimes financeiros relacionados a outras empresas. Deixou a presidência. O clube ficou à deriva.

Em 6 de janeiro de 2023, Gianluca Vialli morreu de câncer pancreático. Havia passado seus últimos anos ao lado de Roberto Mancini como chefe de delegação da seleção italiana, ajudando o país a conquistar a Eurocopa de 2021. Não viveu para ver a Série B. Não viveu para ver a Série C.

Meses depois, em maio de 2023, a Sampdoria foi rebaixada da Série A pela primeira vez em mais de uma década.

A Série C — pela primeira vez em 78 anos

A temporada 2024-25 foi a última chance de evitar o inimaginável. Andrea Pirlo — campeão do mundo de 2006, um dos melhores meias da história italiana — foi contratado como técnico para liderar a reconstrução. Foi demitido após três jogos: duas derrotas e um empate.

Veio Andrea Sottil. Depois Leonardo Semplici. Depois Alberico Evani — o quarto técnico da temporada.

Em março de 2025, após uma derrota de 3 a 0 em casa para o Frosinone, o ônibus da delegação foi atacado por torcedores furiosos — apedrejado e bombardeado com sinalizadores do lado de fora do estádio Luigi Ferraris. O mesmo estádio que em 1991 havia recebido a festa do Scudetto.

Em maio de 2025, a Sampdoria foi confirmada na Série C. Pela primeira vez em 78 anos de existência, o clube fundado em 1946 jogaria na terceira divisão do futebol italiano.

Roberto Mancini treinava a seleção da Arábia Saudita. O retrato de Vialli estava nos corredores do Coverciano, a sede da seleção italiana. Os dois maiores ídolos da Sampdoria construíam suas lendas em outro lugar, enquanto o clube que os revelou chegava ao seu ponto mais baixo.

O tiro livre de Koeman está nos livros de história. A Série C também.


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