O Defensor que Jogou 120 Minutos Perfeitos e é Lembrado Pelos Dois Segundos do Pênalti
Tinha 34 anos. Tinha um joelho reconstruído cirurgicamente 25 dias antes. Tinha acabado de jogar 90 minutos de futebol e mais 30 de prorrogação — 120 minutos no total — contra Romário e Bebeto, os dois melhores atacantes daquele Mundial. O técnico Arrigo Sacchi diria anos depois que ele "provavelmente não deveria ter jogado". Mas ele havia pedido para entrar. E havia jogado o melhor jogo de sua vida.
Quando chegou a hora dos pênaltis, foi o primeiro a se oferecer. O mais experiente. O capitão. A bola foi para cima da trave.
Hoje, 31 de julho de 2026, Franco Baresi morreu aos 66 anos, após longa batalha contra um câncer no pulmão. O Brasil o conhece por aqueles dois segundos. O resto do futebol o conhece por tudo o que veio antes.
Vinte anos, um clube, dois rebaixamentos
Franco Baresi entrou nas categorias de base do Milan com 14 anos. Estreou no time principal em 1977. Se aposentou em 1997. Em 20 anos, não vestiu a camisa de nenhum outro clube.
Isso, por si só, já seria notável. O que torna a história maior é o que ele recusou no caminho.
Em 1980, o Milan foi rebaixado para a Série B após ser implicado num escândalo de manipulação de resultados. Baresi tinha 19 anos e um contrato no bolso — o mesmo que qualquer clube da Europa teria dado para tê-lo. Ficou. Ajudou o time a subir. Em 1982, o Milan foi rebaixado de novo, desta vez por resultados ruins em campo. Baresi agora era campeão do mundo com a Itália e tinha a Europa inteira em disputa por ele. Ficou de novo.
Naquele mesmo ano de 1982, com 22 anos, foi nomeado capitão do clube. Não porque os outros aceitaram. Porque os outros foram embora.
Havia também sobrevivido, em 1981, a uma infecção sanguínea grave que o prendeu numa cadeira de rodas por quatro meses. Voltou ao campo em plena forma. O apelido que os torcedores milaneses haviam dado a ele nos primeiros anos — "Piscinin", que em dialeto local significa "o pequenininho" — passou a soar como ironia. O menor do elenco havia se tornado o maior de todos.
O defensor que jogava à frente do seu tempo
No futebol dos anos 80, o zagueiro era definido pelo que destruía. Baresi redefiniu a posição pelo que construía.
Ele jogava como "libero" — o último defensor antes do goleiro — mas lia o jogo com a antecipação de um meio-campista. Não esperava o atacante chegar: ele sabia onde o atacante estaria antes que o próprio atacante soubesse. Dominava a bola com os pés. Iniciava ataques com passes precisos. O alemão Franz Beckenbauer havia inventado esse estilo uma geração antes. Baresi o aperfeiçoou a ponto de receber o apelido de "Kaiser Franz" por comparação.
Com a chegada de Arrigo Sacchi ao Milan em 1987 e do trio holandês — Van Basten, Gullit e Rijkaard — o clube se tornou o melhor time da Europa. Baresi era a pedra fundamental de uma das defesas mais temidas da história: ao lado de Maldini, Costacurta e Tassotti, formou uma linha que parecia impermeável.
Seis Scudettos. Três Champions Leagues. A camisa número 6 aposentada ao fim de sua carreira — ninguém mais no Milan a usaria novamente. Em 1999, os torcedores votaram e o elegeram o Jogador do Século do clube. Pelé o incluiu na lista dos 125 Maiores Jogadores Vivos do futebol.
Os 120 minutos que o Brasil não viu
Em junho de 1994, na segunda partida do grupo contra a Noruega, Baresi saiu de campo com o menisco do joelho esquerdo rompido. O tempo normal de recuperação para essa lesão era de três a seis meses. O técnico e os médicos da seleção foram unânimes: a Copa estava encerrada para ele.
Baresi discordou. Pediu a cirurgia imediatamente. Começou a fisioterapia no dia seguinte. Disse que se a Itália chegasse à final, ele estaria em campo.
A Itália chegou. Ele estava.
Com 34 anos e um joelho reconstruído há apenas 25 dias — quando a recuperação padrão levaria meses — Baresi jogou os 90 minutos da final mais 30 de prorrogação. Contra Romário. Contra Bebeto. Contra a melhor dupla de ataque do torneio. Goal.com escreveu hoje, em sua homenagem: "Baresi havia passado 90 minutos entregando uma das maiores aulas defensivas que o futebol já viu. Ele fez isso contra o melhor atacante do mundo. Aos 34 anos. Menos de um mês após a cirurgia no menisco."
Quando chegou a hora dos pênaltis, foi o primeiro a se levantar. Não porque era o mais descansado. Porque era o capitão, e capitães não esperam que outros façam o que é difícil.
A bola foi por cima da trave. Ele caiu de joelhos. As lágrimas vieram.
O Brasil guardou na memória aquela imagem. O mundo do futebol guardou as outras.
Franco Baresi jogou 719 partidas pelo Milan. Ganhou cada título que o futebol de clube oferece. A camisa 6 que vestiu durante 20 anos nunca foi dada a mais ninguém.
Isso é o que acontece quando um clube sabe o que perdeu.
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