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A Vingança do Sul da Itália que Durou Sete Anos

Em 5 de julho de 1984, 75.000 pessoas foram ao Estádio San Paolo apenas para ver um homem levantar uma camisa azul.

Não havia jogo. Não havia contrato assinado ainda. Havia um argentino de 23 anos descendo de um helicóptero sobre um estádio em erupção. Diego Armando Maradona havia acabado de ser vendido pelo Barcelona por uma taxa de transferência que quebrou o recorde mundial — e quase ninguém queria acreditar que o destino era Nápoles.

"Os intelectuais me criticaram", disse Corrado Ferlaino, presidente do clube à época. "Disseram que Nápoles era uma cidade pobre e que era imoral. Mas era o meu dinheiro, e eu queria gastar assim."

O que nenhum dos críticos viu é que Nápoles não estava comprando um jogador de futebol. Estava comprando uma resposta.

A cidade que o Norte chamava de sul

Para entender o que aconteceu entre 1984 e 1991 em Nápoles, é preciso entender o que era Nápoles antes disso.

A cidade fica na metade sul da Itália, num país com um dos mais profundos e antigos abismos geográficos da Europa. O norte — Milão, Turim, Verona — era rico, industrializado, cosmopolita. O sul era chamado, dependendo de quem falava, de atrasado, de africano, de doente. A palavra "terrone" — algo entre "caipira" e "bárbaro" — era o insulto comum jogado contra os napolitanos nas ruas e nos estádios.

Nos anos anteriores à chegada de Maradona, Nápoles tinha sofrido um terremoto devastador (1980), um surto de cólera ainda recente na memória (1973), desemprego elevadíssimo e a violência da Camorra encrustada no tecido da cidade. A Juventus, o Milan e a Inter dividiam os Scudettos entre si há décadas. Um clube do sul da Itália jamais havia vencido o campeonato italiano.

No primeiro jogo fora de casa de Maradona pelo Napoli, em Verona, os torcedores da casa abriram uma faixa: "Bem-vindos à Itália."

Não era gentileza. Era o aviso de que o sul ainda não tinha lugar naquela mesa.

Maradona entendeu a mensagem — e foi além dela. Havia crescido numa favela nos arredores de Buenos Aires, sem estradas pavimentadas, sem água limpa. "Quero me tornar o ídolo dos meninos pobres de Nápoles", declarou logo nos primeiros meses, "porque eles são como eu era quando vivia em Buenos Aires." A cidade e o jogador se reconheceram de imediato. Dois mundos à margem de um sistema que não queria incluí-los.

A resposta que durou sete anos

Em novembro de 1985, Maradona cobrou uma falta direta contra a Juventus — o clube mais titulado da Itália, símbolo do futebol do norte — e fez 1 a 0. O San Paolo entrou em colapso. Dois torcedores sofreram ataques cardíacos. Cinco desmaiaram. Era apenas um jogo do campeonato. Mas para Nápoles não era: era o primeiro round de algo que vinha sendo acumulado há gerações.

Em 10 de maio de 1987, o Napoli venceu o Campeonato Italiano pela primeira vez na história do clube — 61 anos depois de sua fundação. A antropóloga italiana Amalia Signorelli descreveu a cena com uma frase que se tornou histórica: "A cidade mais barulhenta, mais populosa e mais caótica da Europa estava deserta." Não havia ninguém nas ruas porque estavam todos no estádio ou grudados a um rádio.

Nos cemitérios da cidade, alguém havia escrito nos muros: "Vocês não sabem o que estão perdendo."

Nos dias seguintes, em cidades do norte como Verona, Udine e Bérgamo, folhetos foram distribuídos advertindo os napolitanos a não irem celebrar por lá. O mesmo norte que havia erguido a faixa de "Bem-vindos à Itália" não queria receber a festa.

Maradona não havia apenas ganho um título. Havia devolvido algo que o sul da Itália não sabia que um dia receberia: a prova de que podia ser o melhor.

Nos sete anos em que vestiu a camisa do Napoli, ele conquistou dois Scudettos (1987 e 1990), uma Copa da UEFA (1989), uma Coppa Italia e uma Supercopa. Marcou 115 gols pelo clube. E em 115 edições da Serie A até aquele momento, apenas duas vezes um clube do sul da Itália havia sido campeão. As duas vezes com Maradona.

O jogo que partiu uma cidade ao meio

Em 3 de julho de 1990, a Copa do Mundo chegou ao San Paolo.

A partida era Itália contra Argentina — semifinal. E o estádio era a casa de Maradona.

Na véspera do jogo, ele concedeu uma entrevista que se tornou uma das mais politicamente carregadas da história do futebol. "Os napolitanos estão sendo pedidos para ser italianos por uma noite", disse ele, "enquanto nos outros 364 dias do ano são chamados de terroni. Só quero respeito pelos napolitanos. O resto da Itália deveria saber que o povo de Nápoles é tão italiano quanto eles."

Ele havia colocado fogo num conflito de séculos com uma só declaração.

Dentro do San Paolo, a Itália que durante todo o torneio havia jogado sem sofrer um único gol entrou em campo para uma atmosfera que não era inteiramente a favor dela. As faixas nas arquibancadas diziam tudo: "Maradona no nosso coração, a Itália nos nossos cânticos." Uma outra: "Maradona, Nápoles te ama, mas a Itália é nossa pátria."

A Argentina venceu nos pênaltis. Maradona converteu o seu.

No dia seguinte, a imprensa italiana foi impiedosa. O técnico da seleção italiana, Azeglio Vicini, afirmou que teriam vencido se o jogo fosse em Roma. Maradona foi acusado de ter dividido a nação. Em 1991, ele foi suspenso por 15 meses após um teste positivo para cocaína e deixou Nápoles numa saída cheia de amargura e processos judiciais.

A cidade que ele havia transformado o viu partir da mesma forma que o havia recebido: como algo que pertencia a ela e ao mesmo tempo a nenhum lugar do mundo.

Hoje, o estádio se chama Estadio Diego Armando Maradona. Seu rosto está em cada muro, em cada café, em altares com velas que a cidade mais católica da Itália construiu para ele ainda quando era vivo. Não apesar dos escândalos — junto com eles.

Porque Nápoles sempre soube que os santos perfeitos são para outras cidades.


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