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O Dinossauro Que Caiu: A Incrível e Dolorosa História do Hamburgo na Segunda Divisão Alemã

 No canto noroeste do Volksparkstadion, em Hamburgo, existia um relógio. Não era um relógio comum. Ele marcava, em anos, meses, dias, horas, minutos e segundos, quanto tempo o Hamburger SV estava na Bundesliga de forma ininterrupta.

Desde a fundação da liga, em 1963, o Hamburgo jamais havia sido rebaixado. Era o único clube da Alemanha que podia dizer isso. Nem o Bayern de Munique (rebaixado em 1965, dois anos antes de ingressar na Bundesliga), nem o Borussia Dortmund (que caiu para a segunda divisão em 1972). Ninguém. Apenas o Hamburgo.

O relógio era motivo de orgulho. Os torcedores o chamavam de "die Uhr" — o relógio. E ele ficou ali, contando, por 54 anos, 261 dias. Até que parou.

O gigante que Kevin Keegan ajudou a construir

Para entender o tamanho da queda, é preciso conhecer o tamanho do que o Hamburgo já foi.

O clube foi fundado em 1887, sendo um dos mais antigos da Alemanha. Quando a Bundesliga foi criada em 1963, o Hamburgo estava entre os 16 clubes fundadores — e nunca mais saiu. Mas foi nos anos 1970 e 1980 que o clube viveu sua era dourada.

Em 1977, o Hamburgo contratou Kevin Keegan, astro inglês que havia acabado de ganhar a Liga dos Campeões pelo Liverpool. Keegan levou o clube a outro patamar. Em duas temporadas, foi eleito o melhor jogador da Europa duas vezes consecutivas (Ballon d'Or de 1978 e 1979), e ajudou o Hamburgo a conquistar o campeonato alemão de 1979.

O título foi o primeiro de três em cinco anos. O Hamburgo foi campeão novamente em 1982 e 1983, com jogadores como Manfred Kaltz, Felix Magath e Horst Hrubesch. Em 1983, veio a glória máxima: a conquista da Copa dos Campeões da Europa (a atual Champions League), com uma vitória por 1 a 0 sobre a Juventus de Platini na final. Magath marcou o gol. O Hamburgo estava no topo do mundo.

A lenta descida

Após o tricampeonato e a taça europeia, o Hamburgo nunca mais foi campeão da Bundesliga. Mas durante décadas manteve-se como um clube respeitável da primeira divisão, com passagens pela Copa UEFA e até pelo terceiro lugar do campeonato.

A partir de 2009, porém, o declínio acelerou. Temporada após temporada, o time flertava com o rebaixamento. E temporada após temporada, escapava por milagre.

Em 2013-14, o Hamburgo terminou na posição de repescagem (16º lugar) e precisou enfrentar o Greuther Fürth no playoff. Empatou em 0 a 0 no primeiro jogo e venceu por 3 a 1 fora de casa. Escapou.

Em 2014-15, de novo na repescagem. Dessa vez contra o Karlsruher SC. No segundo jogo, perdendo por 1 a 0 e a caminho da segunda divisão, Marcelo Díaz acertou uma cobrança de falta aos 90 minutos para empatar. Nos acréscimos da prorrogação, Nicolai Müller marcou o gol da permanência. Escapou no último suspiro.

O relógio continuava contando. Mas todos sabiam que era questão de tempo.

12 de maio de 2018 — o dia em que o relógio parou

Na última rodada da temporada 2017-18, o Hamburgo venceu o Borussia Mönchengladbach por 2 a 1 em casa. Mas o resultado não foi suficiente. O Wolfsburg também venceu, e o Hamburgo, com 31 pontos em 34 jogos, terminou na 17ª posição. Rebaixado.

Depois de 55 temporadas consecutivas na Bundesliga — um recorde que nenhum outro clube alemão sequer chegou perto — o Hamburgo caiu.

O relógio no estádio foi desligado. Marcava 54 anos, 261 dias. Os torcedores, em vez de chorar em silêncio, reagiram com fúria: invadiram o gramado e dispararam fogos de artifício. A frustração acumulada de anos de más gestões, contratações erradas e futebol medíocre explodiu naquela noite.

O apelido "der Dino" (o dinossauro) — dado ao clube por ser o último sobrevivente original da Bundesliga — ganhou um novo significado. O dinossauro, como seus ancestrais pré-históricos, havia sido extinto.

Sete anos no purgatório

O que aconteceu depois do rebaixamento é onde a história do Hamburgo se torna verdadeiramente agonizante. Porque cair é doloroso, mas ficar preso por sete anos na segunda divisão, sempre perto de subir e nunca conseguindo, é tortura.

Temporada por temporada, o Hamburgo repetia o mesmo ciclo de esperança e frustração:

2018-19 — 4º lugar. Na primeira temporada na 2. Bundesliga, o Hamburgo era o grande favorito ao acesso. Começou bem, liderou boa parte do primeiro turno, e depois desabou. Terminou em quarto lugar. Na Alemanha, sobem os dois primeiros, e o terceiro disputa um playoff. Quarto lugar não serve para nada.

2019-20 — 4º lugar. De novo. Mesma história, mesmo final. O Hamburgo simplesmente não conseguia manter a regularidade necessária para terminar entre os dois primeiros.

2020-21 — 4º lugar. Pela terceira vez consecutiva, quarto lugar. A essa altura, o quarto lugar já era uma piada cruel entre os torcedores. O artilheiro Simon Terodde fez 24 gols — e não foi suficiente.

2021-22 — 3º lugar. Finalmente o Hamburgo escapou do quarto lugar. Chegou em terceiro e disputou o playoff de acesso contra o Hertha Berlin, que havia terminado em 16º na Bundesliga. No primeiro jogo, em Hamburgo, vitória por 1 a 0. No segundo, em Berlim, derrota por 2 a 0. Eliminado. A torcida assistiu mais uma vez à promoção escapar entre os dedos.

2022-23 — 3º lugar. Novamente terceiro. Novamente playoff. Dessa vez contra o Stuttgart, 16º na Bundesliga. O Stuttgart goleou no placar agregado. O Hamburgo foi humilhado na repescagem pela segunda vez seguida. O saldo nos dois jogos foi de uma derrota por 5 gols de diferença.

2023-24 — 4º lugar. O quarto lugar voltou a assombrar. Pela quarta vez em sete temporadas, o Hamburgo terminava exatamente na posição que não dava acesso direto nem playoff. Era como se o futebol tivesse um senso de humor particularmente cruel.

10 de maio de 2025 — a libertação

Na sétima temporada na 2. Bundesliga, algo finalmente mudou. O técnico Merlin Polzin, um hamburguês de 34 anos que havia assumido interinamente após a demissão de Steffen Baumgart em novembro de 2024, deu ao time algo que faltava há anos: estabilidade emocional.

Na penúltima rodada, o Hamburgo recebeu o lanterna Ulm no Volksparkstadion. Milhares de torcedores receberam o ônibus do time no caminho para o estádio com cantos, bandeiras e sinalizadores. Por dentro, todos temiam que o roteiro cruel se repetisse mais uma vez.

Não repetiu. O Hamburgo goleou por 6 a 1 e garantiu matematicamente o acesso como segundo colocado, atrás apenas do Colônia.

Polzin, em lágrimas, declarou ao final: "Estamos de volta! Quando você trabalha tanto e é recompensado, nunca vai esquecer."

O Hamburgo havia ficado 2.558 dias fora da Bundesliga. Sete temporadas. Três quartos lugares. Dois playoffs perdidos. E finalmente, o retorno.

A temporada 2025-26 — de volta à elite

Na temporada atual, o Hamburgo está de volta à Bundesliga. Sob o comando de Polzin, que teve o contrato estendido após a promoção, o time ocupa a metade de cima da tabela. O Volksparkstadion, com média de 57 mil torcedores por jogo, voltou a pulsar.

O relógio no estádio? Foi reiniciado. Começou a contar novamente do zero. A torcida sabe que o recorde de 54 anos provavelmente nunca será batido — nem por eles, nem por ninguém. Mas não importa. O que importa é que o relógio está contando outra vez.

O que o Hamburgo ensina

A história do Hamburger SV é um lembrete de que no futebol, a gravidade existe. Nenhum clube é grande demais para cair. Nenhum recorde é eterno. Nenhuma tradição é garantia.

Mas também é uma história de persistência. Sete anos de frustração, de quase-lá, de ver a linha de chegada e tropeçar antes de cruzá-la. E no oitavo ano, a recompensa.

Para os torcedores do Hamburgo — muitos dos quais nunca abandonaram o clube, lotando o estádio mesmo na segunda divisão — o retorno à Bundesliga não foi apenas uma promoção esportiva. Foi a prova de que a lealdade, por mais dolorosa que seja, eventualmente é recompensada.

O dinossauro não foi extinto. Ele apenas hibernou.


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