Links Curiosidades Histórias Bastidores Cultura e Torcida Personagens Outras Modalidades
Imagem

Rebaixado Num Ano. Campeão no Outro.

Em agosto de 1997, a primeira rodada da Bundesliga levou o recém-promovido Kaiserslautern para jogar em Munique, contra o Bayern — os campeões alemães, o clube mais rico do país, o mesmo clube que havia demitido o técnico do Kaiserslautern um ano antes.

Otto Rehhagel ganhou de 1 a 0.

Naquele momento, o resultado parecia apenas uma boa surpresa de início de temporada. O que ninguém na Alemanha estava preparado para entender é que aquela vitória era o primeiro capítulo de algo que a Bundesliga ainda não havia visto — e que, quase trinta anos depois, ainda não voltou a ver.

O colapso com uma taça nas mãos

Kaiserslautern é uma cidade de 90 mil habitantes no estado de Rhineland-Palatinate, no sudoeste da Alemanha. O clube havia vencido a Bundesliga em 1951, 1953 e 1991. Havia quatro décadas sem ser rebaixado.

Em maio de 1996, as duas coisas aconteceram na mesma semana.

Primeiro, o Kaiserslautern venceu a Copa da Alemanha — o DFB Pokal — conquistando um título nacional. Uma semana depois, foi rebaixado para a segunda divisão. O clube desceu com um troféu nas mãos que não sabia bem como comemorar.

Foi nesse momento que Otto Rehhagel apareceu.

Rehhagel tinha 57 anos e havia sido demitido pelo Bayern Munich semanas antes. Assumir um clube recém-rebaixado, em uma cidade pequena, com orçamento limitado, era o tipo de movimento que a maioria dos técnicos de seu nível evitaria. Ele aceitou. Sua primeira missão era o acesso à Bundesliga. Conseguiu na temporada seguinte, de forma convincente.

A segunda missão começou em agosto de 1997.

A temporada que parou a Bundesliga

O Bayern havia se reforçado no verão. Contratou Giovane Elber, artilheiro do Stuttgart. Trouxe o lateral-esquerdo francês Bixente Lizarazu. Tinha Giovanni Trapattoni no comando. Era o favorito natural ao título.

O Kaiserslautern não tinha estrelas. Miroslav Kadlec era o líbero — o cérebro defensivo que Rehhagel havia construído como base de tudo. Um jovem Michael Ballack ainda engatinhava no time titular. Pavel Kuka e Olaf Marschall eram os artilheiros. Era um time de trabalho, não de brilho individual.

Depois da vitória na abertura do campeonato em Munique, o Kaiserslautern venceu o Hertha BSC na rodada seguinte. Na quarta rodada, assumiu a liderança. E nunca saiu de lá.

O Bayern tentou, tropeçou, voltou, tropeçou de novo. Três derrotas seguidas em fevereiro e março colocaram o título fora de alcance dos bávaros. O Kaiserslautern, enquanto isso, vencia — inclusive seis jogos nos acréscimos, recusando-se a aceitar resultados que pareciam definidos.

Na 33ª rodada, com uma partida ainda a disputar, o Kaiserslautern venceu o Wolfsburg por 4 a 0 em casa. Bayern empatou em 0 a 0 longe de Munique. A diferença era de quatro pontos. Não havia mais como alcançar.

Os jogadores choraram no gramado do Fritz-Walter Stadion. Otto Rehhagel foi erguido nos ombros de seu elenco. O clube recém-promovido havia vencido a Bundesliga — o primeiro e único na história do campeonato a fazer isso.

Em quase 30 anos desde então, o mais perto que alguém chegou de repetir o feito foi o RB Leipzig, que terminou em segundo lugar na temporada 2016-17. Vencer sendo recém-promovido ainda não aconteceu novamente.

O técnico que repetiu o impossível

Rehhagel deixou o Kaiserslautern após o título. O clube nunca mais chegou àquele nível. Foi rebaixado novamente em 2006 e hoje disputa a segunda divisão alemã.

Rehhagel foi para a seleção da Grécia em 2001. Em junho de 2004, em Portugal, a Grécia ganhou a Eurocopa. Bateu a República Tcheca. Bateu a França. Na final, em Lisboa, bateu Portugal — o anfitrião, com Cristiano Ronaldo, Luís Figo e Rui Costa — por 1 a 0.

A Grécia era cotada a 150 para 1 antes do torneio.

A fórmula era a mesma: trabalho coletivo acima de talentos individuais, solidez defensiva, crença quando o resultado parecia definido. O Kaiserslautern de 1997-98 tinha sido um ensaio geral — e quase ninguém havia percebido.

Há técnicos que vencem um título improvável. Otto Rehhagel venceu dois, em diferentes países, em diferentes décadas, com diferentes modalidades de impossível. O template estava em Kaiserslautern, esperando por Atenas.


Siga o @alemdabolaoficial no Instagram para mais histórias do futebol que vai além do placar.

Você também pode se interessar por: