A Maratona Olímpica que Usou Veneno de Rato como Estimulante Legal
Seus assistentes disseram não.
Em vez disso, misturaram clara de ovo com estricnina — veneno de rato, usado em doses pequenas como estimulante — e deram para ele beber enquanto corria. A 20 quilômetros do fim, outra dose. Desta vez com conhaque. Hicks estava alucinando quando cruzou a linha de chegada, sustentado pelos dois homens de sua equipe. Médicos o trataram por envenenamento. Ele não conseguiu sair do estádio por mais de uma hora. Nunca mais disputou uma maratona.
Ele era o campeão olímpico de 1904.
A prova desenhada para dar errado
A maratona olímpica de St. Louis aconteceu em 30 de agosto de 1904, no calor de 32 graus, nas estradas de terra batida da cidade, durante a parte mais quente do dia. O percurso não foi fechado para o tráfego: os corredores precisavam desviar de carroças, trens, bondes e pessoas passeando com cães.
Havia 32 atletas de sete países na largada. Apenas 14 cruzariam a linha de chegada.
O único posto de água em todo o percurso de 40 quilômetros não estava ali por descuido. James Sullivan, o organizador-chefe da prova, o colocou deliberadamente para testar os efeitos da "desidratação proposital" nos atletas. Ele queria dados científicos. Os corredores eram o experimento.
Tudo o que aconteceu depois foi consequência direta dessa decisão.
Os personagens
O primeiro a chegar ao estádio foi o americano Frederick Lorz, com o tempo de 3 horas e 13 minutos. A multidão rugiu. Alice Roosevelt — filha do presidente Theodore Roosevelt, presente na cerimônia — estava prestes a lhe entregar a medalha quando alguém revelou a verdade: Lorz havia percorrido 11 dos 40 quilômetros dentro de um automóvel. Quando o carro parou com problemas mecânicos, ele simplesmente voltou a correr. Lorz disse que era uma brincadeira. Os organizadores não acharam graça. Foi desclassificado.
Enquanto isso, Felix Carvajal percorria o percurso a seu ritmo. Carvajal era um carteiro cubano que havia levantado a própria passagem realizando exibições de corrida nas ruas de Havana. Chegou atrasado à largada, cortou as calças na linha de partida para transformá-las em shorts e saiu correndo enquanto conversava com os espectadores. Em dado momento, parou perto de um pomar, comeu algumas maçãs silvestres — que estavam podres — e teve cólicas estomacais tão fortes que precisou deitar à beira da estrada para descansar. Levantou, retomou a corrida e terminou em quarto lugar.
Len Taunyane, sul-africano, era um dos primeiros atletas negros africanos a competir nos Jogos Olímpicos. Estava entre os mais rápidos do campo quando um bando de cães selvagens o perseguiu por quase dois quilômetros para fora do percurso oficial. Apesar da volta forçada, terminou em nono.
William Garcia, americano, foi encontrado desacordado no asfalto. A quantidade de poeira que havia inalado durante a corrida havia destruído parcialmente o revestimento de seu estômago.
O campeão que precisou de médico para sair do estádio
Quando a desclassificação de Lorz chegou aos ouvidos de Hicks, ele estava em segundo lugar e mal conseguia mover as pernas sozinho. Os dois assistentes que carregavam o conhaque e a estricnina o seguraram pelos braços e o empurraram em direção à linha de chegada. Hicks alucinava, pedia comida, pedia para deitar. A equipe continuou empurrando.
Os três — Hicks e seus dois carregadores — cruzaram a linha juntos. Hicks foi declarado campeão olímpico dos 40 quilômetros com o tempo de 3 horas, 28 minutos e 53 segundos — o mais lento de toda a história olímpica da maratona, por meia hora.
Médicos o trataram no local por envenenamento. Ele não conseguiu caminhar para fora do estádio por mais de uma hora. Nunca mais disputou uma prova de maratona.
O escândalo levou à criação da primeira regra antidoping da história olímpica. A Regra 4 das olimpíadas de Londres de 1908 declarava: "Nenhum competidor pode tomar ou receber qualquer droga durante a prova." A norma que proibiu substâncias nos Jogos Olímpicos nasceu de uma corrida em que o campeão havia tomado veneno de rato.
A 1904 foi, nos 40 quilômetros, uma série de desastres que aconteceram ao mesmo tempo. O organizador queria ciência. Os atletas queriam vencer. Um deles andou de carro. Um dormiu na beira da estrada. Um foi perseguido por cães. Um quase morreu envenenado. E todos eles foram ao estádio imaginar que aquilo era uma olimpíada.
Em certo sentido, era.
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