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O Homem por Trás do Guga

Em 8 de junho de 1997, um jovem brasileiro de 20 anos, 66º do ranking mundial e sem nunca ter chegado a uma final profissional na vida, entrou na quadra central de Roland Garros e destruiu o bicampeão do torneio em uma hora e cinquenta minutos. Placar: 6–3, 6–4, 6–2.

Depois, subiu as arquibancadas lotadas com 16 mil pessoas e abraçou o treinador, a mãe e o irmão.

Não procurou a imprensa. Não posou para câmeras. Subiu as escadas.

Esse gesto diz muito sobre quem é Gustavo Kuerten — e sobre o que o trouxe até ali.

O lugar errado para nascer um campeão

Florianópolis não estava no mapa do tênis mundial em 1976. O Brasil nunca havia produzido um campeão masculino de Grand Slam. O tênis profissional de alto nível era um universo de europeus e sul-americanos com décadas de infraestrutura, academias e tradição — Espanha, Argentina, Suécia. Uma criança de Santa Catarina que sonhasse com Roland Garros estaria, objetivamente, sonhando errado.

O próprio Guga admitiu anos depois que, aos 15, 16 anos, não conseguia imaginar se sustentar como tenista profissional. Não porque faltasse talento — faltava precedente. Não existia um modelo brasileiro para seguir.

Quando venceu Roland Garros em 1997, Kuerten foi o primeiro jogador sem cabeça de chave a conquistar o título desde Mats Wilander em 1982, e o segundo tenista com ranking mais baixo a vencer um Grand Slam na era moderna. Era o primeiro brasileiro a conquistar um título de Grand Slam masculino.

O prêmio que recebeu — cerca de 695 mil dólares — era mais do que o dobro de tudo que havia ganhado em toda a carreira até aquele ponto. No caminho até o título, Kuerten derrotou os três últimos campeões de Roland Garros: Thomas Muster (1995), Yevgeny Kafelnikov (1996) e Sergi Bruguera (1993 e 1994), o adversário na final.

Não foi sorte. Mas para entender o que foi, é preciso voltar antes de 1997.

24 de maio de 1985

Naquele dia, Aldo Kuerten, 41 anos, sofreu um ataque cardíaco enquanto arbitrava uma partida de tênis infantil em Curitiba. Guga estava com apenas 8 anos.

Aldo era jogador amador e árbitro de tênis nos fins de semana. Tinha introduzido os três filhos ao esporte desde cedo. Guga começou a segurar uma raquete aos seis anos.

O que poucos sabem é o que aconteceu antes. Em depoimento que Guga deu ao Museu da Pessoa anos depois da aposentadoria, ele revelou um detalhe que parece inventado: o pai levou Larri Passos à casa da família quando Guga tinha sete anos, fez um churrasco e insistiu para que Larri fosse morar em Florianópolis para treinar o filho. Larri respondeu que ele estava maluco, que o menino tinha sete anos e não havia nada que justificasse aquilo. Um dia antes de morrer, Aldo disse ao filho mais velho, Rafael: "Cuida bem do Guga, ele vai precisar de ti."

Aldo morreu sem ver nada. Morreu certo.

O segundo pai

Aos 14 anos, Guga conheceu Larri Passos, que se tornaria seu treinador por quase toda a carreira, assumindo o papel de mentor e figura paterna para o jovem tenista. A parceria duraria 15 anos.

Foi Passos quem convenceu Kuerten e sua família de que o jovem tinha talento suficiente para viver de tênis. Os dois passaram a viajar pelo mundo para participar de torneios juvenis.

Guga descreveu a relação com uma frase que resume tudo: "Todo mundo pensa que eu perdi um pai quando o meu pai morreu, mas na verdade eu ganhei mais três — porque sei que ele está olhando lá de cima. O Larri, meu irmão Rafael e a minha mãe são os meus outros três pais."

Guilherme

O irmão mais novo de Guga, Guilherme, nasceu com paralisia cerebral após sofrer privação de oxigênio durante o parto. Viveu com a condição por toda a vida.

Quando não podia assistir às partidas do irmão, Guilherme ia sempre recebê-lo no aeroporto — como em 2000, quando Guga desembarcou de Paris após conquistar seu segundo título em Roland Garros. Ao longo de sua carreira, Gustavo Kuerten nunca escondeu sua admiração pelo irmão. Prova disso é que ele sempre recebia todos os troféus conquistados pelo tenista.

Guilherme morreu em novembro de 2007, por insuficiência respiratória, ao lado da mãe Alice e dos irmãos Guga e Rafael.

Em 2000, ainda antes da morte do irmão, Guga fundou o Instituto Gustavo Kuerten — uma organização sem fins lucrativos voltada ao atendimento de pessoas com deficiência e ao desenvolvimento do esporte entre crianças em situação de vulnerabilidade em Santa Catarina. Não foi um gesto de marketing. Foi uma resposta a uma vida inteira olhando para o Guilherme.

O coração no saibro

Em 2001, após vencer Roland Garros pela terceira vez, Guga pegou a raquete e desenhou um coração na argila da quadra Philippe Chatrier. Deitou no centro. Ficou olhando para o céu.

É a imagem mais conhecida de sua carreira. O que nem todo mundo sabe é o que estava dentro daquele coração — o pai que morreu numa quadra de tênis quando Guga tinha oito anos, o irmão que recebia os troféus no aeroporto, o treinador que virou família, a mãe que sostenhou tudo.

Kuerten foi introduzido no Hall da Fama do Tênis Internacional em 2012. Em 2016, foi portador da tocha olímpica na cerimônia de abertura dos Jogos do Rio de Janeiro.

Três Roland Garros. Número 1 do mundo. O maior tenista que o Brasil já produziu.

E alguém que, quando ganhou o título mais importante da carreira, subiu as arquibancadas para abraçar as pessoas certas.


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