O Time que Chegou à Final da Libertadores e Hoje Joga na Quarta Divisão Estadual
O Azulão havia vencido a ida por 1 a 0 em Assunção. Precisava apenas de um empate para ser campeão continental.
Perdeu de virada por 2 a 1 no tempo normal. Nos pênaltis, dois cobranças desperdiçadas. Final: eliminado.
Era o terceiro vice-campeonato consecutivo do clube em competições importantes. Dois anos de quase-glória acumulados. E ainda havia mais por vir.
Como um clube de 10 anos chegou à final da Libertadores
O São Caetano foi fundado em 4 de dezembro de 1989. Em 1998, ainda disputava a Série C do Campeonato Brasileiro. Em 2000, estreou no cenário nacional com uma campanha que ninguém esperava.
Na Copa João Havelange — o Brasileirão daquele ano, disputado em formato especial com 116 clubes — o Azulão vinha do Módulo Amarelo, a divisão inferior da competição. No mata-mata, eliminou Fluminense, Palmeiras e Grêmio, um atrás do outro, para chegar à final. Seu artilheiro, Adhemar, marcou 22 gols no torneio inteiro.
A final foi contra o Vasco da Gama de Romário e Juninho Pernambucano. O primeiro jogo, em São Paulo, terminou 1 a 1. O segundo, no São Januário, foi suspenso por um colapso do alambrado com 150 feridos nas arquibancadas — e o São Caetano estava dominando a partida quando isso aconteceu. O terceiro jogo, realizado meses depois no Maracanã, terminou 3 a 1 para o Vasco. Vice-campeão.
Em 2001, o Azulão voltou à final do Brasileiro. Perdeu para o Athletico-PR. Segundo vice consecutivo.
Em 2002, Libertadores. Terceiro vice.
Para contextualizar o absurdo desse ciclo: entre 2000 e 2002, o São Caetano disputou três finais de competições nacionais e continentais em três anos. Corinthians, Fluminense e Botafogo não chegaram perto de uma final da Libertadores nesse período. O clube de São Caetano do Sul, com uma década de existência, chegou à três.
O confronto com o Boca Juniors
Em 2004, o São Caetano voltou à Libertadores pela terceira vez em quatro anos. Nessa edição, o adversário nas quartas de final foi o Boca Juniors — campeão do torneio em 2003 e um dos maiores clubes da América do Sul.
O jogo de ida, no Anacleto Campanella, terminou 0 a 0 diante de 12 mil torcedores. Na Argentina, 1 a 1 — com o time brasileiro jogando melhor. A classificação foi para os pênaltis, e lá o Boca avançou.
O São Caetano não eliminou o Boca Juniors. Mas chegou ao empate na Bombonera, no jogo de volta, contra o campeão continental vigente. Para um clube de 14 anos nascido no ABC Paulista, isso tinha peso.
Naquele mesmo ano de 2004, o Azulão conquistou o único título de sua história: o Campeonato Paulista, sob o comando de Muricy Ramalho.
O que veio depois — e o que ninguém contou
A queda do São Caetano não foi um colapso repentino. Foi uma desintegração lenta, alimentada por dívidas, trocas de gestão e a saída da família Klein, principal investidora do clube durante o período de glórias.
Segundo relatos publicados na imprensa, a família Klein teria injetado mais de R$ 80 milhões no clube ao longo dos anos. Quando o relacionamento com a diretoria se deteriorou, o dinheiro parou. O que sobrou foi uma dívida que, anos depois, ultrapassaria os R$ 70 milhões — trabalhista, fiscal e judicial.
O ponto mais baixo veio em 2020. Sem receber salários por mais de seis meses, os jogadores do São Caetano se recusaram a entrar em campo para um jogo da Série D do Campeonato Brasileiro contra o Marcílio Dias. O clube perdeu por W.O. Dias antes desse episódio, havia levado 9 a 0 do Esporte Clube Pelotas. A combinação encerrou a participação do Azulão na última vez que disputou uma divisão do Campeonato Brasileiro.
Em março de 2024, o São Caetano foi rebaixado para a quarta divisão do Campeonato Paulista ao encerrar a Série A3 na vice-lanterna, com apenas 22% de aproveitamento. Nas arquibancadas do Estádio Anacleto Campanella — o mesmo que havia recebido 12 mil pessoas para o jogo contra o Boca Juniors — havia 145 pessoas.
Agostinho Folco, fundador da torcida organizada Bengala Azul e há quase três décadas presente em todos os jogos do clube, estava entre elas. Tinha quase 90 anos. Nunca imaginou ver aquilo.
Em outubro de 2024, a Justiça aprovou a recuperação judicial do São Caetano. Em 2025 e 2026, o clube disputa a Série A4 — a quarta e penúltima divisão do futebol profissional paulista — sem calendário nacional e sem data para voltar.
O que restou
O Estádio Anacleto Campanella existe desde 1955, mas os bares ao redor, que ficavam cheios horas antes de cada partida nos anos 2000, hoje operam quase vazios nos dias de jogo.
O São Caetano tinha 12 anos quando chegou à final da Libertadores. Tinha 34 quando foi rebaixado para a quarta divisão.
Entre esses dois momentos, aconteceu um dos ciclos mais improváveis do futebol brasileiro — e uma das quedas mais silenciosas.
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