Links Curiosidades Histórias Bastidores Cultura e Torcida Personagens Outras Modalidades
Imagem

A Aposta Improvável que Fundou o Futebol de um País

Em 1991, um dos maiores jogadores da história do futebol tomou uma decisão que ninguém entendeu. Já aposentado, com 38 anos e uma carreira lendária encerrada, ele aceitou uma proposta vinda do outro lado do mundo: jogar por um clube de fábrica, da segunda divisão, num país que não tinha futebol profissional.

O jogador era Zico. O país era o Japão.

E aquela aposta improvável ajudaria a fundar o futebol de uma nação inteira.

Um craque numa fábrica de aço

Para entender o tamanho da decisão, é preciso entender o que o Japão era no futebol naquela época: praticamente nada.

O esporte era marginal no país. Não existia liga profissional. Os times eram, na prática, clubes de empresa — os jogadores trabalhavam nas fábricas e jogavam pela equipe da companhia nas horas vagas. O clube que chamou Zico era exatamente isso: o Sumitomo Metal, ligado a uma siderúrgica, perdido na segunda divisão de um campeonato amador. A cidade, Kashima, era pequena e desconhecida.

Zico tinha acabado de pendurar as chuteiras. Mais do que isso: ocupava um cargo público no Brasil, ligado ao esporte. Era um homem em transição para a vida fora dos gramados. Largar tudo aquilo para ir morar numa cidadezinha industrial japonesa e jogar por um time de fábrica não fazia o menor sentido na lógica de uma carreira comum.

Mas o projeto que lhe apresentaram não era comum. O Japão estava prestes a tentar algo ambicioso: criar, do zero, uma liga de futebol profissional — a J-League, marcada para nascer em 1993. E o clube não queria Zico apenas como jogador. Queria-o como um embaixador, alguém capaz de transformar a própria forma como o país enxergava o futebol.

Ele aceitou.

Ensinar um país a querer vencer

O que Zico fez no Japão foi muito além de jogar bola. Ele chegou para mudar uma mentalidade.

Vindo do mais alto nível do esporte, ele sabia que um time amador não vira profissional apenas trocando de nome. Era preciso ensinar algo mais difícil: a mentalidade vencedora. Zico passou a orientar os companheiros dentro e fora de campo — da forma de treinar à forma de pensar a carreira. Cobrava profissionalismo, disciplina, seriedade. Coisas que pareciam óbvias para um craque brasileiro, mas que eram novidade naquele ambiente.

Uma frase dele resume a filosofia que tentava implantar. "Um clube de segundo ou terceiro lugar pode se contentar com uma boa temporada", disse Zico. "Mas a história lembra do time que levantou a taça." A mensagem era clara: não bastava participar. Era preciso querer ganhar — e construir tudo o que fosse necessário para isso.

Na primeira temporada dele, ainda na velha liga amadora, o time foi vice-campeão da segunda divisão, e Zico terminou como artilheiro, com 21 gols. A base do que viria estava sendo lançada. Quando a liga amadora foi dissolvida para dar lugar à nova era profissional, o Sumitomo Metal foi rebatizado. Nascia o Kashima Antlers — um dos clubes fundadores da J-League.

O hat-trick que correu o mundo

A J-League foi lançada oficialmente em 1993, e Zico, já com 40 anos, fez questão de marcar aquele momento.

Em 16 de maio de 1993, o Kashima entrou em campo na rodada inaugural contra o Nagoya Grampus Eight — um time que tinha em suas fileiras Gary Lineker, o artilheiro da Copa do Mundo de 1986. O clubinho de Kashima, recém-promovido e sem tradição, não era páreo para os grandes da nova liga, ao menos no papel. Ninguém esperava muito dele.

O Kashima goleou por 5 a 0. E Zico, o veterano de 40 anos, marcou três vezes — o primeiro hat-trick da história da J-League. A imprensa estrangeira presente no Japão espalhou a notícia pelo mundo: o velho craque brasileiro tinha inaugurado o futebol profissional japonês com um show.

Naquela temporada de estreia, contra todas as expectativas, o Kashima venceu a primeira fase do campeonato, batendo potências da liga. Terminou como vice-campeão na decisão. Um time que fora apontado como um dos mais fracos havia se tornado protagonista — e a cidade pequena, antes desconhecida, estava no mapa do futebol.

O preço do corpo

A glória, no entanto, dividia espaço com um limite físico que nem Zico conseguia vencer: a idade.

Aos 40 anos, o corpo já não acompanhava a vontade. As lesões se acumulavam, e ele não conseguia disputar todas as partidas. Ainda assim, quando entrava, fazia diferença — marcou nove gols em dezesseis jogos naquela primeira temporada profissional. No ano seguinte, somou mais cinco em sete partidas antes de anunciar, enfim, a aposentadoria definitiva, em 1994, aos 41 anos.

Ele se despediu dos gramados sem ter conquistado o título nacional que tanto perseguia. Mas deixou algo mais valioso que um troféu: uma estrutura, uma mentalidade e um caminho. O trabalho não terminaria com a aposentadoria do jogador. Terminaria — ou melhor, continuaria — com o início do trabalho do dirigente.

O que ele deixou plantado

Zico não foi embora. Em 1995, voltou ao Kashima como conselheiro técnico, ajudando a consolidar tudo o que havia começado. E o que ele plantou germinou de uma forma que superou qualquer expectativa.

O Kashima Antlers, o clubinho de fábrica de uma cidade de 60 mil habitantes, se tornou o maior clube do futebol japonês. Conquistou o campeonato nacional um número recorde de vezes, acumulou dezenas de títulos e chegou a ser campeão asiático. Virou sinônimo de excelência num país que, poucas décadas antes, mal tinha futebol.

E o impacto de Zico transbordou os limites do clube. Anos depois, ele assumiu a seleção japonesa, venceu a Copa da Ásia de 2004 e levou o Japão à Copa do Mundo de 2006. O país que era um deserto futebolístico virou uma potência asiática, presença constante em Copas do Mundo, exportador de jogadores para a Europa.

Hoje, na cidade de Kashima, há estátuas de bronze em homenagem a ele. Uma fica numa praça que leva seu nome. Os japoneses lhe deram um título que diz tudo sobre o tamanho do que ele representou: para eles, Zico não é apenas um jogador estrangeiro que passou por lá. É o "Pai do Futebol Japonês".

A aposta que valeu um país

É fácil, hoje, olhar para o Japão — com sua liga forte, suas seleções competitivas, seus jogadores espalhados pelos grandes clubes da Europa — e achar que sempre foi assim. Não foi. Houve um tempo em que o futebol japonês era um esporte de fábrica, amador, à margem.

A virada começou com uma decisão que ninguém entendeu: um craque aposentado, no fim da carreira, aceitando trocar tudo por um projeto incerto do outro lado do mundo. Zico não foi ao Japão buscar dinheiro fácil nem uma despedida tranquila. Foi construir algo que não existia.

A aposta era improvável. O resultado mudou um país.


Siga o @alemdabolaoficial no Instagram para mais histórias que vão além do placar. Se você ainda não leu, veja também Kazu Miura: 59 Anos, 41ª Temporada como Profissional e Alex de Souza: O Deus Brasileiro na Turquia.