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Federer, Nadal e Djokovic: A Maior Coincidência da História do Esporte Está Acabando

 Imagine que Pelé, Maradona e Messi tivessem jogado na mesma época. Que Muhammad Ali, Mike Tyson e Floyd Mayweather tivessem se enfrentado nos mesmos ringues, na mesma década. Que Ayrton Senna, Michael Schumacher e Lewis Hamilton tivessem disputado os mesmos campeonatos, ano após ano, por duas décadas.

Parece impossível. Mas no tênis, aconteceu.

Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic — nascidos em um intervalo de apenas seis anos — competiram na mesma era por mais de vinte anos. Dividiram 66 dos 82 Grand Slams disputados entre 2003 e 2023. Quebraram os recordes um do outro repetidas vezes. E criaram a maior rivalidade simultânea que qualquer esporte já viu.

Nesta semana, com Djokovic sendo eliminado de Roland Garros 2026 pelo brasileiro João Fonseca, o torneio terá um campeão inédito de Grand Slam pela primeira vez em anos. É o sinal mais claro de que a era do Big Three está chegando ao fim. E vale olhar para trás para entender o que o mundo do esporte perdeu — ou melhor, o que teve o privilégio de assistir.

O primeiro rei: Federer

Roger Federer chegou primeiro. O suíço venceu seu primeiro Grand Slam em Wimbledon, em 2003, aos 21 anos. E a partir dali, simplesmente dominou o tênis de uma forma que ninguém havia visto antes.

Entre 2004 e 2007, Federer venceu 11 Grand Slams em 16 possíveis. Ficou 237 semanas consecutivas como número 1 do mundo — recorde que durou mais de uma década. Seu jogo era descrito como uma obra de arte: saque preciso, forehand devastador, movimentação que parecia flutuar. Comentaristas não falavam apenas em vitórias — falavam em estética.

Em 2009, Federer chegou a 15 Grand Slams, ultrapassando Pete Sampras (14) e se tornando o maior vencedor da história. Parecia que seu recorde duraria gerações. Ninguém imaginava que dois jogadores — jogando ao mesmo tempo que ele — iriam ultrapassá-lo.

O rei do saibro: Nadal

Rafael Nadal venceu seu primeiro Grand Slam em 2005, em Roland Garros, com apenas 19 anos. E transformou o saibro parisiense no seu quintal particular.

Os números de Nadal em Roland Garros desafiam a lógica: 14 títulos em 18 participações. Quatorze. No mesmo torneio. Seu aproveitamento em jogos no saibro contra qualquer adversário é de 91,5% — o número mais absurdo de qualquer superfície na história do tênis.

Mas Nadal não era apenas o rei do saibro. Venceu também dois Wimbledons (incluindo a final épica de 2008 contra Federer, considerada o melhor jogo de tênis da história), um Australian Open e dois US Opens. Era o oposto estilístico de Federer: onde o suíço era elegância, Nadal era intensidade. Topspin brutal, defesas impossíveis, vontade sobre-humana.

A rivalidade Federer-Nadal dividiu o mundo do tênis em dois. Quem era melhor? O debate parecia insolúvel. Eles se enfrentaram 40 vezes, com Nadal liderando 24 a 16.

E então chegou o terceiro.

O completo: Djokovic

Novak Djokovic venceu seu primeiro Grand Slam em 2008, no Australian Open. Mas demorou para ser levado a sério na conversa dos maiores. Em 2010, tinha "apenas" um Grand Slam. Federer tinha 16. Nadal tinha 9.

Aí veio 2011. Djokovic venceu três dos quatro Grand Slams, perdendo apenas em Roland Garros para Nadal. Terminou o ano com um recorde de 70 vitórias e 6 derrotas. Foi o momento em que o mundo percebeu: não era mais uma rivalidade de dois. Era de três.

A partir dali, Djokovic começou uma escalada metódica e implacável. Ultrapassou Federer em semanas como número 1 (mais de 420 semanas no total). Ultrapassou Nadal em Grand Slams. E se tornou o único jogador da história a vencer todos os nove Masters 1000 pelo menos uma vez.

Djokovic terminou a carreira de Grand Slams com 24 títulos — dois a mais que Nadal (22) e quatro a mais que Federer (20). No confronto direto, lidera contra os dois: 30 a 29 contra Nadal, 27 a 23 contra Federer.

Os números que ninguém vai repetir

Entre 2003 (primeiro Slam de Federer) e 2023 (último Slam de Djokovic no US Open), foram disputados 82 Grand Slams. Federer, Nadal e Djokovic venceram 66 deles. Oitenta por cento. Sobraram apenas 16 para o resto do mundo dividir em duas décadas.

Os três se enfrentaram 149 vezes no total: Djokovic x Nadal (59 jogos), Djokovic x Federer (50 jogos), Nadal x Federer (40 jogos). São quase 150 partidas entre três jogadores que, em qualquer outra era, seriam unanimemente o melhor de todos os tempos.

Para colocar em perspectiva: entre 1968 (início da Era Aberta) e 2002, o recorde de Grand Slams pertencia a Pete Sampras com 14. Federer chegou a 20. Nadal foi a 22. Djokovic alcançou 24. Em vinte anos, o recorde foi quebrado três vezes — pelos mesmos três jogadores.

Cada um era o melhor em algo

O que tornou o Big Three especial não foi apenas a quantidade de títulos, mas o fato de que cada um dominava uma dimensão diferente do jogo.

Federer era o mestre da grama. Oito títulos de Wimbledon. Jogo ofensivo, saque perfeito, toques de genialidade que faziam a plateia aplaudir de pé. Era o jogador que fez as pessoas se apaixonarem por tênis.

Nadal era o dono do saibro. Quatorze Roland Garros. Físico incansável, topspin que quicava na altura do ombro, espírito competitivo que transformava cada ponto em uma batalha. Era o jogador que nunca desistia.

Djokovic era o mais completo. Dez Australian Opens (recorde absoluto), flexibilidade sobre-humana, retorno de saque que anulava o jogo dos adversários, capacidade de se adaptar a qualquer superfície. Era o jogador que sempre encontrava um jeito de vencer.

Juntos, eles se empurraram para cima. Cada recorde quebrado por um forçava os outros dois a evoluírem. Federer reinventou seu jogo aos 35 anos para ganhar mais dois Slams. Nadal desenvolveu um saque poderoso para competir fora do saibro. Djokovic ajustou sua dieta, sua mentalidade e seu físico para suportar a pressão dos outros dois.

O fim da era

Federer se aposentou em setembro de 2022, aos 41 anos, em um evento de despedida na Laver Cup ao lado de Nadal. A imagem dos dois chorando juntos, de mãos dadas, é uma das mais icônicas do esporte. O maior rival de Federer era quem mais chorava na sua despedida.

Nadal se aposentou em novembro de 2024, aos 38 anos, após a fase final da Copa Davis em Málaga. A última partida foi uma derrota para o holandês Botic van de Zandschulp — um final discreto para um dos maiores competidores que qualquer esporte já produziu.

Djokovic, aos 38 anos, segue jogando. Mas o tempo cobra de todos. Nesta quinta-feira, foi eliminado de Roland Garros pelo brasileiro João Fonseca, de 19 anos, em uma virada épica de 3 sets a 2 após estar perdendo por 2 a 0. Fonseca se tornou o primeiro adolescente a derrotar Djokovic em um Grand Slam e o primeiro brasileiro a vencê-lo em chave principal.

Com a eliminação de Djokovic — um dia após a de Jannik Sinner — Roland Garros 2026 terá um campeão de Grand Slam inédito. É a confirmação de que a página virou. A era do Big Three, que durou mais de duas décadas, está se encerrando.

O que nunca mais vamos ver

É possível que o tênis produza outro jogador com 24 Grand Slams. Talvez alguém vença 14 vezes o mesmo torneio, como Nadal fez em Paris. Talvez alguém fique 237 semanas seguidas no topo, como Federer.

Mas ter três jogadores desse calibre competindo ao mesmo tempo, se enfrentando 149 vezes, dividindo 66 Grand Slams em 20 anos? Isso não vai acontecer de novo. Não neste esporte. Provavelmente não em nenhum esporte.

O Big Three não foi apenas uma era do tênis. Foi uma anomalia estatística, um acidente cósmico, um presente que o esporte deu ao mundo. Três gênios nascidos com seis anos de diferença, que se forçaram mutuamente à grandeza por mais de duas décadas.

Federer trouxe a beleza. Nadal trouxe a garra. Djokovic trouxe a perfeição.

E agora, com João Fonseca avançando às oitavas de Roland Garros aos 19 anos — a mesma idade que Nadal tinha quando venceu seu primeiro Grand Slam — o futuro do tênis já está batendo na porta. Resta saber se alguém, algum dia, será capaz de fazer o que aqueles três fizeram juntos.


Quem é o maior dos três para você? Federer, Nadal ou Djokovic? Conta nos comentários! E para mais histórias de superação no esporte, leia o conto de fadas do Ártico: como o Bodø/Glimt humilhou gigantes na Champions League.