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A Equipe Comprada por uma Libra e que Ganhou Tudo

No fim de 2008, uma equipe inteira de Fórmula 1 estava prestes a deixar de existir. A Honda, dona da equipe sediada em Brackley, na Inglaterra, anunciou que abandonaria o esporte. O mundo vivia uma crise financeira global, e manter um time de F1 — um dos empreendimentos mais caros do planeta — deixou de fazer sentido para a montadora japonesa.

Centenas de funcionários voltaram para casa no Natal sem saber se teriam emprego em janeiro. Pilotos, engenheiros, mecânicos. Tudo parecia acabado.

Um ano depois, aquela mesma equipe seria campeã mundial. Dos dois títulos. Na sua única temporada de existência.

Uma libra

A história de como isso aconteceu é tão improvável que o próprio homem no centro dela tem dificuldade de explicá-la. "É uma história que, se fosse ficção, as pessoas não acreditariam", disse Ross Brawn, o chefe da equipe. "É só por ser não-ficção que você precisa acreditar."

Brawn era o diretor técnico do time. Diante do anúncio da Honda, ele e o executivo Nick Fry passaram meses tentando encontrar um comprador. Não apareceu nenhum. Então fizeram a única coisa que restava: convenceram a própria Honda a vender a equipe para eles mesmos. O preço simbólico daquela transação entrou para a história do esporte. A equipe foi comprada por uma libra esterlina.

A Honda, como parte do acordo, deixou um orçamento para a temporada — equivalente ao que economizaria com as demissões — e entregou o carro que vinha desenvolvendo havia quase um ano. Mas nada disso garantia nada. Ainda foi preciso demitir cerca de 350 pessoas. E o carro, sem o motor Honda, estava órfão de propulsor a poucos meses do início da temporada.

A equipe acertou às pressas o fornecimento de motores Mercedes e, em uma corrida contra o tempo, adaptou o carro para recebê-los. Funcionários se dividiam em três turnos para trabalhar 24 horas por dia. Houve quem dormisse no chão da garagem às três da manhã. Avisos de demissão chegavam junto com casas pela metade e esposas grávidas. Ninguém sabia se aquilo ia dar certo.

A surpresa de Barcelona

A primeira pista de que algo extraordinário estava acontecendo veio nos testes de pré-temporada, em Barcelona.

A equipe, agora rebatizada de Brawn GP, chegou com expectativas baixíssimas e um carro de pintura branca com detalhes em amarelo-fluorescente, sem quase nenhum patrocinador. E então o carro foi para a pista. Barrichello foi o mais rápido — por um segundo inteiro, uma eternidade em tempos de volta de F1.

Nos bastidores, ninguém da própria equipe acreditava nos números. Os engenheiros do time achavam que havia erro nos cálculos. "A gente, claro, sendo muito cético sobre os números, dizia: 'Vocês claramente erraram as contas'", lembrou um dos engenheiros. "Eles respondiam: 'Ok, conferimos os números, ainda estamos dois segundos mais rápidos que todo mundo'."

O segredo estava numa peça. Enquanto ainda era Honda, a equipe havia praticamente abandonado o carro de 2008 para focar todo o desenvolvimento em 2009 — o que lhe deu uma vantagem enorme sobre os rivais. E o time explorou uma brecha no novo regulamento com uma inovação aerodinâmica chamada difusor duplo, que dava ao carro uma aderência muito superior à dos concorrentes. A legalidade da peça foi contestada por Ferrari, Red Bull e Renault. A FIA, no fim, declarou o difusor legal.

A largada perfeita

A temporada começou na Austrália, e a Brawn GP fez o que nenhuma equipe estreante deveria ser capaz de fazer. Button e Barrichello largaram em primeiro e segundo. E terminaram a corrida em primeiro e segundo. Uma dobradinha na estreia — algo que não acontecia desde 1954.

O que veio depois foi um domínio que ninguém esperava de um time que quase fechou as portas. Button venceu seis das sete primeiras corridas da temporada. A equipe falida, comprada por uma libra, liderava os dois campeonatos do esporte mais caro e tecnológico do mundo, batendo de frente com gigantes como Ferrari e McLaren, que gastavam centenas de milhões.

Como resumiu o chefe da Red Bull na época, Christian Horner: "a melhor forma de ficar impopular rapidamente é começar a vencer". E era exatamente isso que a Brawn estava fazendo.

O preço de um milagre apertado

O conto de fadas, no entanto, tinha um limite físico — e ele apareceu na segunda metade da temporada.

Com orçamento e tempo curtos, a Brawn fabricou apenas três chassis para o ano inteiro. Equipes grandes, como a McLaren, chegavam a construir oito. A consequência foi cruel: usados e reusados, os carros foram se desgastando, e o desempenho caiu conforme a temporada avançava. A Red Bull, em especial, encurtou a distância e passou a pressionar.

Foi nesse momento que a disputa interna esquentou. Barrichello, ganhando confiança, venceu duas corridas importantes no meio do ano — em Valência e em Monza. A vitória em Monza foi especial: até hoje, é a mais recente vitória de um piloto brasileiro na história da Fórmula 1. O veterano não era um coadjuvante; ele incomodava o companheiro de verdade, ao ponto de criar tensão dentro da equipe na reta final.

Mas a vantagem que Button construíra na primeira metade da temporada foi grande demais para ser revertida. No Brasil, em Interlagos, ele garantiu o título de piloto. A Brawn GP, com os dois carros, levou o título de construtores.

A história de Barrichello

Aqui mora a única tristeza desta história — e ela tem nome brasileiro.

Rubens Barrichello terminou aquela temporada em terceiro no campeonato de pilotos. Foi mais um capítulo de uma carreira marcada pelo papel de quase-campeão. Anos antes, na Ferrari, vivera à sombra de Michael Schumacher. Em 2009, quando finalmente teve em mãos o melhor carro do grid — numa equipe que ajudara a salvar e a construir desde os dias mais sombrios —, viu o título escapar mais uma vez, agora para o companheiro de garagem.

Seria fácil contar isso como a história de um azarado. Mas seria injusto. Barrichello venceu corridas, brigou pelo campeonato, deu à Brawn quatro pódios na largada da temporada e a manteve viva na luta quando o carro já não era o mais rápido. Ele foi protagonista de um dos maiores feitos da F1 — só não foi o nome no topo. E há uma diferença enorme entre perder um título e ser coadjuvante. Barrichello perdeu o título. Coadjuvante ele não foi.

O fim de um conto de fadas

A Brawn GP nunca mais correu. Ao fim daquela temporada de 2009, a Mercedes comprou a equipe e a transformou no time que dominaria a F1 na década seguinte. Ou seja: a estrutura existiu sob o nome "Brawn GP" por uma única temporada — e, nessa única temporada, venceu absolutamente tudo o que havia para vencer.

É um recorde que provavelmente nunca será quebrado: a única equipe da história a ter 100% de aproveitamento em títulos mundiais. Uma temporada, dois campeonatos.

Pensando de onde vieram — uma equipe à beira do fim, comprada por uma libra, com gente dormindo no chão da fábrica e trabalhando em três turnos para chegar a tempo —, o feito beira o impossível. Foi, como disse Ross Brawn, uma história boa demais para ser ficção.

E aconteceu de verdade.


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