O Once Caldas Derrubou os Gigantes da América. Por Trás, uma História Maior
No meio de todos eles, um clube que quase ninguém fora da Colômbia sabia localizar no mapa. Um time de Manizales, cidade nas montanhas cafeeiras, em apenas sua terceira participação na competição. O objetivo declarado era modesto: passar da primeira fase pela primeira vez.
O Once Caldas não passou da primeira fase. Ele ganhou tudo.
Um muro chamado Once Caldas
A receita do feito não era o talento individual — era a organização. O técnico Luis Fernando Montoya montou um sistema defensivo tão sólido que viraria a marca registrada da campanha. Um ferrolho à prova de gigantes, comparado na época ao "park the bus" que o português José Mourinho consagraria mundo afora.
A ideia era simples e cruel: fechar todos os espaços, sufocar o adversário, e aproveitar as poucas chances ou levar a decisão para os pênaltis. Funcionou contra todos.
Nas oitavas de final, o Once Caldas eliminou o Barcelona de Guayaquil nos pênaltis. Foi ali que o mundo começou a reparar no goleiro Juan Carlos Henao, peça-chave daquela muralha. Mas era nas fases seguintes que a história ganharia ares de lenda.
A queda dos brasileiros
Nas quartas de final, veio o primeiro gigante: o Santos de Robinho e Diego, um dos times mais badalados do continente. O Once Caldas aplicou seu ferrolho e passou.
Na semifinal, o desafio era ainda maior: o São Paulo, no Morumbi. O time de Montoya fez uma retranca poderosa e segurou um 0 a 0 na ida, levando a decisão para Manizales com a vantagem de jogar por uma vitória simples. No jogo de volta, o São Paulo empatou em 1 a 1 e já se preparava para os pênaltis — o técnico Cuca chegou a organizar os batedores. Mas, aos 45 minutos do segundo tempo, Jorge Agudelo apareceu nas costas da defesa e marcou o gol que levou o Once Caldas à final. "Aos 45 min do 2º tempo, gol condena São Paulo ao passado", estampou a manchete da Folha de S.Paulo no dia seguinte.
Dois gigantes brasileiros eliminados. Faltava o maior de todos.
O impossível contra o Boca
A final era contra o Boca Juniors. O atual campeão. O time que havia vencido três das últimas quatro Libertadores. A decisão começaria em La Bombonera, um dos estádios mais intimidadores do mundo, onde os argentinos quase nunca perdiam.
O Once Caldas segurou um 0 a 0 em Buenos Aires. Levou a decisão para casa, para o estádio Palogrande, empurrado pela sua torcida. No jogo de volta, Viáfara abriu o placar com um petardo de longa distância que morreu no ângulo. O Boca empatou com Burdisso. 1 a 1. E, mais uma vez, a história do Once Caldas terminaria onde ele era imbatível: nos pênaltis.
O que se viu na disputa foi quase inacreditável. O Boca Juniors, historicamente um dos times mais frios e eficientes do mundo em cobranças de pênalti, desmoronou. Errou todas as suas quatro cobranças. O goleiro Henao, o "espalhafatoso" arqueiro daquela campanha, fechou o gol. E o Once Caldas venceu por 2 a 0 nas penalidades.
Pela segunda vez na história, a Libertadores ficava na Colômbia. E o clube de Manizales se tornava, para muitos, a maior zebra que a competição já viu — um campeão inédito que enfileirou Santos, São Paulo e Boca e derrubou todos.
A história por trás da glória
A maior parte das histórias do esporte termina aqui, no troféu erguido. Esta não termina — e seria desonesto contá-la pela metade.
O arquiteto daquele milagre, o técnico Luis Fernando Montoya, vivia o auge de uma carreira meteórica. Sem nunca ter sido jogador profissional, havia trabalhado descarregando sacos de cimento para custear os estudos antes de se tornar treinador. Em poucos anos chegou ao topo da América do Sul. Foi eleito o melhor técnico do continente. Sonhava em dirigir a seleção colombiana algum dia.
Em 22 de dezembro de 2004, poucos dias depois de disputar o Mundial Interclubes com o Once Caldas, Montoya foi vítima de um assalto na porta de sua casa, em Caldas. Ao tentar proteger a esposa, foi baleado. Os tiros atingiram sua coluna. O diagnóstico foi tetraplegia, e os médicos, a princípio, não acreditavam que ele sobreviveria.
Ele sobreviveu. E, com o tempo, o homem que era chamado de "Profe" — abreviação de "professor", pelo conhecimento e pela paixão pelo futebol — passou a ser conhecido por outro apelido na Colômbia: "El Campeón de la Vida", o Campeão da Vida. Em 2017, a Conmebol o homenageou com uma réplica da taça da Libertadores. Mais de uma década depois da tragédia, seguia sendo uma das figuras mais respeitadas do futebol colombiano.
Montoya não voltou a treinar. Sua última partida no banco foi a derrota nos pênaltis para o Porto, na final do Mundial. Mas, em entrevistas nos anos seguintes, deixava claro que suas limitações eram apenas físicas — sobre futebol, ele continuava sendo o mesmo de sempre.
O que fica
A campanha do Once Caldas em 2004 é lembrada como uma das maiores surpresas da história do futebol sul-americano. Um time sem estrelas, sem tradição internacional, que transformou disciplina e organização na arma capaz de derrubar os mais ricos e mais badalados do continente.
Mas, quando se conhece a história inteira, o título ganha outra dimensão. Ele deixa de ser apenas a lembrança de uma zebra histórica e passa a carregar também o nome de um homem que arquitetou o impossível em campo — e que, fora dele, enfrentaria um desafio muito maior do que qualquer final de Libertadores.
O troféu foi do Once Caldas. A história, no fim, foi a de Montoya.
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