Stephen Curry: O Atirador que transformou a NBA
Era dezembro de 2021. O Madison Square Garden — a arena mais icônica do esporte americano, em Nova York — estava lotado para um jogo de temporada regular entre Golden State Warriors e Knicks. Temporada regular, jogo qualquer. Mas aquela noite seria diferente.
Com o mesmo movimento de sempre — o drible curto, o passo lateral para abrir espaço, o pulso que dobra no instante certo — Stephen Curry soltou mais uma bola no ar. A cesta entrou. E com ela, um recorde que havia durado quase uma década deixou de existir.
Era a cesta de número 2.974 da sua carreira. Um a mais do que Ray Allen havia acumulado ao longo de toda a vida profissional. O recorde era de Curry agora. E ele ainda estava jogando.
Um Jogador que Não Era Para Existir
Nenhuma grande universidade americana o queria.
Stephen Curry saiu do colégio com um currículo que não impressionava treinadores do primeiro escalão: 1,88m, físico magro, filho de um ex-jogador da NBA — o que poderia ser uma vantagem, mas também vinha com o peso da comparação. Foi parar na Davidson College, uma universidade pequena, da Carolina do Norte, que raramente coloca atletas na NBA.
O que aconteceu nos três anos seguintes redefiniu o que é possível fazer com uma bola de basquete.
No torneio universitário de 2008, com a Davidson alojada contra gigantes do esporte americano, Curry médio 32 pontos por jogo e levou uma universidade que ninguém esperava até o Elite Eight — as quartas de final nacionais. Fazia cestas de lugares que treinadores experientes diziam que simplesmente não deveriam ser tentados. Ele tentava. Entrava.
Em 2009, o Golden State Warriors o escolheu na 7ª posição do Draft. Nem dentro dos dez primeiros. Um atirador excelente, diziam, mas pequeno demais, com tornozelos frágeis que já haviam preocupado médicos. Uma aposta razoável, nada mais.
Dezesseis anos depois, a NBA não é mais a mesma por causa dele.
O Nascimento de uma Dinastia
Os primeiros anos foram discretos. Os tornozelos machucados de fato apareceram, a equipe era mediana e Curry era apenas um jogador talentoso num elenco sem direção clara. Mas em 2014, algo mudou.
Com a chegada do técnico Steve Kerr e a consolidação de um elenco construído em torno de movimentação de bola e arremessos inteligentes, os Warriors deixaram de ser uma promessa e viraram um problema para toda a liga. Em 2015, o título veio pela primeira vez em 40 anos para São Francisco. Em 2016, o time quebrou o recorde histórico de vitórias numa temporada — 73 em 82 jogos — e Curry se tornou o primeiro jogador da história a ser eleito MVP por votação unânime. Nenhum Jodan, nenhum LeBron, nenhum Kobe havia conseguido aquilo. Só ele.
Vieram mais títulos. 2017. 2018. E depois, quando todos disseram que a janela havia fechado, 2022 — com Curry finalmente conquistando o MVP das Finais que lhe havia escapado nas três vezes anteriores. Terminou o jogo decisivo com 34 pontos, sete rebotes e sete assistências. Com os segundos finais se esgotando, olhou para a torcida adversária em Boston e murmurou as palavras que viraram manchete: "O que vão dizer agora?"
Quatro títulos. Uma dinastia construída em torno do seu arremesso.
O Número que Virou Símbolo
Quando Ray Allen se aposentou em 2014, tinha 2.973 cestas de 3 pontos na carreira. Um número que parecia intocável — construído ao longo de dezoito temporadas, com consistência e longevidade extraordinárias. Curry quebrou esse recorde em menos de treze anos.
E não parou.
Em dezembro de 2021, oito dias depois de ultrapassar Allen, chegou à marca de 3.000 cestas de 3 pontos. Nenhum outro jogador na história havia chegado ali. Hoje, o segundo colocado all-time tem pouco mais de 3.100. Curry chegou a 4.000 em março de 2025, numa noite em casa contra o Sacramento Kings, e saiu do jogo sorrindo como quem sabe que o número vai continuar crescendo.
Vai. Porque ele ainda está jogando.
A Liga que Ele Reinventou — e o Debate que Ainda Não Tem Fim
Aqui mora o lado mais fascinante da história de Curry — e também o mais polêmico.
Quando ele chegou à liga, times tentavam em média 18 arremessos de 3 pontos por jogo. Era uma era de pivôs que dominavam a área, de jogos físicos perto da cesta, de sistemas que valorizavam o ataque ao garrafão. Hoje, esse número passou de 37 tentativas por jogo. Mais que o dobro.
Times inteiros foram remontados para se adaptar ao novo padrão. Pivôs que não consigam sair para o perímetro ficaram obsoletos. Técnicos que resistiram à mudança foram demitidos ou forçados a se adaptar. Uma geração de crianças que cresceu vendo Curry jogar não quer mais aprender a girar de costas para a cesta — quer aprender a arremessar do meio da quadra.
Isso é amor para uns. É horror para outros.
Os críticos são barulhentos e têm argumentos reais: o jogo perdeu complexidade física, as partidas às vezes parecem festivais de arremessos perdidos, e a ideia de que qualquer jogador com boa porcentagem de 3 pode ser uma estrela desvalorizou anos de trabalho de grandes pivôs que nunca tiveram a chance de se provar num jogo construído para eles. LeBron James, o maior jogador vivo, já declarou publicamente que a liga está exagerando nos 3 pontos. Não é uma opinião isolada.
Mas do outro lado estão os números incontestáveis: a NBA nunca teve tanta eficiência ofensiva, nunca moveu tanto a bola, e — detalhe que os donos de time adoram — nunca faturou tanto dinheiro. O estilo que Curry ajudou a popularizar tornou o basquete mais acessível para quem não entende de posições e mais atraente para quem assiste pela primeira vez.
Seja qual for o lado que você escolher nesse debate, o fato é que o debate existe por causa dele.
Trinta e Sete Anos e Contando
Em março de 2025, quando fez a cesta número 4.000, Curry tinha 36 anos. Um jogador nessa faixa etária normalmente está pensando em aposentadoria. Ele estava pensando em quantas mais ainda vai fazer.
A temporada 2025-26 começou. Curry está em quadra. O recorde continua crescendo. E a distância para o segundo colocado da história — já superior a 900 cestas de 3 pontos — torna cada vez mais improvável que alguém chegue perto enquanto ele ainda respirar.
É possível que a NBA um dia produza outro atirador de elite que acumule números semelhantes? É possível. Mas para chegar a 4.000 cestas de 3 pontos, esse jogador precisaria fazer o que Curry fez durante mais de quinze anos — sem lesões graves que derrubassem a produção, sem perder a consistência, sem nunca afundar por três jogos seguidos sem acertar ao menos uma cesta de 3 pontos. Esse, aliás, é um dado que diz tudo sobre o nível de exigência do feito: em mais de mil jogos na NBA, Curry ficou sem acertar ao menos um arremesso de 3 em apenas uma handful de partidas.
Não é força bruta. Não é atletismo fora do comum. É precisão construída ao longo de uma vida inteira, repetida até virar instinto.
O Que Fica
Stephen Curry não é o maior pontuador da história da NBA. Não é o melhor defensor, nem o jogador mais completo por todas as métricas. Mas é provavelmente o único jogador desde Michael Jordan que mudou, de forma permanente e irreversível, a forma como o jogo é praticado — do playground ao palco das Finais.
E ainda está na quadra.
A história de Curry não terminou. O recorde continua crescendo, o debate continua aceso e a NBA que ele ajudou a construir ainda está sendo jogada por atletas que cresceram tentando imitar o movimento dele diante de uma cesta na garagem de casa.
Que outros jogadores tentem fazer 3.000 cestas de 3 pontos antes de se aposentar. Curry vai estar olhando lá de cima, com 4.000 no currículo e sorrindo com aquela modéstia irritante de quem sabe exatamente o que fez.
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