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Muito Além da Muralha Amarela

Às 15h30 de um sábado qualquer em Dortmund, o Signal Iduna Park começa a respirar diferente.

Não é o barulho que chama atenção primeiro. É a cor. Uma massa amarela e preta que desce as ruas, ocupa os bares, transborda pelas escadarias antes mesmo do aquecimento começar. Quando as portas abrem, 81.365 pessoas tomam seus lugares — e o lugar de ninguém fica vazio.

Isso aconteceu em todos os jogos da última temporada. E na anterior. O Borussia Dortmund não tem os maiores títulos da Alemanha, nem o maior orçamento. Mas tem uma coisa que o dinheiro simplesmente não está conseguindo comprar.

A muralha que não senta

O estádio foi construído às pressas em 1974, quando Dortmund substituiu Colônia como cidade-sede da Copa do Mundo. O que era para ser uma solução temporária se tornou a casa mais barulhenta da Europa.

Só a arquibancada sul comporta 24.454 pessoas em pé. Um único setor. Vinte e quatro mil, ombro a ombro, sem sentar. É a maior arquibancada de pé de toda a Europa. A Südtribüne — a Muralha Amarela — mede cem metros de comprimento por quarenta de altura. O mosaico de preto e amarelo que explode antes do apito inicial é organizado pelos próprios torcedores, sem coordenação oficial, sem roteiro. Simplesmente acontece.

Os cânticos chegam em onda, amplificados pelo ângulo fechado da arquibancada, e atingem o campo com uma pressão que os visitantes descrevem como física — não só sonora. Roman Weidenfeller, goleiro que defendeu o Borussia por anos, descreveu a sensação dos dois lados: "Se você é o inimigo, ela te esmaga. Mas se ela está às suas costas como goleiro, é fantástico." Bastian Schweinsteiger, ídolo do Bayern Munich, foi ainda mais direto quando perguntaram o que ele mais temia num clássico: "A Muralha Amarela."

Quem visita o estádio pela primeira vez recebe um conselho unânime: sente no lado oposto, na arquibancada norte, de frente para a Sul. É de lá que se vê a coisa toda — uma parede viva de preto e amarelo, quarenta metros de altura, pulsando. É essa imagem que ninguém esquece.

Para os jogos da Champions League, que exigem todos os lugares sentados, a capacidade cai para 66.099. Só nessa diferença cabe o estádio inteiro de vários clubes da Bundesliga.

O dia em que quase acabou tudo

Dortmund fica no coração da região do Ruhr — aço, carvão, trabalhadores de chão de fábrica. O clube nasceu dali, cresceu dali e nunca se descolou dessa identidade. Quando os tempos ficam difíceis, a região sabe o que fazer: fica.

Em março de 2005, o Borussia esteve a dois dias de declarar insolvência.

A dívida chegava a 120 milhões de euros. As ações do clube na bolsa de Frankfurt haviam despencado 80%. Os credores controlavam cada decisão. Os jogadores aceitaram corte de 20% nos salários. O próprio estádio havia sido vendido para levantar caixa. Hans-Joachim Watzke assumiu a presidência naquele fevereiro e descreveu os dias seguintes como "caos puro e anarquia". "Se a crise financeira global tivesse chegado à Alemanha dois anos antes", disse ele, "não haveria futebol profissional em Dortmund."

A Muralha Amarela continuou cheia.

A torcida que ficou nos anos mais feios é a mesma que ergueu a faixa na arquibancada durante aquela época: "No fim do túnel, a Muralha Amarela brilha." Não era promessa vazia. Era a única coisa que o clube tinha de sobra quando quase não tinha mais nada. Foi essa lealdade, construída no sofrimento e não nos títulos, que forjou o vínculo que nenhum investimento consegue replicar depois.

O que nenhum título compra

A fila de espera por um ingresso de temporada no Signal Iduna Park tem mais de 20.000 nomes. Não porque o clube expandiu o acesso recentemente — porque a demanda nunca diminuiu. Nos anos de crise, nos anos sem título, nos anos em que o time terminou na quinta posição.

O clube deliberadamente mantém o ingresso da Südtribüne a 14 euros por jogo. Poderia cobrar mais. Escolhe não cobrar. É uma decisão que diz tudo sobre o que o Borussia entende ser sua obrigação com a cidade.

Ao final de cada partida — independente do resultado — os jogadores caminham até a arquibancada sul para saudar os 24 mil que ficaram de pé durante os 90 minutos. Não é protocolo de marketing. É um pacto que se renova toda semana.

Quem visita fala em peregrinação. E de fato é — porque esse tipo de relação entre clube e torcida não se cria com dinheiro. Não se copia. Não se compra.

Ela simplesmente existe, ou não existe.


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