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O Estilo que o Mundo Enterrou no Brasil — e que Voltou para Ganhar a Copa

Cinco a um para a Holanda. Dois a zero para o Chile. Em oito dias, a Espanha foi eliminada da Copa de 2014 ainda na fase de grupos — a mesma Espanha que havia vencido três torneios internacionais consecutivos jogando sempre da mesma forma.

Xavi, um dos pilares daquela geração, tinha declarado antes do torneio que a seleção "ganharia ou morreria com o tiki-taka". A segunda opção se confirmou com rapidez. A imprensa internacional não esperou muito: o veredicto saiu antes mesmo do apito final do último jogo do grupo. Um estilo inteiro de futebol havia sido enterrado no Maracanã.

O que raramente foi dito naquele momento é que esse estilo tinha nascido décadas antes — num clube catalão, pelas mãos de um holandês que nunca vestiu a camisa da Espanha.

A ideia que veio de Amsterdam

Quando Johan Cruyff assumiu o comando técnico do Barcelona em 1988, o clube atravessava um momento turbulento. Cruyff já era uma das maiores referências do futebol mundial — havia vencido três edições consecutivas da Copa dos Campeões pelo Ajax e chegado à final da Copa do Mundo de 1974 com a Holanda. O que ele trouxe para a Catalunha foi a essência do futebol total holandês: posse de bola como arma tática, pressão imediata após a perda, movimentação constante sem posição fixa e triângulos de passe distribuídos por todo o campo.

O pivô daquele time era um jovem volante chamado Pep Guardiola. Ele absorveu cada princípio daquela filosofia com a atenção de quem sabia que um dia teria que transmiti-la.

A La Masia, a academia de base do Barcelona inaugurada em 1979 a partir de uma sugestão do próprio Cruyff ainda durante sua passagem pelo clube como jogador, funcionou como o laboratório onde essas ideias foram repassadas de geração em geração. Por lá passariam Xavi Hernández, Andrés Iniesta e Lionel Messi — os três jogadores que levariam aquela filosofia ao limite do que é possível num campo de futebol.

Cruyff deixou o cargo em 1996, após quatro títulos seguidos no Campeonato Espanhol e a primeira Champions League da história do clube, conquistada em 1992. O termo "tiki-taka" nem existia ainda. Ele só seria cunhado pelo narrador espanhol Andrés Montes durante a Copa do Mundo de 2006, para nomear aquele futebol de passes rápidos e circulação constante de bola.

Quando o mundo parou para assistir

Guardiola voltou ao Barcelona como treinador em 2008. O clube passava por outro momento difícil. Ele voltou como discípulo direto de Cruyff — e foi para destilá-la em sua versão mais alta.

Na primeira temporada sob seu comando, o Barcelona conquistou seis títulos. Nenhum clube europeu havia feito isso numa única temporada. Em quatro anos de gestão, foram 14 troféus em 19 possíveis, com aproveitamento de 72% em 247 jogos competitivos. Duas Champions Leagues (2009 e 2011, ambas contra o Manchester United), três títulos espanhóis e uma goleada histórica de 5 a 0 sobre o Real Madrid no Camp Nou construíram a imagem de um time que dominava por princípio, não por acaso.

A Espanha jogava da mesma forma com os mesmos jogadores. Em quatro anos, ganhou a Eurocopa de 2008, a Copa do Mundo de 2010 e a Eurocopa de 2012 — a primeira seleção da história a conquistar três grandes torneios internacionais consecutivos.

Guardiola nunca gostou do rótulo. "Parece que estamos desacreditando os adversários", disse ele quando pressionado a falar sobre o tiki-taka. Para ele, era apenas futebol.

O estilo que sobreviveu à própria morte

Os sintomas que levaram ao colapso de 2014 tinham começado antes. Os rivais estudaram o sistema e desenvolveram respostas: pressão alta, transições em velocidade, exploração dos espaços deixados pela linha defensiva adiantada. O tiki-taka clássico virou alvo previsível para quem soubesse esperar e contra-atacar. A geração que havia construído o sistema envelhecia junto com ele.

O que veio depois foi menos ruptura e mais metamorfose. O técnico Luis de la Fuente assumiu a seleção espanhola e modernizou o DNA sem abandoná-lo: mais verticalidade, mais velocidade nas alas, mais decisividade no terço final. Rodri e Pedri controlando o ritmo; Lamine Yamal e Nico Williams abrindo o campo.

Na Copa de 2026, a Espanha encerrou o torneio invicta, com 38 jogos sem derrota na sequência e apenas um gol sofrido em todo o Mundial. A final foi disputada em 19 de julho no MetLife Stadium, em Nova Jersey: 1 a 0 sobre a Argentina na prorrogação, com gol de Ferran Torres aos 106 minutos, depois de a seleção sul-americana ter ficado com dez homens no último terço do jogo.

No discurso após a conquista, De la Fuente fez questão de rejeitar o rótulo. "Isso é futebol de posse", insistiu o treinador. "Não é tiki-taka."

A semente plantada por Cruyff em Barcelona em 1988 discorda.


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