O Endereço que o Futebol Jamais Vai Conseguir Superar
O primeiro foi com a mão. O árbitro não viu e validou. Maradona chamaria de "a mão de Deus."
O segundo foi considerado o mais bonito da história do futebol. Maradona recebeu a bola dentro do próprio campo, driblou cinco jogadores ingleses em 11 segundos e bateu no canto. A FIFA realizou votação pública em 2002 e o elegeu o Gol do Século.
O mais polêmico e o mais celebrado da história, no mesmo jogo, no mesmo estádio. Não foi uma coincidência planejada. Foi só mais uma tarde no Azteca.
O Projeto que Ninguém Acreditava
Em 1961, tratores começaram a escavar um campo de rocha vulcânica no sul da Cidade do México. O terreno era o tipo que faz engenheiros perderem o sono: a lava solidificada do Pedregal de San Ángel criava fundações imprevisíveis e caríssimas. Durante as obras, os trabalhadores encontraram restos de mamutes preservados na rocha.
O arquiteto responsável era Pedro Ramírez Vázquez — o mesmo homem que havia projetado o Museu Nacional de Antropologia do México, inaugurado em 1964 enquanto o estádio ainda era construído. Os dois projetos tinham o mesmo espírito: o México dos anos 1960 queria se apresentar ao mundo como uma potência moderna e culturalmente séria.
O estádio foi inaugurado em 29 de maio de 1966. Capacidade original: 112.000 pessoas — o maior estádio de futebol do mundo naquele momento. O custo final foi de 260 milhões de pesos mexicanos, mais que o dobro do orçamento inicial. Uma parte relevante foi financiada pela venda de camarotes com direito de uso por 99 anos — contrato que vence em 2065 e que até hoje gera disputas judiciais quando a FIFA tenta acessar os assentos.
O nome foi escolhido por concurso popular. Um cidadão chamado Antonio Vázquez Torres enviou a sugestão vencedora — "Azteca" — e recebeu como prêmio dois ingressos garantidos para todos os eventos do estádio pelos próximos 99 anos.
Na cerimônia de inauguração, o presidente do México chegou com mais de uma hora de atraso. A multidão o recebeu com vaias.
Uma Coleção de Momentos Impossíveis
Quatro anos após a inauguração, o Azteca sediou a Copa do Mundo de 1970 — e produziu dois dos jogos mais memoráveis da história do torneio numa única edição.
Na semifinal, Itália e Alemanha Ocidental jogaram o que ficou universalmente conhecido como o Jogo do Século. Empatados em 1 a 1 após 90 minutos, os dois times marcaram mais quatro gols na prorrogação. A Itália venceu por 4 a 3. Franz Beckenbauer jogou parte da partida com o braço imobilizado numa tipoia após sofrer uma lesão — e se recusou a sair de campo. Mais de 102 mil pessoas assistiram ao vivo.
Na final, o Brasil de Pelé goleou a Itália por 4 a 1. Pelé conquistava seu terceiro título mundial — o único em solo sul-americano. Carlos Alberto Torres encerrou o placar com um dos gols de contragolpe mais elegantes já vistos numa final. Aquela Copa foi também a primeira transmitida ao mundo inteiro em cores. O gramado verde do Azteca foi uma das primeiras imagens coloridas que bilhões de pessoas viram em suas telas.
Em 1986, o Azteca voltou a ser palco da Copa — e Maradona voltou a ser o protagonista improvável de dois momentos eternos no mesmo jogo.
Em 1993, o estádio abriu as portas para algo diferente. Julio César Chávez, ídolo nacional mexicano, defendia seu cinturão contra Greg Haugen, lutador americano que havia provocado o público ao chamar os torcedores do México de "motoristas de táxi". Chávez nocauteou Haugen no quinto round. As arquibancadas tinham 132.247 pessoas — a segunda maior audiência da história do boxe. O recorde de público do Azteca no futebol era de 119.853, registrado numa partida entre México e Brasil em 1968. O boxe ultrapassou.
O México, por sinal, tem no Azteca a maior fortaleza do futebol internacional. Em 89 partidas competitivas disputadas ali, a seleção mexicana venceu 70, empatou 17 e perdeu apenas duas.
60 Anos e Ainda o Maior
Em junho de 2026, o Azteca se tornou o primeiro estádio da história a sediar três edições diferentes da Copa do Mundo. O total de partidas do torneio disputadas no estádio chegou a 24 — o maior número de qualquer estádio no planeta.
Para receber a Copa, o Azteca passou por uma reforma de US$ 300 milhões: novo gramado híbrido, telões de LED em 4K, iluminação renovada, vestiários modernizados e cobertura com polímero resistente a intempéries. O estádio tem 60 anos — e competiu com arenas construídas na última década.
Ainda fica a 2.200 metros de altitude. O ar rarefeito continua sendo o mesmo adversário invisível para quem visita. As equipes treinadas e baseadas no México simplesmente se adaptam melhor.
O nome comercial mudou — é Estadio Banorte desde 2025, graças ao contrato de naming rights com o banco que ajudou a financiar a reforma. A FIFA usa "Estadio Azteca Ciudad de México" nos materiais oficiais. O mundo inteiro continua chamando de Azteca.
Nenhum outro estádio do planeta viu Pelé erguer uma taça, Maradona tocar com a mão e chamar de milagre, 132 mil pessoas gritar num ringue e uma terceira geração de jogadores disputando a Copa do Mundo no mesmo gramado.
Ainda faltam 39 anos para o contrato dos camarotes vencer.
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