Links Curiosidades Histórias Bastidores Cultura e Torcida Personagens Outras Modalidades
Imagem

O Último Capítulo de Pelé Foi Escrito em Nova York

Em outubro de 1974, Pelé se despediu do Santos depois de 18 anos, 638 jogos e mais de mil gols. Tinha 34 anos e estava aposentado.

Oito meses depois, estava em Nova York.

No dia 10 de junho de 1975, o New York Cosmos apresentou seu novo jogador num evento no restaurante 21 Club, em Manhattan. Jornalistas, empresários e celebridades lotaram o salão. Lá fora, câmeras de televisão de todo o mundo esperavam. Dentro, Pelé sorriu para as fotos com a camisa verde do Cosmos e disse que havia ido aos Estados Unidos para "ajudar a crescer o futebol". Era uma missão. Era também um recomeço.

Do Time que Ninguém Via ao Estádio Que Não Cabia

Antes de Pelé chegar, o maior público que o Cosmos havia reunido numa temporada era de pouco mais de 8.000 pessoas. Um jogo de futebol numa cidade de 8 milhões de habitantes, assistido por 8.000 pessoas.

Pelé jogou sua primeira partida oficial em julho de 1975. A cidade precisava de algo para se animar — naquele mesmo mês, o governo federal rejeitou o pedido de ajuda financeira de Nova York, dando origem à famosa manchete do Daily News: "Ford To City: Drop Dead." O Cosmos e Pelé chegaram como um contraponto improvável ao caos da cidade.

Em três temporadas, Pelé disputou 64 jogos pela NASL e marcou 37 gols. Em campo, manteve o que havia construído no Santos: primeiro nas listas de todos-estrelas da liga em 1975, 1976 e 1977. Mas o que ele transformou fora do campo foi igualmente espantoso.

Em 14 de agosto de 1977, o Cosmos recebeu o Fort Lauderdale Strikers no Giants Stadium. Foram 77.691 pessoas. No mesmo ano, Pelé marcou um hat-trick contra o Tampa Bay Rowdies — 62.394 no estádio. A média de público na temporada de 1977 foi de 42.689 por jogo. Em três anos, a audiência tinha multiplicado por mais de cinco.

O Cosmos ganhou o campeonato da NASL em 1977, a conquista que encerrou a carreira competitiva de Pelé.

Studio 54, Beckenbauer e a Nova York que Ninguém Esperava

O Cosmos dos anos 1970 não era um clube de futebol comum. Era um fenômeno cultural.

Mick Jagger frequentava os jogos. Andy Warhol levava seus amigos. Muhammad Ali aparecia nas arquibancadas. Robert Redford virava presença habitual. Num período em que Nova York vivia entre a decadência financeira e a explosão criativa da era disco, o Cosmos tinha encontrado um espaço único — metade esporte, metade espetáculo.

Depois dos jogos, os jogadores tomavam limusines direto para o Studio 54. O clube havia fundido futebol com a cultura pop de uma forma que nenhum time americano havia tentado antes.

E os jogadores vinham de todos os lados. Franz Beckenbauer, campeão mundial com a Alemanha Ocidental e bicampeão da Bola de Ouro, deixou o Bayern de Munique para jogar ao lado de Pelé. Carlos Alberto Torres, capitão do Brasil tetracampeão de 1970 e responsável pelo gol que encerrou o 4 a 1 sobre a Itália no Azteca, também cruzou o Atlântico. Giorgio Chinaglia, referência do futebol italiano, completava o ataque.

Era um time que, em qualquer outra liga do mundo, teria competido pelos maiores títulos. Nos Estados Unidos dos anos 1970, jogava contra times como o Connecticut Bicentennials e o Tampa Bay Rowdies.

O Adeus, a Chuva e o Eco de 49 Anos

Em 1º de outubro de 1977, 75.646 pessoas foram ao Giants Stadium para a despedida de Pelé. O adversário era o Santos — o único outro clube da carreira do Rei.

Pelé jogou o primeiro tempo com a camisa verde do Cosmos. No intervalo, trocou para a camisa branca do Santos. A partida terminou 2 a 1 para o Cosmos. Quando o apito final soou, a chuva tinha começado. Um jornal brasileiro estampou no dia seguinte: "Até o céu estava chorando."

Antes de deixar o campo, Pelé pediu o microfone. Discursou em inglês, português e francês. Pediu atenção às crianças do mundo. E terminou pedindo ao público que repetisse uma palavra com ele, três vezes:

"Love. Love. Love."

Quarenta e nove anos depois, em 19 de julho de 2026, o MetLife Stadium recebeu a final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha. No intervalo — o primeiro show de intervalo da história dos Mundiais —, a FIFA escolheu um único jogador para homenagear individualmente. As imagens de Pelé tomaram o telão. Sua voz preencheu o estádio. A palavra voltou ao mesmo lugar onde havia sido dita pela última vez.

O MetLife Stadium fica no mesmo complexo esportivo de East Rutherford, Nova Jersey, onde o Giants Stadium existiu até ser demolido em 2010. É praticamente o mesmo campo. A mesma terra.

A liga americana de futebol daquela época não sobreviveu muito tempo depois da aposentadoria de Pelé. Mas a semente que ele plantou em três temporadas brotou décadas depois, numa Copa do Mundo realizada no país que ele foi ajudar a descobrir o futebol.


Siga o @alemdabolaoficial no Instagram para mais histórias que vão além do placar.

Você também pode se interessar por: