A Maior Final da América do Sul Foi Jogada na Europa
O que se seguiu durou minutos. Pedras, garrafas e pedaços de madeira arremessados pela torcida do River destruíram as janelas do veículo. A polícia interveio com gás lacrimogêneo, mas as janelas já estavam abertas após os primeiros impactos. A fumaça entrou. Jogadores sufocaram. O capitão Pablo Pérez foi levado ao hospital com um corte no olho e ficou com 40% de visão comprometida. O jovem Gonzalo Lamardo foi internado com dificuldades respiratórias. Carlos Tevez, Wanchope Ábila e Edwin Cardona também foram afetados.
Era a final da Copa Libertadores.
A Partida que o Continente Esperou Décadas
Boca Juniors e River Plate nunca tinham se encontrado numa final da Libertadores. Em 60 anos de competição, os dois maiores clubes da Argentina — e protagonistas de uma das maiores rivalidades do futebol mundial — nunca tinham chegado juntos ao mesmo jogo decisivo.
Quando isso finalmente aconteceu em 2018, a imprensa sul-americana tratou o confronto como um evento histórico irrepetível. A Fox Sports registrou os maiores números de audiência na América Latina desde a Copa do Mundo de 2010. O primeiro jogo, realizado em 11 de novembro na Bombonera, terminou 2 a 2 sob tensão extrema — e havia sido adiado 24 horas por causa da chuva. Ainda assim, passou sem incidentes maiores.
Para o segundo jogo, no Monumental, a torcida do Boca não poderia entrar. Uma determinação da própria Argentina proibia torcidas visitantes nos estádios desde 2013. As mais de 66 mil pessoas presentes na arena seriam exclusivamente torcedores do River.
O ônibus do Boca foi atacado antes mesmo de chegar ao portão.
O Caos Jurídico e a Decisão que Ninguém Esperava
Com dois jogadores hospitalizados, a CONMEBOL adiou a partida por 24 horas. No domingo, horas antes do novo horário, cancelou novamente. O governo argentino abriu investigação e o ministro de Segurança pediu demissão. A CONMEBOL convocou uma reunião de emergência em Assunção, no Paraguai.
O Boca entrou com recurso exigindo a desclassificação do River. O argumento era preciso: em 2015, torcedores do Boca haviam borrifado gás de pimenta sobre jogadores do River no túnel do vestiário da Bombonera. Na época, a própria CONMEBOL desclassificou o Boca e declarou o River vencedor. Agora o clube azul-e-ouro queria o mesmo precedente aplicado ao adversário.
A CONMEBOL rejeitou o pedido. O Boca recorreu ao Tribunal de Apelações da entidade. Novo rechaço. O clube levou o caso ao TAS — o Tribunal Arbitral do Esporte, em Lausanne. O TAS também rejeitou a demanda antes da partida.
O técnico do River, Marcelo Gallardo, escalou o próprio drama pessoal ao cenário. Suspenso por ter entrado no vestiário durante o intervalo de uma semifinal contra o Grêmio — ignorando uma punição anterior pelo mesmo motivo — Gallardo não poderia sentar no banco técnico. Nem sequer entrar em campo. Dirigiu o River de fora do estádio, passando orientações por intermediários.
A CONMEBOL anunciou em 29 de novembro: a partida seria jogada em Madri, no Santiago Bernabéu, em 9 de dezembro. A capital espanhola foi escolhida por ter uma das maiores populações argentinas fora da Argentina.
Madri, 9 de Dezembro
Pela primeira vez em décadas de Superclásico, torcedores dos dois times ocuparam o mesmo estádio ao mesmo tempo. A proibição de torcidas visitantes na Argentina não tinha jurisdição sobre o Bernabéu. Argentinos de azul-e-ouro e de vermelho-e-branco se misturaram nas arquibancadas da casa do Real Madrid enquanto o ex-presidente da FIFA Gianni Infantino e Lionel Messi assistiam das tribunas.
A cena era improvável ao ponto de parecer encenada.
River venceu por 3 a 1. Com os 2 a 2 do primeiro jogo, o placar agregado foi de 5 a 3. Era o quarto título do River na Copa Libertadores, e o primeiro desde 2015. O Boca permaneceu com seis títulos e perdeu a chance de igualar o Independiente como clube mais vitorioso da competição.
Gallardo, suspenso, não estava no banco. Seu assistente Matías Biscay levantou a taça.
A Copa Libertadores nunca mais realizou uma final em dois jogos. A partir de 2019, o título passou a ser decidido numa única partida, em campo neutro. A Superfinal de 2018 foi, sem que ninguém soubesse na época, a última final de ida e volta da história da competição.
O maior clássico da América do Sul finalmente aconteceu numa final. E precisou de outro continente para chegar até o fim.
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