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O Vizinho que Passou 44 Anos na Sombra — e Virou o Dono de Manchester

Em 30 de maio de 1999, quatro dias depois do Manchester United vencer a Champions League em Barcelona e completar o maior triplete da história do futebol inglês, o Manchester City jogou sua final de temporada no velho Wembley.

Não era uma final de Copa. Era a final da repescagem da segunda divisão — contra o Gillingham.

Dois rebaixamentos em três anos haviam levado o City à terceira divisão inglesa pela primeira vez na história do clube. Naquele mesmo inverno, um jogo em casa contra o Mansfield Town tinha reunido 3.007 pessoas. Na Manchester do futebol mais poderoso do mundo, o vizinho azul estava a quilômetros de distância — em todos os sentidos.

A Sombra que Durou Décadas

Não era algo novo. O domínio do United sobre Manchester havia sido construído ao longo de uma geração inteira.

De 1993 a 2013, sob o comando de Alex Ferguson, o United venceu 13 títulos da Premier League. Duas Champions League. Cinco FA Cups. O triplete de 1999 — Premier League, FA Cup e Champions League na mesma temporada — foi a culminação de algo que não tinha precedente no futebol inglês e provavelmente nunca será igualado.

O City, nesse mesmo período, era alternadamente mediano, irrelevante e, no pior momento, terceira divisão. O clube que havia sido campeão inglês em 1968 sobreviveu os anos 90 tentando não afundar. Enquanto o United treinava no complexo de Carrington e negociava com as maiores estrelas do mundo, o City jogava em Wycombe e Wrexham, em estádios sem plateia, tentando achar a saída do buraco.

A final de Wembley de 1999 é o emblema dessa época. O City estava perdendo por 2 a 0 para o Gillingham nos acréscimos, a apenas segundos de passar mais uma temporada na terceira divisão. Kevin Horlock marcou no primeiro minuto de acréscimo. Cinco minutos depois — no quinto minuto dos acréscimos — Paul Dickov empatou no canto. A prorrogação terminou sem gols. O City venceu nos pênaltis.

Era uma vitória na terceira divisão. O United tinha a Champions League. Mas sem aquele dia, provavelmente nada do que viria depois teria acontecido.

93 Minutos e 20 Segundos

A virada começou em setembro de 2008, quando o xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, membro da família real de Abu Dhabi, comprou o Manchester City por £200 milhões. Naquele mesmo dia, o clube anunciou a contratação de Robinho, do Real Madrid, pelo maior valor pago por um jogador na história do futebol inglês até então.

O United ainda dominava. Mas o relógio tinha começado a contar.

Em maio de 2012, o City precisava vencer o QPR no último jogo da temporada para conquistar o primeiro título inglês em 44 anos — desde aquela temporada de 1968. O United havia terminado sua partida. Estava comemorando o título. Faltavam dois minutos no Etihad.

O QPR vencia por 2 a 1.

Edin Džeko empatou nos acréscimos. Ainda não bastava. E então, com 93 minutos e 20 segundos no cronômetro, Sergio Agüero recebeu de Balotelli dentro da área, passou por um marcador e bateu cruzado no canto. O Etihad explodiu. A quinze segundos dali, os jogadores do United tinham parado de comemorar.

Era o único título da Premier League decidido na diferença de gols na história da competição. Era o fim de 44 anos de espera. E era o início de outra coisa.

O City Virou o United

O que se seguiu foi uma inversão que Ferguson, antes de se aposentar em 2013, nunca chegou a reverter.

Sob Pep Guardiola, chegado em 2016, o City passou a colecionar títulos com a cadência que o United teve nos anos 90. Em 2018, venceu a Premier League com 100 pontos — recorde histórico da competição. Em 2023, conquistou o próprio triplete: Premier League, FA Cup e Champions League. Era a resposta àquele de 1999, em Barcelona. Feita pelo rival. No mesmo estádio de Wembley onde, vinte e quatro anos antes, um time do City havia comemorado uma vitória na repescagem da terceira divisão.

Nos dez anos entre 2016 e 2026, o City somou 17 títulos domésticos. O United, cinco.

O United, depois de Ferguson, passou por David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjær, Ralf Rangnick e Erik ten Hag. Nenhum chegou perto de recriar o que havia sido construído. O clube que havia dominado o futebol inglês por duas décadas passou a alternar campanhas medianas e crises de gestão, enquanto o vizinho erguia troféus com regularidade industrial.

A ironia mais completa da história recente do futebol inglês é essa: o United levou décadas para construir a sua hegemonia. O City levou menos de quinze anos para superá-la. E o clube que passou uma temporada inteira jogando diante de 3.000 pessoas em Manchester — enquanto o vizinho conquistava a Europa — hoje é o time dominante da cidade, do país e, por extensão, do continente.

Quem escreveria isso, em maio de 1999, seria desacreditado em qualquer bar de Manchester.


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