Links Curiosidades Histórias Bastidores Cultura e Torcida Personagens Outras Modalidades
Imagem

A Taça que Sobreviveu aos Nazistas e Sumiu no Rio de Janeiro

Em 19 de dezembro de 1983, dois homens entraram na sede da CBF no Rio de Janeiro, amarraram o vigia noturno e forçaram uma vitrine com um pé de cabra.

Levaram a Jules Rimet. Nunca mais foi vista.

Era o troféu mais famoso da história do futebol. O objeto que Pelé ergueu em 1970, depois do 4x1 sobre a Itália no Azteca. O que atravessou guerras, continentes e dois roubos. O original não existe mais — ou pelo menos é isso que tudo indica.

A Deusa que Virou o Troféu Mais Cobiçado do Mundo

Abel Lafleur recebeu a encomenda em 1929. O escultor francês criou uma peça de 35 centímetros e 3,8 quilos: Nike, a deusa grega da vitória, segurando um cálice com as mãos erguidas. Prata maciça folheada a ouro, base de lápis-lazúli. Jules Rimet, presidente da FIFA que criou a competição, chamou o troféu simplesmente de "Vitória."

Em 1930, a taça viajou ao Uruguai no navio Conte Verde e voltou a cada quatro anos para o país campeão. Em 1938, a Itália ganhou a Copa — e ficou com a guarda do troféu. Um ano depois, o mundo entrou em guerra.

Ottorino Barassi, dirigente italiano e vice-presidente da FIFA, tomou uma decisão silenciosa. Pegou a taça de um banco em Roma, levou para casa e a escondeu dentro de uma caixa de sapatos, debaixo da cama. Por seis anos, enquanto a Europa ardia, a Copa do Mundo ficou num quarto em Roma. Os nazistas nunca chegaram perto.

Londres, 1966 — e o Cachorro que Salvou a Copa

Em março de 1966, quatro meses antes do Mundial inglês, a Associação de Futebol da Inglaterra concordou em exibir a Jules Rimet numa exposição filatélica em Westminster. A taça estava avaliada oficialmente em £3.000 — segurada por £30.000. Ao redor dela, selos raros avaliados em £3 milhões.

O ladrão foi atrás da taça.

Na tarde de 20 de março, ele passou por seis seguranças, removeu um cadeado, forçou a vitrine e saiu com o troféu. Em plena luz do dia. A Scotland Yard foi acionada. Uma semana de pânico internacional se seguiu: um dirigente brasileiro chamou o roubo de "sacrilégio"; o presidente da federação finlandesa declarou publicamente estar "furioso".

Uma demanda de resgate chegou a Joe Mears, presidente da FA: £15.000. A polícia armou uma cilada. O homem preso — Edward Betchley, revendedor de carros usados — alegou ser apenas um intermediário. O verdadeiro ladrão nunca foi formalmente condenado. Apenas décadas depois, investigações jornalísticas apontaram Sidney Cugullere, um gângster londrino, como o responsável.

Em 27 de março, David Corbett saiu para passear com seu collie preto e branco, Pickles, no bairro de Beulah Hill, no sul de Londres. O cachorro fareou um embrulho de jornal amarrado com barbante, debaixo de uma sebe. Corbett abriu. Dentro estava a Jules Rimet.

Pickles virou celebridade. Participou de filmes, jantou com a seleção inglesa e ganhou a medalha de prata da Liga Nacional de Defesa Canina. David Corbett recebeu £6.000 de recompensa. Naquele verão, a Inglaterra foi campeã na Wembley. Pickles morreu em 1967, aos cinco anos, estrangulado pela própria coleira.

Rio de Janeiro, 1983 — Sem Final Feliz

Em 1970, o Brasil venceu a Copa pela terceira vez. A regra original de Jules Rimet era clara: o primeiro país a conquistar três títulos ficaria com a taça em caráter permanente. A Jules Rimet veio para o Rio de Janeiro e foi instalada na sede da CBF — numa vitrine com vidro à prova de balas na frente.

A parte de trás era de madeira.

Na noite de 19 de dezembro de 1983, com o Natal se aproximando e o edifício com equipe reduzida, dois homens entraram, renderam o vigia noturno, vendaram-no e o forçaram a guiá-los até o nono andar. Com um pé de cabra, arrombaram a parte traseira da vitrine. Levaram a Jules Rimet e mais dois troféus menores. Não deixaram nenhuma demanda de resgate. Desapareceram.

O mentor era Sérgio Peralta, um agente financeiro. Os executores: Francisco Rivera, ex-policial conhecido como "Chico Barbudo", e José Luiz Vieira, um pintor de paredes. Um negociante argentino de ouro, Juan Carlos Hernández, comprou um imóvel de luxo em Humaitá pouco após o roubo — o que levantou a suspeita de que a taça tivesse sido fundida em barras.

Mas havia um problema com essa teoria. A Jules Rimet não era de ouro maciço. Era prata folheada. O delegado Pedro Berwanger, da Polícia Federal, que liderou as investigações, sempre defendeu que a taça valeria muito mais intacta do que derretida — e que provavelmente foi vendida no mercado negro.

Os quatro acusados foram julgados e condenados à revelia. Chico Barbudo foi morto a tiros por cinco homens num bar, em 1989. O mastermind Sérgio Peralta morreu de infarto em 2003. A taça nunca apareceu.

O único fragmento da Jules Rimet que sobreviveu é sua base original de lápis-lazúli, guardada pela FIFA em Zurique. Em 1984, a Kodak do Brasil doou uma réplica à CBF. É essa réplica que está em exibição hoje no Museu da Seleção Brasileira.

A taça que os capitães erguem em cada final de Copa desde 1974 é diferente — projetada pelo italiano Silvio Gazzaniga, em ouro de 18 quilates, com duas figuras humanas sustentando o planeta. O futebol seguiu em frente.

A Jules Rimet sobreviveu à Segunda Guerra, a um ladrão em Londres e a um cachorro que não devia nada ao futebol. Não sobreviveu a uma madrugada de dezembro no Rio de Janeiro, a um pé de cabra e a uma vitrine com o lado de trás de madeira.


Siga o @alemdabolaoficial no Instagram para mais histórias que vão além do placar.

Você também pode se interessar por: