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O Único Derby do Futebol Disputado em Dois Continentes

O Bósforo tem 31 quilômetros de extensão e separa a Europa da Ásia. Em Istambul, também separa dois dos maiores rivais do futebol mundial.

Galatasaray joga no lado europeu da cidade. Fenerbahçe joga no lado asiático. Quando os dois se enfrentam — no que a imprensa esportiva chama de Derby Intercontinental — é o único clássico de grande porte no futebol mundial em que um time cruza continentes para enfrentar o outro.

Mas a rivalidade em Istambul não tem dois lados. Tem três.

Três Clubes, Três Histórias, Uma Cidade

O mais antigo dos três é o Beşiktaş, fundado em 1903 como clube de ginástica num bairro de classe trabalhadora às margens do Bósforo, no lado europeu da cidade. O uniforme é preto e branco. O apelido é "Águias Negras." É o clube que nunca foi o favorito — mas raramente fica fora da disputa.

Dois anos depois, em 1905, um grupo de estudantes da Galatasaray Lisesi — o mais prestigioso colégio do Império Otomano, onde as aulas eram ministradas em francês e o acesso era privilégio das famílias de elite — fundou o Galatasaray. Vermelho e amarelo. O clube carrega até hoje a identidade de suas origens aristocráticas. Também é o mais bem-sucedido dos três: 24 títulos do Campeonato Turco, o recorde da competição.

Em 1907, no lado asiático da cidade, no bairro de Kadıköy, homens de origem mais modesta fundaram o Fenerbahçe. Amarelo e azul-marinho. O clube se tornou rapidamente o símbolo de uma Istambul popular e crescente — o "time do povo turco," como seus torcedores ainda o chamam. 19 títulos nacionais, o segundo maior total histórico.

Os três clubes juntos venceram mais de 90% de todos os campeonatos turcos disputados desde a criação da liga, em 1959. Em diversas temporadas, os três brigam pelo título simultaneamente. É a única grande cidade do mundo onde três clubes — todos da mesma metrópole — dominam o futebol nacional com essa consistência.

O Derby que Virou Caso de Política Externa

Quando o Galatasaray e o Fenerbahçe se enfrentam, a divisão geográfica entre Europa e Ásia não é só poética. É literal. Os torcedores precisam atravessar o Bósforo — de ponte ou de balsa — para ir ao estádio do rival.

O Derby Intercontinental é um dos mais assistidos e mais tensos do futebol mundial. O nível de hostilidade dentro e fora dos estádios levou a Turquia a proibir torcidas visitantes nos principais clássicos — nas ocasiões em que a proibição é suspensa, os incidentes raramente demoram a acontecer.

Em 2000, o Galatasaray levou o Derby Intercontinental para um outro patamar. A campanha europeia do clube resultou na final da Copa UEFA contra o Arsenal, em Copenhague. O jogo terminou 0 a 0 após a prorrogação. Nos pênaltis, o Galatasaray converteu quatro e venceu por 4 a 1. O goleiro Cláudio Taffarel — o mesmo que havia defendido o Brasil nas Copas de 1994 e 1998 — foi eleito o melhor jogador da partida.

Foi o primeiro título europeu de um clube turco na história.

Menos de três meses depois, o Galatasaray enfrentou o Real Madrid na Supercopa da UEFA, em Monaco. O brasileiro Mário Jardel marcou os dois gols na virada — o segundo, em gol de ouro na prorrogação, deu ao clube de Istambul mais um troféu continental. Um clube fundado por estudantes de uma escola otomana havia batido o clube mais vitorioso da Europa.

O Fenerbahçe assistiu de casa. A rivalidade não tem trégua.

O Escândalo que Nunca Vai Acabar

Na madrugada de 3 de julho de 2011, operações policiais simultâneas em 15 cidades turcas resultaram na prisão de 93 pessoas ligadas ao futebol. Entre os detidos: Aziz Yıldırım, presidente do Fenerbahçe desde 1998 e figura central do clube.

A investigação — conhecida como Şike Davası, o "Caso da Trapaça" — havia reunido 1.028 gravações de escutas telefônicas relacionadas a 13 partidas do Campeonato Turco. Em 103 delas, a voz de Yıldırım aparecia discutindo a manipulação de resultados durante a temporada 2010-11, justamente a que o Fenerbahçe havia vencido.

Yıldırım foi condenado a mais de seis anos de prisão, mas foi libertado após cumprir um ano de preventiva. O Fenerbahçe foi banido da Champions League de 2011-12. O título da temporada investigada não foi retirado do clube.

Para torcedores do Galatasaray e do Beşiktaş, o apelido "Şike-bahçe" — junção de şike (trapaça) com Fenerbahçe — entrou para o vocabulário permanente do derby. Para os torcedores do Fenerbahçe, a investigação nunca foi sobre futebol: foi uma operação política para destruir o clube. Um tribunal turco, anos depois, condenou os policiais que conduziram a operação por tentativa de desestabilização do governo.

A verdade jurídica sobre o que aconteceu em 2011 ainda é disputada. O que não é disputado: o escândalo transformou uma rivalidade de campo numa guerra que extravasa o futebol.

No mundo inteiro, quando dois clubes se odeiam, a questão é simples: quem está em cima e quem está em baixo. Em Istambul, nem isso é simples. São três — de continentes, classes sociais e versões diferentes da história — brigando pelo mesmo troféu, na mesma cidade, sem qualquer sinal de que vão parar.


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